07 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Passado e presente


| Tempo de leitura: 4 min

Nos anos 50/60, a rapaziada, aos sábados e domingos, entre às 18h e 19h, preparava-se para as "baladas": banhos caprichados com sabonete Gessy, Palmolive, Lifebuoy, Eucalol, Alma de Flores, Lux, entre outros; Loção Pós-Barba Bozzano e Água Velva; desodorante: MUM ou Frigia em bastão, Leite de Colônia e Leite de Rosas; roupas novas, cabelos cuidadosamente penteados. Moças e rapazes rumavam para os seus "points": a praça da Matriz, o bar central, ou Clube Recreativo. Os "comprometidos", diretos para a casa de suas namoradas, dali caminhavam até o jardim central para namorar, ou "pegar uma fita" noâ?? cinema, sessão das 20h.

Chique: usar nos cabelos Brilhantina Royal-Briar, Glostora, Óleo de Lavanda; vestir ternos de linho branco 120 e tropical inglês; calças de gabardine (seis bolsos e bainha) e suspensórios. Na Primeira Comunhão (retrato) os meninos vestiam roupa de marinheiro. Nos bailes, os marmanjos em seus ternos bem cortados (paletós três botões), gravatas "skinny" (largura fina) e nó triângulo, camisas com abotoaduras nos punhos, sapatos lustrados completavam o figurino. As garotas, em vestidos discretos e saias godê, plissadas e pregueadas em tons coloridos tinham a altura na metade da panturrilha.

Nas farmácias, alguns produtos populares: Óleo Nujol, Alka-Seltzer, Sonrisal, Linimento de Sloan, Emplastro Sabiá, Pomada São Sebastião, Auricedina, Rum Creosotado, Fimatosan, Elixir de Inhame, Elixir Paregórico, Xaropes Bromil, São João e Limão Bravo, Emulsão de Scott, Capivarol, Licor de Cacau Xavier, Lavolho, Pílulas de Vida do Doutor Ross, Cibalena, Aspirina, Melhoral, Pervitin (estimulante), Creme Rugol, Pond?s, Antissardina, Pó de Arroz Cachemere Bouquet, Coty, e mais uma centena deles? Destaque para o Biotônico Fontoura (Laboratório Fontoura): Junto com o invólucro vinha um livrete, brinde do Laboratório, chamado "Jeca-Tatu".

É a história de um caboclo no interior paulista, que vivia triste e desanimado, morava num rancho de sapé. Certo dia, um médico, por ventura, passou pelo seu casebre e diagnosticou-o com o "amarelão!" Receitou-lhe vermífugo Anquilostomina e o fortificante Biotônico e que não andasse mais descalço. Jeca seguiu os conselhos do médico, e nunca mais sentiu fraqueza, nem desânimo. Progrediu, ficou rico.

Nota: O livrete do "Jeca Tatu" é um artigo escrito por Monteiro Lobato, contido em sua obra Urupês, de 1918. Os "filhinhos de papai" dirigiam os seus Prefect, Buick, Citröen, Bel Air, Plymouth, Ford, Mercury e Chevrolet "Boca de Sapo", depois Fusca. Obs.: raramente mulher dirigia. Cigarros Continental, Pall Mall, Fulgor, Camel, Finesse. Caneta tinteiro, cama patente da "Legítima Faixa Azul", rádio Philco valvulado. Televisores, raríssimos aparelhos. Atualmente: até onde vai a vaidade humana: recorrem-se aos Spas, massagens orientais, "homem metrossexual" (masculino, grau excessivo de vaidade) homens que vivem nas grandes metrópoles depilam-se, gastam rios de dinheiro em cosméticos, massagens e roupas: é estilo ou moda? David Beckham é um exemplo de "metrossexual". No lado brasileiro, o leitor poderá classificar, ou melhor, enumerar vários apelos: a beleza estética e a saúde (orelha de abano, rinoplastía, pálpebras caídas, queixo retraído e redução de estômago).

A classe "A" exibe os seus carrões importados de até USD 200 mil, enquanto as classes inferiores, os populares "1.0". As baladas, nos grandes centros, todas as noites, depois da zero hora. As roupas são as costumeiras, tipo uniforme, exceto as "periguetes", exibicionistas, "montadas" em louboutins, vestidas em seus "modelitos", justos e curtos, seios fartos, à mostra, bumbuns empinados.

Novos tempos, a conectividade. A maioria das pessoas desfila com os seus celulares na palma da mão, como um penduricalho (sem falar nos sofisticados Smartphones e Tablets). Todos falam, querem falar, e como falam! Pois é: parodiando o filme clássico político italiano "La Classe Operaia Va In Paradiso", de 1971 ("A Classe Operária Vai Ao Paraíso"), pasmem! Hoje, temos 255 milhões de celulares habilitados, 20% com internet 3G. Em contrapartida, o celular sobrecarrega e onera o orçamento doméstico das famílias brasileiras, classes C, D e E. Já os Vips, afortunados, poderão viajar em balões, durante três horas, à estratosfera. Recentemente, uma empresa espanhola criou balões para ver a terra, a 36 km de distância, por somente 110 mil euros, aproximadamente 250 mil reais... Há filas de interessados.

Eu, particularmente, desejaria somente quatro coisas: 1) adquirir um simples celular para poder tagarelar à vontade, sem comprometer o orçamento doméstico; 2) uma bicicleta para vencer o trânsito caótico urbano; 3) baladas, a partir das 18h até às 22h; 4) juntar dinheiro para viajar de balão até a estratosfera, ver e admirar o planeta azul, a terra! E você, caro leitor?

Laerte Mazetto