08 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Arnaldo Ferraz

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 8 min

Ainda jovem, na cidade de Avaí, Arnaldo Ferraz já começava a demonstrar interesse pela profissão que escolheria. A inquietação da juventude e o desejo de trabalhar longe de uma rotina ligada aos escritórios e repartições fizeram com que o jornalismo entrasse definitivamente em sua vida.

Formado em jornalismo pela Unesp de Bauru e mestre em comunicação pela mesma instituição, ele questiona alguns dos modelos utilizados atualmente pelas universidades e propõe uma formação mais prática aos estudantes. Acompanhe, a seguir, a entrevista que ele concedeu ao JC.


Jornal da Cidade - Como foi a sua infância em Avaí?

Arnaldo - Nasci em Bauru, mas fui criado em Avaí. Meu pai trabalhava na Rede Ferroviária Federal, ele era escriturário no Horto Florestal de Araribá. A rede tinha várias fazendas, e eu cresci em uma delas, eu cresci neste ambiente. A maior lembrança da minha infância é a ferrovia.


JC - Quando, afinal, surgiu o interesse pelo jornalismo?

Arnaldo - Eu sempre fui inquieto, sempre achei que trabalhar em escritório, em um lugar fechado, preso à rotina, não seria o meu destino. Entrar as oito da manhã, sair as cinco da tarde, não era isso o que eu queria. Eu gostava de conviver com as pessoas, de conhecer gente, de perguntar as coisas, sempre fui curioso. Então, desde essa época de criança, pré-adolescente, eu não sabia que seria jornalista, mas já imaginava que não trabalharia em um lugar fechado, não me conformava com as coisas “normais”, digamos. Hoje, curiosamente, em função do meu cargo, não vou mais para a rua, fico somente na redação, mas ao longo da minha carreira sempre fui repórter, e sempre gostei disso.


JC - Como foram os primeiros anos da profissão, conciliando a faculdade com o mercado de trabalho?

Arnaldo - Eu entrei na faculdade em 1985, na então Fundação Educacional de Bauru, depois Universidade de Bauru (atual Unesp), e um ano depois já comecei a trabalhar no Jornal da Cidade. Comecei como repórter, depois em 1988 fui para a Rádio Auri-Verde. Na época, também trabalhava na assessoria de imprensa da Câmara Municipal, já estava no final da faculdade. Em 1990, comecei a trabalhar na Rede Globo Oeste Paulista.


JC - Mas a sua entrada na TV foi logo no jornalismo?

Arnaldo - Na verdade não comecei como repórter. Eu entrei para ser produtor de um programa chamado “Globo Comunidade”, que era produzido ao longo da semana e exibido nas manhãs de domingo. Fiquei alguns meses nesta função e em seguida já estava na rua fazendo reportagem para o jornalismo diário. Fiquei vários anos, a emissora passou a ser TV Modelo, depois TV TEM. Saí em 2003. Neste período, fazia reportagens locais e também para o nacional da Globo.


JC - Depois da Globo em Bauru, qual foi o rumo da sua carreira?

Arnaldo - Fui para a TV Morena, que é a afiliada da Rede Globo em Campo Grande. Fiquei lá de 2003 a 2007, quando fui convidado a trabalhar na Rede TV, em São Paulo, na edição do programa “Leitura Dinâmica”. Em 2010, fui para o Globonews, também em São Paulo, e desde junho de 2011 estou na Record Paulista.


JC - Você é da região, estudou em Bauru e ficou vários anos na cidade. Foi muito diferente sair para trabalhar em outros centros?

Arnaldo - Quando saí de Bauru fui para o Mato Grosso do Sul. Olha, eu não diria que é diferente, mas é uma outra cultura. Mas o trabalho é o mesmo, é uma outra cidade, com aspectos diferentes em relação a aquilo que a gente está acostumado. Porém, em termos de jornalismo, não muda, tem que manter o mesmo trabalho de apuração. Os princípios da profissão não se alteram...


JC - E as mudanças no jornalismo de um passado recente para os dias de hoje?

Arnaldo - Ficou mais fácil. Acho que a tecnologia melhorou o trabalho do jornalista, tanto na televisão quanto em outros meios, até no próprio jornal impresso. Antes, para conseguir uma imagem, só tinha um jeito: era a TV mandando um cinegrafista, o jornal mandando um repórter. Você só contava com a sua equipe. Hoje, não. Qualquer um pode registrar uma imagem importante, são milhares de pessoas que potencialmente podem registrar algo pela cidade. Aqui na Record existe um programete dentro dos jornais chamado “Flagrou tá na Record”, um sucesso justamente por isso. As pessoas registram algo e mandam para a emissora.


JC - Qual é o maior desafio da profissão atualmente?

Arnaldo - A ética deve sempre pautar o trabalho jornalístico. As novas tecnologias são benéficas por todos os motivos que já expus, mas podem induzir ao erro. Na ânsia de dar uma um furo (notícia exclusiva), o jornalista pode deixar de apurar adequadamente a informação. E uma notícia mal construída pode manchar a imagem de uma pessoa. Por isso esse cuidado de se checar a informação à exaustão, algo que pode soar antigo até, mas se faz necessário sempre. É algo que nós procuramos fazer na Record, estamos sempre conversando na redação sobre isso, e mesmo assim somos passíveis de erro. Mas temos que olhar sempre desta forma, se não estamos ferindo a ética, se não estamos dando uma notícia de forma equivocada. Esta é uma preocupação constante.


JC - Sobre os cursos de jornalismo, qual sua visão atualmente?

Arnaldo - Eu já fui professor de faculdade, fiz mestrado em Bauru e dei aula na época que estava em Mato Grosso do Sul. A universidade precisa rever alguns aspectos da formação do profissional. Eu sou absolutamente a favor do diploma de jornalismo, totalmente a favor do jornalista na faculdade. Porém, sou contra algumas metodologias da universidade, que ainda insiste em colocar disciplinas que não acrescentam na vida do jornalista. A faculdade precisa ser mais prática.


JC - Você também ministra cursos para repórteres de TV?

Arnaldo - Tenho este curso há 14 anos já. É mais voltado para a prática mesmo. Muitos jornalistas têm potencial para trabalhar em televisão, mas falta um treinamento, desenvolver mais esta habilidade, e é com este foco que dou o curso. Não existe uma periodicidade específica em que o curso é oferecido, é um curso independente, sem vínculo com nenhuma universidade.


JC - E o seu momento atual na Record?

Arnaldo - Vim para cá no meio do ano passado. São 162 municípios na área de cobertura da Record Paulista, temos escritórios em diversas cidades, como Sorocaba, Marília e Botucatu, centralizando em Bauru. Na mesma época quem também entrou na emissora foi o diretor executivo Everaldo Frago, que vem reestruturando a Record Paulista administrativamente, e isso é muito importante, pois dá o respaldo necessário para o bom trabalho da equipe aqui no Departamento de Jornalismo.


JC - Quais os programas atuais da Record Paulista?

Arnaldo - Temos dois programas diários de jornalismo local (“Balanço Geral” e “SP Record”), entramos com matérias ou ao vivo no “Direto da Redação Interior” (que é apresentado em Ribeirão Preto), de manhã, e no “SP no Ar” (que é estadual) e no “Fala Brasil” (que é nacional). Aos sábados, temos o “Esporte Record” (que de segunda a sexta-feira é exibido dentro do Balanço Geral), e o “Visita na Record”.


JC - Algum momento legal ou alguma frustração ao longo da carreira?

Arnaldo - Frustração não. Tive a oportunidade de passar por quase todos os meios: impresso, rádio, TV, fiz também alguns trabalhos para o jornalismo on-line e revista. Foram vários os fatos marcantes. Ainda no JC, eu estava começando, e minha primeira pauta era sobre o início do plantio do feijão das águas, e eu não sabia o que era isso. Eu fui na Divisão Regional Agrícola e o diretor, que era o José Rui de Carvalho, percebeu que eu não tinha nenhum domínio sobre o assunto, não sabia o que perguntar, e ele me explicou, acabou me ajudando. Poucos dias depois, fui fazer uma matéria com o Quioshi Goto (fotógrafo do JC) sobre um incêndio nos vagões de trem e foi capa, primeira página do jornal. Era minha primeira semana de trabalho e acabei cobrindo uma matéria que rendeu capa, isso foi bem legal.


JC - E na TV?

Arnaldo - Um fato que me marcou muito trabalhando na TV, na Globo Oeste Paulista, no começo dos anos 90, foi uma entrevista com uma família que estava morando embaixo de um viaduto em Bauru, perto da linha do trem. Alguns anos depois, para minha surpresa, recebi um cartão de prata deste rapaz, que eu guardo até hoje. Aquela entrevista lá atrás tinha repercutido e ele conseguiu arrumar um emprego, melhorou de vida e veio me agradecer desta forma, foi muito gratificante saber que de alguma forma pudemos ajudar aquela pessoa. Esse também é um papel do jornalismo.


JC - Qual é seu hobby?

Arnaldo - Quando estou de folga no final de semana gosto de ficar com a família e de um bom encontro com os amigos. Gosto também de viajar, passear... Aliás, hoje estou muito à vontade morando em Bauru, aqui tenho minha família, meus amigos. Afinal de contas eu me formei aqui, é sempre bom morar na cidade que você gosta e onde você realmente se sente em casa.

 

Perfil

Nome: Arnaldo Ferraz

Idade: 47 anos

Local de Nascimento: Bauru

Signo: Aquário

Filhos: Ana Paula e Ana Carolina

Hobby: Ler livros e viajar

Livro de cabeceira: Dois livros do Laurentino Gomes: 1808 e 1822, e os livros em geral a respeito de comunicação

Filme preferido: “À espera de um milagre”

Estilo musical predileto: Pop/Rock

Time: São Paulo

Para quem dá nota 10: Joaquim Barbosa

Para quem dá nota 0: Lula, que está se mostrando um dos grandes responsáveis pelo mensalão

E-mail: a.ferraz025@gmail.com