Campeão mundial pelo Corinthians em 2000, o ex-zagueiro João Carlos, que teve seu nome cotado para ser técnico do Noroeste e esteve em Bauru para concluir tratativas, que tiveram desfecho surpreendente com uma reviravolta de última hora e a não assinatura de contrato, conversou com o Jornal da Cidade sobre a participação do Corinthians no Mundial de Clubes deste ano e lembrou a trajetória da equipe que integrou há 12 anos e levantou o troféu no Maracanã, após vencer o Vasco na decisão por penalidades. Na entrevista a seguir, João Carlos, que de ex-servente de pedreiro foi ainda campeão paulista, em 2001, e brasileiro, em 1999, pelo Corinthians, relembra momentos marcantes do Mundial de 2000, analisa o atual time alvinegro e palpita sobre o título no Japão. Confira os principais trechos.
Jornal da Cidade – Quais memórias guarda do Mundial de 2000?
João Carlos – É muito gostoso relembrar. Lembro-me de quase tudo, desde os treinamentos e concentração até os jogos, a final. A final, inclusive, foi um momento triste para mim, porque eu não participei. Na semifinal contra o Real Madrid, eu acabei tendo um estiramento em grau dois, que acabou me tirando do Mundial e até mesmo do início da Libertadores e do Campeonato Paulista de 2000.
JC – Como foi ter ficado de fora justamente da final?
João Carlos – Foi muito ruim, muito triste. Mas eu pude ficar no banco, junto com os jogadores e comissão técnica. E o sofrimento é maior. A decisão foi para os pênaltis, foi muito dramático. E eu ali no banco, sem poder nem ter chance de entrar no jogo. Depois que fomos campeões, eu até dei uma corrida junto, com o troféu, e o pessoal brincou dizendo que eu estava bom, estava correndo (risos). Mas naquele momento de alegria, felicidade, na velha volta olímpica, acabei esquecendo a dor e correndo junto. Foi muito gostoso e guardo boas recordações.
JC – Das partidas que disputou naquele Mundial, qual foi a mais marcante?
João Carlos – Todos os jogos foram bons, marcantes. Foram jogos difíceis, jogamos algumas vezes à tarde, pegamos jogos com muita chuva. Todos os jogos foram no Morumbi. Mas o jogo mais difícil que nós pegamos foi a semifinal contra o Real Madrid. O (atacante) Karembeu falando mal do Edílson, que não conhecia o Edílson. E o Edílson falou num treino nosso que iria dar uma “caneta” nele e fazer um gol. E no jogo aconteceu mesmo, deu uma caneta e fez o gol de empate. Foi um detalhe que ficou marcado. Outro detalhe é que o Real Madrid tinha o Roberto Carlos, que é um jogador que jogou no Palmeiras, sempre adversário do Corinthians, uma rivalidade muito grande. No jogo, quando o Roberto Carlos encostava na bola, a torcida gritava muito, xingando. Foram momentos que ficaram marcados em minha lembrança deste Mundial.
JC – Chegou o momento no campeonato que vocês sentiram que seriam campeões, ninguém tiraria mais?
João Carlos – Nós não tivemos este momento, não. Até mesmo porque foi um Mundial muito complicado. A semifinal contra o Real Madrid foi muito difícil e para a final fomos três dias antes para o Rio (o jogo contra o Vasco foi no Maracanã). Eu me recordo bem que ninguém pensava que estava ganho. Sabíamos que seria um jogo difícil, pegamos uma torcida contra e até me surpreendeu muito porque tinha muitos corintianos no estádio. A gente sabia que o jogo seria difícil, mas tínhamos uma boa equipe, que poderia sair campeã. Tenho até um vídeo que fala que, no final, as duas equipes estavam cansadas e segurando para levar para os pênaltis. Nossa equipe realmente estava muito cansada. A gente vinha de um desgaste muito grande, de uma final de Brasileiro e não tivemos férias, folga, nada. Já nos preparamos para o Mundial, que foi no começo do ano. Neste ano tivemos sete dias de férias. Foram três anos no Corinthians e o pessoal sempre falando que tudo ali era na dificuldade. E é verdade.
JC – Você considera o Mundial o título mais importante de sua carreira?
João Carlos – Eu considero um dos mais importantes. O Mundial, muita gente não aceita, mas é Fifa. Está lá o símbolo da Fifa. Mas tem um título que eu guardo em um lugar muito especial, que é o Brasileiro de 1999. Por que? Porque estive na final em 98, mas contra o Corinthians, pelo Cruzeiro. Logo em seguida, eu e o Dida nos transferimos para o Corinthians e conseguimos o título no ano seguinte. E eu sempre joguei pelo Cruzeiro e fomos campeões contra o maior rival, que é o Atlético-MG. Mas tem também a Copa América (1999) com a Seleção Brasileira em minha primeira convocação. Eu me consagrando campeão em minha primeira convocação. Cada título tem um gostinho especial.
JC – Falando do Corinthians atual, qual seu palpite para a final?
João Carlos – Está aberto. O Corinthians tem um ótimo plantel, boa equipe para jogar de igual para igual com o Chelsea. Mas o Chelsea também é uma equipe forte, não está bem no Campeonato Inglês, foi eliminado na Champions League, mas se olhar jogador por jogador do Chelsea são jogadores de seleções de seus países. Mas, com certeza, o Corinthians tem tudo para conseguir ter êxito neste Mundial.
JC – Falando do setor que você é especialista, o que acha da zaga do Corinthians?
João Carlos – É uma zaga forte, marca forte. Não vou dizer nem só da zaga. O Corinthians tem um todo completo em termos de marcação. Os próprios ataques marcam muito, os dois meias marcam muito e tem os dois volantes, que jogam, chegam, fazem gol e marcam muito também. O Corinthians, hoje, é um conjunto. Dentro deste conjunto, acaba destacando a zaga pelo fator de marcação de toda a equipe.
JC – Quem seria o João Carlos do Corinthians hoje?
João Carlos – É difícil. Sempre fui um atleta que procurei trabalhar muito, sempre procurei a melhor performance possível. Não tem um destaque para poder comparar. É um time que se adaptou muito ao esquema do Tite, são jogadores que trabalham muito. O que mais se compara é o conjunto, a performance do Corinthians tecnicamente, fisicamente, a entrega dos jogadores não só para o time, mas para o técnico também. Eu falava muito ‘vamos correr pela nossa profissão, pelo que a gente gosta de fazer, pelo Corinthians e também pelo treinador’. Hoje, pelo que eu vejo, o grupo gosta muito do treinador, o que é muito importante. Já trabalhei em clube que o jogador falava: ‘não vou correr por este treinador, ele não merece’. E o cara não corre e acaba derrubando o treinador. Isso prejudica todo o grupo e a pessoa acaba se prejudicando. Mas a mentalidade do João Carlos do Corinthians é a mentalidade desses jogadores de hoje. Você estar mal tecnicamente, fisicamente, é uma coisa. Mas você não fazer a função que o treinador pede, é outra. É uma desobediência tática. Um ponto forte, hoje, no Corinthians é esta obediência tática. É importante esta união, este pensamento coeso.