Varrendo a calçada, o menino pediu-me um copo com água. Servi. Onde mora? Na favela tal. Papai e mamãe? Catadores de papel. Tá com fome? Acabei de comer. Posso chamar o senhor de vovô e saber como vai? Vivendo com Deus. Apesar da idade, não me acomodei. Passei dos 86. Exercício físico e mental. Caminhadas. Escrevo livros, leio e medito muito. A esposa? No ano 1997, você nem tinha nascido, carruagem com cavalos brancos desceu e os anjos a levaram pro céu. Saudade a me conduzir devagarzinho. Mora só? Não. Filho, nora e netos meus vizinhos. Almoço com eles. Alimentam-me também com o carinho. A filha mora no sul. Porto Alegre. Conversamos diariamente. O que o senhor escreve nos livros? Coisas da vida e de Deu. Sabe, vô, eu amo Deus! Nunca reclamo e não tenho inveja de nada. Só não entendo umas coisas. Olha. O Natal tá chegando e fazem campanhas pra dar comida pros pobres nesse dia. E nos outros dias depois do Natal pobres não tem fome? Esquisito, né? Filho, compreender o que as pessoas fazem é sempre mistério. Não julgá-las.
Deus ensinou a ajudar e a amar o próximo seja qual for sua condição e em qualquer tempo. Você disse que não tem inveja de nada. Fico feliz! Quem tem o olho gordo fica com a raiva, o egoísmo e o orgulho. Instrumentos do mal. Desagradam a Deus. É mesmo, vovô. Tem pessoas que só pensam nelas... O que o Natal é pro senhor? O Natal é... Tempo parou. Mundo calou-se. O menino era o mundo a ouvir o idoso. Olhos arregalados. Não compreendia ainda o Natal. Seus pais nunca souberam lhe contar direitinho.
O Natal, filho, é a emoção que você sente quanto acontece coisa linda que o faz feliz. É um monte de balões coloridos pra ficar olhando pra cima. O pescoço nem dói ao olhar o céu. Natal é uma porta. Todos podem abrir entrar e receber amor de anjos disfarçados em beija-flores a festejar. É a água que você acabou de beber. É quando a gente vibra de alegria com o amor a renascer fortalecido pela esperança. Sentir mais saudade dos amados que a carruagem com cavalos brancos levou acima dos balões. O Natal é como agora. Falar com Jesus Cristo. Todos os dias. É o momento da humildade gloriosa da natividade. A certeza de que nunca estamos desamparados. Nunquinha!
Os olhos do menino brilhando que nem o sol. Puxa, vô! É a primeira vez que vou abrir a porta, ver o Natal e os beija-flores... A chorar emocionado, descansou a cabeça no ombro do vovô que ganhou. Contrariando a lei da gravidade, suas lágrimas subiram pro céu...
Munir Zalaf - membro da ABLetras