08 de julho de 2026
Articulistas

Mandato sem honra

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

A posse de José Genoino na Câmara dos Deputados é um insulto à cidadania e às instituições. A assunção de Genoino à cadeira parlamentar pode até estar revestida de legalidade. Ainda não se cumpriu o "trânsito em julgado" da sua sentença condenatória. Do ponto de vista institucional, estamos diante de um desastre. A valer a declaração do seu colega petista Marcos Maia, presidente da Câmara dos Deputados, a condenação do Supremo não obriga o Legislativo a declarar automaticamente a cassação dos réus detentores de mandato. Mais que isso, Maia prometeu resistir à eventual iniciativa do STF de promover a cassação. Levando-se ao extremo essa resistência, prometida também por Henrique Alves (PMDB), que deve se o próximo presidente da Câmara, o Brasil pode estar próximo de conhecer uma bizarrice sem precedentes na história política nacional: ver um de seus parlamentares no plenário durante o dia e, à noite, atrás das grades.

Outra excentricidade é que o ex-presidente do PT José Genoino vem reforçar a bancada dos condenados no Congresso. Soma-se a um grupo formado por Valdemar Costa Neto (PR-SP), João Paulo Cunha (PT-SP) e Pedro Henry (PP-MT), condenados no mesmo processo. Um detalhe nada desprezível é que mesmo em período de férias os suplentes que assumiram recebem o salário de janeiro, mais um extra de R$26,7 mil para custear a mudança até Brasília. Some-se a isto o custo da contratação de até 25 servidores para atuar no gabinete, no caso de Genoino, reservado em área "nobre" do prédio da Câmara. Os custos, obviamente, são bancados pelos contribuintes. Só José Genoino parece não estar constrangido em assumir o cargo na condição de condenado a seis anos e 11 meses em regime semiaberto, por corrupção ativa e formação de quadrilha. Pelo contrário, declarou-se possuído da "consciência serena dos inocentes".

Questionado por um repórter se achava certo atuar como legislador, sendo ele mesmo um descumpridor de leis, o parlamentar chamou o profissional de "torturador moderno". Em vez do pau de arara a que foi submetido o ex-guerrilheiro na ditadura, agora os jornalistas usariam a caneta para lhe infligir sofrimentos. Jornalistas existem que são incompetentes, ou mal-intencionados e arrogantes. Jamais podem ser chamados de "torturadores" porque fazem perguntas incômodas a quem tem obrigação de permanente de prestar contas à sociedade, por detentor de múnus público. Que se respeite o passado do condenado e todos os sofrimentos que sofreu por defender um ideário. Entretanto, tal passado heroico não lhe concede prévia anistia ou indulgência pelos delitos que cometeu agora, já na plenitude do regime democrático. Ao se tornar coparticipe de um dos maiores escândalos de corrupção política já registrada no país, Genoino atenta contra a memória de seus companheiros. Aqueles que morreram ou também foram torturados para que o Brasil fosse livre, ético e mais justo. Tal fato não lhe dá direito de equivocar-se em bandidagens partidárias para impor um projeto político à nação, a qualquer custo. Sua assinatura está grafada nos documentos que forjaram a farsa dos empréstimos bancários. O dinheiro ajudou a bancar o mensalão ? e por isso seu nome foi listado entre as dezenas de indiciados na Ação Penal 470. Paga ele o preço do descompromisso do PT para com a ética, uma das razões do surgimento da representação política dos trabalhadores. De repente tudo é jogado no lixo em função de interesses particulares e corporativos. Milhares de eleitores bauruenses, generosamente votaram em José Genoino. Durante seis mandatos nunca fez nada pela cidade. Os eleitores locais, nem por isso deixaram de apoiá-lo, pelo seu passado de lutas e por acreditarem que, para ele, a Pátria vinha em primeiro lugar. Decepção. O preço de tamanho desatino foi dado pela Suprema Corte. Como dizem os espanhóis: "hay que pagar".

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC