09 de julho de 2026
Articulistas

Pendenga Aeroclube x Prefeitura

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

O que seria verdadeiramente bom para Bauru no resultado da disputa judicial pela propriedade da área onde há 63 anos se localiza o Aeroclube de Bauru? Qualquer que seja a decisão final, definindo apenas quem é o titular da propriedade, talvez não seja o melhor para a população futura de Bauru. Se for a favor da prefeitura, quem garantiria que, a pretexto de realização de obras públicas, ela não vendesse, já que há tempos os investidores imobiliários vêm fazendo pressão nesse sentido? Se for favorável ao Aeroclube, seria possível garantir que ele também não fizesse o mesmo, como aconteceu com a antiga sede do BAC, do BTC e da Luso? Até o tradicional Jockey Club de São Paulo também está pensando em vender parte do seu patrimônio para pagar dívidas. E seria bom para Bauru um adensamento de construções naquele local? Só de edifícios, porque ninguém deixaria de aproveitar ao máximo terreno tão valorizado. Vejam a explosão de edificações ao longo da Av. Getúlio Vargas, da delegacia federal para frente e do lado do Bauru Shopping.

Não vamos entrar no mérito jurídico dessa disputa, que não é do nosso entendimento. Vamos dar a nossa opinião como um cidadão pensando na cidade e seu futuro. A história das terras de Bauru, como a de todos os outros municípios do Estado de São Paulo, tem a sua origem em doações, desde a doação da Capitania de São Vicente a Martim Afonso de Souza. Por apossamento ou grilagem de terras devolutas, com o passar dos anos, foram sendo legalizadas as propriedades particulares. Nas doações de glebas à igreja, para construção da capela e geração de renda pelo aforamento, está o núcleo inicial da maioria dos patrimônios municipais. A aérea do Aeroclube também resultou de doações. Doações de famílias tradicionais, permitindo que Bauru fosse uma das primeiras cidades do interior a conhecer o progresso representado pela aviação. Depois o Aeroclube precisou fazer doação ao município para que o estado asfaltasse a pista e colocasse os equipamentos de sinalização de voo, dando ao aeródromo o status de aeroporto. Doações sobre doações, umas registradas, outras, talvez não e documentos que podem conter falhas, com certeza formam um novelo emaranhado de difícil desfazimento e motivo de interminável disputa judicial. A habilidade advocatória, se se chegar a um final, levará juiz a decidir se a propriedade é deste ou daquela. E daí?

Nossa ideia é que seria bom para Bauru a manutenção daquele único grande espaço aberto na área mais densamente edificada, evitando a formação de um bosque de pedra, tornando a cidade mais sufocante. A permanência do Aeroclube, enquanto estiver cumprindo as suas finalidades, como o fez até agora, e a Prefeitura arborizando e ajardinando o entorno disponível, não daria um Central Park, nem mesmo um Ibirapuera, mas seria melhor que um compacto grupo de enormes edifícios no topo da cidade. O Aeroclube e a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil constituíam as principais referências de Bauru. A cidade já perdeu a ferrovia e o que ficou bem que poderia ser afastado do centro. O Aeroclube ainda é referência, como escola de pilotagem conceituada e bastante concorrida; como aeroporto de aviões executivos e como heliporto, servindo de base de helicópteros da Polícia Militar, de grande utilidade para nossa segurança. Os planadores sobrevoando a cidade o dia todo, tanto para aprendizagem como para treinamento de volovelismo são um atrativo, assim como as demonstrações de paraquedismo e da esquadrilha da fumaça, nas ocasiões festivas. Tudo isso não é coisa de se desprezar. Falta apenas arborização e paisagismo na área de entorno.

Uma forma jurídica tornando aquela área inalienável, seja de quem for a propriedade; garantindo a permanência do Aeroclube, enquanto continuar dentro das suas finalidades; definindo o espaço para arborização e ajardinamento público e impedindo desmembramento para qualquer outra finalidade, é o que deveria ser procurado. Assim pensamos ser o melhor para a cidade, agora e no futuro.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras