Estive em uma pequena lanchonete noites atrás, e uma situação trouxe-me a reflexão sobre o quanto nossa sociedade está doente. Numa área externa, dispuseram umas dez mesas, tendo, em média, três pessoas cada, todas concentradas em suas comilanças e em seus subuniversos particulares.
Em meio ao jardim que rodeava as mesas, pude observar um cão adulto, de média estatura, simpático, branco e encardido, de aparência simples, sem raça bem definida. Estava como nós, concentrado em seu universo particular.
Não me pareceu estar faminto, não se aproximou, não tinha cara de pidão; era um desses de tipo calmo, cheirando e investigando a grama, como se estivesse caçando algo.
Numa mesa com quatro garotas, deu-se determinada comoção com o cão caçador da praça. Flertavam e assoviavam, e o cão concentrado. Puseram-se a tentar adivinhar seus desejos: uma delas levou água em um copinho, que foi recusada. Outra tentou um pedaço de hambúrguer, também recusado. Uma terceira, mais perspicaz, sacou fotos do cão para uma rede social, e esse fantástico presente ele não teve como recusar.
A situação superemocionante (???) de um cão caçando em uma praça comoveu, então, outras pessoas, mais uma moça, mais um casal, que derramaram outros presentes e carinhos pro vira-latas desconhecido.
A história termina com eles todos atrapalhados, acotovelando-se para convencer o cão a entrar no banco traseiro de um automóvel, aos puxões e apertos. Que ele preferia a praça, pelo menos para mim, estava claro.
Venceram, levando o cão sabe-se lá pra onde. E se, ao invés de um cão (que é um mamífero > carnívoro > canidae) encontrássemos na grama uma criança maltrapilha (mamífero > primata > hominídea)? E se fosse um morador de rua, hominídeo? E um outro primata rosado hominídeo, em um carrinho de coletar lixo reciclável? Não acredito que a comoção seria tanta.
Aí surge o ponto: nossa sociedade está doente, definitivamente. Somos ótimos e espertíssimos para sacar o dedo e apontar responsabilidades: está assim pois não gosta de trabalhar, a culpa é do governo azul-amarelo-vermelho, dos pais que devem ser vagabundos, do explorador que com certeza está ganhando dinheiro com a venda dos doces, do suposto adulto coordenando a arrecadação de malabares, do alcoolismo ou das drogas, que nossa suprema arrogância trata como escolhas consistentes, deliberadas e conscientes da criança ou do morador de rua.
Quem tem culpa? Que culpa é essa, tão forte para nos fazer tão indiferentes e desumanos? Desejo que neste Natal, neste "feriado Coca-Cola", deixemos os presentes e mensagens religiosas de lado, e reflitamos a respeito do que é de fato importante. Ah, desculpe! Já não é mais 25 de dezembro, amor e carinho pela humanidade só no ano que vem, agora é hora de construir riqueza.
Então, pelo menos espero que na virada de ano estiveram juntos comigo pedindo um 2013 mais humano, menos apático, com mais amor e mais sensibilidade. Também mais combativo, meus camaradas! Fora todos os cliches, meus caros, é só disso que precisamos.
Luiz Miguel Axcar