08 de julho de 2026
Articulistas

Promessas e propósitos

José Fernando da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 4 min

Devemos valorizar e dar importância a costumes e tradições. Os antigos ? situo-me na década de 1940 - apesar dos percalços eram otimistas e encaravam a vida de frente. O otimismo, de modo geral, atribuía peso relativo ao ano que se findava e a grande maioria comemorava o ano que vinha chegando a ele se referindo como Ano Bom. O ano por findar que ao seu tempo também se chamara Ano Bom era objeto de balanço e meditação ponderados acertos e erros e tudo o mais acontecido, havendo pouco entusiasmo para chorar o leite derramado. Naquela época não havia a formula clássica Feliz Ano Novo. Tão só se comemorava e se desejava boa passagem para o Ano Bom, jamais feliz ano novo que, por alguma forma, tinha sentido de redundância diante do Ano Bom que estava nascendo. O mecanismo otimista de passagem de um ano para outro, de Ano Bom para Ano Bom sempre deixava escamoteado e disfarçado o tempero de felicidade.

Nessa visão de mundo e de vida as comemorações de passagem para o Ano Bom não tinham e nem podiam ter promessas porque o prometido tinha que ser cumprido e quando descumprido fazia brotar desonra. Mas o rito de passagem admitia que se fixassem propósitos que, quando não alcançados por motivação estranha às vontades, não implicavam em desonrosa quebra do prometido. Em linha direta não se deveria prometer pelo risco de não se conseguir cumprir, mas no balanço dos acontecidos no ano velho que mereceriam correção deveriam ser firmados e mantidos propósitos que, mesmo quando não alcançados, gerariam frustração. E não desonra.

Esse modo de encarar os fatos da vida e deles extrair conseqüências, infelizmente não chegou muito íntegro até nossos tempos. O conceito de honra foi se amesquinhando em grau tão acentuado que o desonroso descumprimento de promessas e de obrigações tornou-se circunstância banal e quase inconseqüente de nosso dia a dia, não valendo a pena insistir na sutil distinção entre promessas e propósitos. Todavia os balanços de passagem do Ano Bom que se findava para o Ano Bom que estava por vir até hoje se fazem presentes. A avaliação dos acontecidos no Ano Bom que findava era importante do ponto de vista pessoal e social porque permitia ? como ainda hoje permite - que fossem sopesados os fatos bons e os fatos ruins para se fixar propósitos e corrigir diretrizes principalmente em favor dos fatos coletivos impactantes. Assim e em pontos agudos se deve proceder diante da importância que o futuro tem em nossas vidas.

Nessa avaliação e em relação ao ano que agora se exaure no âmbito nacional destaca-se positivamente o julgamento do mensalão evidenciando que em nosso pais já existe justa e firme esperança de que a lei, como supremo valor da convivência humana, não seja mais vista como a cerca do coronel Chico Heráclito que sendo bamba podia ser levada no peito ou sendo firme podia ser ultrapassada nos vãos. Ou que a mesma lei já não seja vista como a serpente latino-americana que apenas pica os pés descalços. O propósito é bom. No âmbito estadual se recolhe, também como balanço positivo, o acerto jurídico que equacionou o fim na crise do nosso Hospital de Base, ainda que se lastime porque se retardou tanto para descobrir solução natural e óbvia de que caberia ao governo do estado a responsabilidade pelo passivo derivado de má gestão pelo menos nos últimos trinta anos e isso também constitui um bom propósito.

E no plano municipal, em balanço com carga negativa de perplexidade sobreleva a iniciativa do Arquiteto José Xaides cobrando com firme indignação o respeito à legislação municipal alterada a toque de caixa com afronta ao nosso Plano Diretor Participativo e com superação do Estatuto das Cidades, clamando por desdobramentos corretivos. E disso se recolhe, também, o bom propósito da coerência no respeito à lei e na estabilidade da segurança jurídica. No geral e sem gerar promessas, as avaliações do Ano Bom que se finda carregam para o Ano Bom que está por vir cargas positivas e apontam para bons propósitos que poderão ser alcançados. Por isso e por muito mais, inclusive por nossas expectativas pessoais o novo ano, concretamente, haverá de ser Ano Bom para todos nós.

O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado