08 de julho de 2026
Articulistas

Alerta perpétuo

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Os Estados Unidos foram construídos sobre um misto de democracia, trabalho duro, determinação, inteligência, senso de oportunidade e criatividade; mas também de escravidão, dominação externa, sectarismo e, o mais importante, medo. O radicalismo religioso em suas versões mais extremas foi o primeiro patrulheiro ideológico dos Estados Unidos. Na época das 13 colônias, contudo, o medo era justificável, pois os pioneiros estavam em um fim de mundo selvagem, cheio de índios e outros perigos. Além disso, a moral religiosa via pecado em tudo, a não ser no trabalho duro. Se o pecado era tão perigoso e o trabalho era a única virtude, o resultado só poderia ser o acúmulo de dinheiro.

Depois de acumular muito dinheiro, dizimar os índios, roubar um pedaço do México e se tornar uma potência mundial, o país do Tio Sam continuou a cultivar o medo e o direito às armas como parte de sua ideologia. Mas o que antes serviu como um elemento de construção do país é agora responsável por massacres inexplicáveis, como o da última sexta-feira, que deixam uma ferida profunda na sociedade. Um de meus colegas de república na época da faculdade era americano. Vinha de uma família de classe média alta de Atlanta, conhecia o mundo inteiro, era culto e tinha uma visão crítica e progressista do mundo. Mesmo assim, ao completar 18 anos ganhou um rifle calibre 12 de seu pai. Em sua casa havia coleções de armas. "Faz parte da cultura de lá, é normal", explicou ele.

Supõe-se que um pai que dá uma "12" para o filho de 18 anos tem certeza absoluta de que o jovem terá, sempre, um altíssimo nível de controle emocional. Nem passa pela sua cabeça que o filho possa utilizar o presente de aniversário para descarregar suas frustrações nos outros. Ele acredita piamente que o filho estará mais seguro com a arma no caso de algum perigo - como uma invasão de ladrões perigosos, um ataque surpresa da Coreia do Norte ou da Al Qaeda, uma revolta dos pobres, uma guerra nuclear seguida de saques generalizados, ou a possibilidade sempre iminente de a Terra ser tomada por seres de outros planetas.

No filme "Tiros em Columbine", o cineasta Michael Moore disseca a predileção dos norte-americanos pelas armas. Além do fator cultural há, é claro, o econômico. As indústrias de armas estão nas mãos de pessoas extremamente ricas e poderosas. Por serem tão ricas, conseguem fazer seus interesses triunfarem no parlamento dos EUA. Qualquer guerra é um bom negócio para esses negociantes - e também para os de outras áreas, como marmitas, sistemas de comunicação, uniformes, botas, medicamentos, jalecos e outros produtos. O cineasta também documentou (em "Fahrenheit 11/9") uma reunião de empresários prestes a investir no Iraque, quando a invasão estava apenas começando. No filme, o empresário Youssef Sleiman fala o seguinte à plateia:

"(...) Logo que o petróleo começar a jorrar (e ele vai) e o dinheiro a entrar, teremos muito dinheiro. Aquela é a segunda maior reserva de petróleo do mundo. E dinheiro é o que não vai faltar. E vai ficar melhor. Comecem a fazer negócios, porque vai melhorar muito quando o petróleo jorrar e a receita crescer. E não importa o preço, porque o governo vai pagar."

Para o público que ouvia o sr. Sleiman, a propaganda oficial do governo sobre a invasão do Iraque era dispensável. Ninguém precisava ser convencido de que Saddam Hussein tinha armas químicas ou de que a invasão era para libertar os iraquianos. Isso não tinha importância, pois lá falava a lógica do dinheiro e ponto. Quando acontece uma tragédia que repercute no mundo todo, como a de Sexta-feira em Newtown, toda essa postura belicista que combina medo e reação é colocada em xeque. Nessas horas, muitos americanos se perguntam "o que a gente ganha com isso mesmo?". Eles têm agora um governo bem mais progressista do que na era Bush. Torçamos para que consigam apagar esse traço nefasto de sua cultura e fazer florescer o que têm de melhor.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião