08 de julho de 2026
Cultura

Vaidade na avenida

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 3 min

Aceituno Jr.

Ensaios da escola são realizados de segunda a sexta, em espaço próximo ao Ceasa

Ah, a vaidade! O desejo de atrair a admiração das outras pessoas vai muito além do aspecto físico. O sentimento, porém, pode causar ganância, inveja e vícios e, não à toa, é considerado um dos “pecados capitais”. Este tema tão atual, que está presente nos valores sociais de quase todas as civilizações, será representado no enredo 2013 da escola de samba Águia de Ouro, que terá o papel de encerrar o desfile deste ano. Ela será a última passar pelo Sambódromo, no dia 11 de fevereiro, por volta da 1h.

“Espelho, espelho meu: nessa avenida existe alguém mais bonita do que eu?” é o título do enredo da escola do Geisel, que agora tem como carnavalesco Jorge Santtana. O bauruense trabalha há 23 anos com Carnaval e atuou na “época de ouro” dos desfiles de rua de Bauru, com a Mocidade Independente da Vila Falcão. Quando a folia foi suspensa, Jorge deixou a cidade. Nesse período que ficou fora, atuou em agremiações de São Paulo, Campinas e Indaiatuba, como Vai-Vai, Rosas de Ouro, Unidos do Peruche e Iracema Meu Grande Amor.

Com o acúmulo de experiência nessas escolas, Jorge decidiu voltar para Bauru após saber que o Carnaval de rua havia sido retomado. Na Águia de Ouro, é seu primeiro ano como carnavalesco. Jorge conta que o enredo foi criado por ele em um processo “ao contrário”. “Geralmente, se faz o enredo primeiro e depois a letra do samba. Neste caso, eu já tinha um enredo que falava sobre espelho, e fiz adaptação dele de acordo com o samba, que já estava pronto e está belíssimo”, conta.


Religião e literatura

O enredo da Águia de Ouro consegue contextualizar a temática da vaidade com outros universos, como da religião e literatura. A vaidade está nas religiões africanas, que terão ala representada no desfile. “Os orixás são extremamente vaidosos e até as oferendas feitas a eles contém objetos que remetem à beleza”, explica Santtana. O enredo ainda carrega influência da literatura infanto-juvenil – o conto da Branca de Neve. “Nosso título faz referência a ele – ‘espelho, espelho, meu’ – frase célebre da estória”, frisa.

A vaidade é também abordada dentro do contexto social. “O desfile mostrará o lado mais crítico, como as pessoas se utilizam da vaidade em sociedade. Vamos falar da revolução das próteses de silicone, de operações cirúrgicas e a vaidade como talento”, frisa. Como destaque, a escola formará a ala chamada “Nova geração saúde”, que retrata os atletas paralímpicos, que não têm braços, pernas e, mesmo assim, conquistam medalhas. “Eles se envaidecem de superar os obstáculos”.


Fantasias gratuitas

A pretensão da Águia de Ouro é levar 400 integrantes para a avenida, quatro carros alegóricos e sete alas. Os ensaios da bateria acontecem de segunda a sexta, das 20h às 22h, em espaço em frente ao Ceasa. A diretoria da escola enfatiza que há vagas em todas as alas e as fantasias são gratuitas. “As fantasias são simples, mas muito bem acabadas. Inclusive, nosso enredo defende que as coisas mais simples são as mais interessantes e as pessoas se envaidecem muitas vezes, perdendo a simplicidade”, sublinhou Jorge Santtana.

Fundada em 1985, a Águia de Ouro tem história no carnaval bauruense. Com pouco espaço, a apertada oficina localizada na rua Domiciano Silva conta com a boa vontade e ajuda de toda a comunidade do Geisel. Jorge Santtana, carnavalesco que retornou para Bauru, fez questão de observar o empenho da comunidade. “Estou impressionado com a participação junto à escola Águia de Ouro. E o samba precisa disso, precisa renascer no Carnaval, que se tornou bastante dependente de dinheiro”, salientou.