08 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Zé da Barca

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 7 min

Da infância pobre em Lençóis Paulista ao sucesso no rádio bauruense, Zé da Barca passou por grandes desafios. Chegou sem nada a Bauru, enfrentou dificuldades financeiras, empreendeu, voltou a estudar e hoje tem seu próprio programa sobre pescaria na Rádio 87 FM – “Bola, Pesca e Viola”.

Apaixonado por pescaria, Zé também se realiza na cozinha. As duas predileções dividem ainda espaço com o futebol, que sempre esteve presente na vida do radialista, seja dentro dos gramados (na infância) ou acompanhando de perto o Noroeste e o futebol amador de Bauru.

Casado pela segunda vez e pai de três filhos, Zé divide as atenções entre a família e o trabalho, que sempre ocuparam boa parte de seu tempo.


Jornal da Cidade – Infância e juventude em Lençóis Paulista.

Zé da Barca – Foi difícil. Eram oito irmãos, pais analfabetos, eles trabalhavam na roça, cortando cana. Aos sete anos comecei a trabalhar, engraxando sapato na rodoviária de Lençóis Paulista. Até 11 anos fiquei trabalhando nisso, e à noite eu treinava no “dentinho” do Lençoense, era o time do Padre João, já falecido. Tinha o sonho de virar jogador de futebol, queria ser atacante. Mas depois dos 11 anos fui trabalhar na roça também e parei com o futebol, jogava só aos domingos, nas fazendas da região, e alguns campeonatos amadores.

JC – Quando você veio para Bauru?

Zé da Barca – Vim para cá com 20 anos de idade, sem nada, só tinha uma calça, uma camisa, um chinelo e um sonho na cabeça. Meu primeiro emprego foi em uma borracharia, na quadra 24 da avenida Rodrigues Alves. Cheguei em Bauru no dia 10 de março de 1984, me lembro até hoje da data. Eu não tinha estudo, só havia terminado a quarta série.

JC – Seu primeiro emprego então foi em uma borracharia?

Zé da Barca – Sim, trabalhei lá por uns cinco anos, era borracheiro, no começo eu dormia lá mesmo, dentro de pneu. A empresa se chamava JS Pneus, e em 1989 eu comprei a empresa, fiquei mais três anos como proprietário.

JC – Mas como foi isso, para administrar uma empresa pela primeira vez?

Zé da Barca – Em 1986 eu fui tentar um emprego na Souza Cruz, e não consegui, porque precisava ter pelo menos a 5ª série, e eu não tinha. A partir daí voltei a estudar, terminei o colegial (atual ensino médio) no Preve Objetivo e fiz o curso técnico em processamento de dados na mesma escola. Me formei em 1989, pouco depois de comprar a borracharia onde eu já trabalhava. Aí incrementei os serviços da empresa, passamos a fazer funilaria, pintura e mecânica. Depois prestei vestibular para Direito, passei, mas minha primeira esposa (Rosa), ficou grávida do Luiz Raphael e eu fui trabalhar como vendedor, que era algo que eu já estava querendo. Virei representante comercial, ocupação que eu exerço até hoje.

JC – Você passou a fazer vendas em qual área?

Zé da Barca – Meu segmento era o de confecções. No começo eu era sacoleiro, e ia vendendo de porta em porta, ia nas casas e nas empresas, depois virei representante comercial. Trabalho até hoje como representante, sempre no setor de roupas.

JC – E o rádio, quando surgiu?

Zé da Barca – Eu tinha alguns amigos de pescaria que sempre estavam juntos, fazíamos até dez viagens por ano ao Mato Grosso. Houve não diria uma briga, mas um mal entendido entre parte do grupo, e a gente acabou se afastando. Até agradeço a Deus por ter afastado, de certa forma, porque se não eu estaria até hoje pescando e não teria ido fazer outra coisa. Um dia passei na frente do Senac, na avenida Nações Unidas, e tinha o curso de radialista, setor locução, e me interessei. Eram mais de cem pessoas para fazer o teste, e só 20 vagas. Muitos já trabalhavam em rádio, e eu nunca tinha entrada em um estúdio, mas deu certo, acabei passando em quinto lugar e comecei o curso.

JC – Conseguiu conciliar o curso com o trabalho de representante comercial

Zé da Barca – Eu viajava bastante por conta do trabalho, e o curso era de segunda, quarta e sexta, mas eu voltava nos dias do curso, sete e meia da noite eu estava no Senac. Cheguei a pensar em parar, mas continuei firme até o final e me formei lá, e já estava trabalhando, comecei um mês antes de terminar o curso.

JC – Qual foi seu primeiro trabalho no rádio?

Zé da Barca – Era um programa chamado “A hora do pescador”, aos domingos, era eu e o Jorge Bongiovani, que hoje está na Rádio Auri-Verde. Depois de um tempo ele parou e eu continuei sozinho. Da Bandeirantes eu fui para a Rádio 710, e ainda trabalhei na Rádio Universal de Agudos, que tinha um estúdio em Bauru. Em 2005 eu voltei para a 710, que tinha virado afiliada da Jovem Pan, com o comando do Celso Zinsly, foi a época que o Damião Garcia estava à frente da emissora.

JC – Você começou a comandar a equipe de esportes naquela época?

Zé da Barca - Foi em 2006. Até então eu só fazia o programa “A hora do pescador”, e ajudava em alguns jogos do futebol amador. Antes, na primeira passagem pela 710 cheguei a participar em algumas transmissões de basquete. O Celso (Zinsly) faleceu em fevereiro daquele ano, no jogo do Noroeste contra o Palmeiras, e o Damião Garcia (arrendatário da rádio) fez o acerto com todo mundo e devolveu a emissora para a Marília Carvalho (proprietária). Foi quando eu propus para a Marília, no meio de 2006, comprar o horário do esporte, junto com o José Carlos Gonçalves. Começamos, ele acabou saindo, e eu toquei com o pessoal que já estava na rádio, o Jota Martins era um deles, já fazia reportagem. Ficamos até o final de 2007, e depois fomos para a 87 FM. Fiquei no comando do esporte até 2011, agora quem dirige área é o Claudinho do Queijo, eu só participo em alguns jogos do amador e tenho o meu programa.

JC – Seu programa continua sendo voltado para a pescaria?

Zé da Barca – Sim, é o “Bola, pesca e viola”, todo domingo das sete as dez da manhã, na 87 FM. Temos alguns quadros, como o “Repórter Minhocão”, que é o ‘Seo’ Cassola (diretor da rádio) quem faz, é um quadro que fala sobre ecologia, meio ambiente, dicas de pescaria, como a pessoa pega um peixe, tanto em pesca normal como em pesque e pague, dicas de isca, condições de estrada. Temos também a participação do Theo Oliveira, que entra falando de futebol. Na sequência passo para a equipe de esportes, que transmite os jogos do futebol amador ou do Noroeste a partir das dez da manhã.

JC – E as pescarias, segue indo sempre? Qual foi o maior peixe que pescou?

Zé da Barca – Antes a gente ia muito com os amigos para o Mato Grosso, para o Pantanal, várias vezes na temporada. Agora vou menos, no máximo três vezes por ano e ficamos no máximo cinco dias. O maior peixe que eu já peguei foi um pirarucu de 70 kg com mais de 1,20 m, foi em uma lagoa de Canarana/MT. Hoje sou mais adepto do “pesque e solte”, trazemos menos peixe. Sempre gostei, desde moleque já ia pescar no Rio Lençóis, e nas pescarias no Mato Grosso vamos muito no Rio Miranda.

JC – Você hoje é engajado em causas sociais também, como começou?

Zé da Barca – Hoje sou evangélico, frequento o Ministério Mudança de Vida (antiga Igreja Mundial de Cristo). Vou três vezes por semana, e às quintas-feiras, após às 21h, quando acaba o culto, fazemos visitas a moradores de rua, sob a coordenação do bispo Eduardo. Levamos pão, leite, agasalho, e principalmente oração. No final do ano a igreja fez uma campanha em Agudos, o “Natal Sem Fome, Criança Feliz”, ajudando pessoas carentes da cidade.


JC – Verdade que já deu até autógrafo?

Zé da Barca – Olha, isso foi em 1998, na festa de encerramento do curso de radialista. Um garoto viu as fotos de pescaria e eu já trabalhava na rádio falando sobre isso, e ele acabou pedindo autógrafo (risos).

JC – O futebol, que foi uma paixão sua na infância, continua acompanhando?

Zé da Barca – Sempre procuro acompanhar os jogos do futebol amador. Toda semana cozinho para o pessoal do Ajax (antigo Cometa), na Bela Vista, bairro onde moro atualmente, mas procuro ver os jogos de vários times, assim que saio do programa no domingo. E claro, sempre acompanho os jogos do Noroeste, é o único time do meu coração realmente.