Caso o impulso seja mais forte do que a razão em frente a uma vitrine, é hora de buscar ajuda. Não de um economista, mas de auxílio psicológico.
O gasto compulsivo, mesmo com todos os limites de crédito estourados e conta bancária no vermelho, representa, em muitos casos, o ato de maquiar problemas de fundo emocional através do consumo. O alerta é de Patrícia de Rezende Chedid Simão, psicóloga clínica e orientadora financeira.
Educadora em Orientação e Conscientização do Comportamento Financeiro, com atuação em projeto educacional Professora no Projeto Educacional na BM&F /Bovespa, ela também relaciona o vendaval financeiro de alguns à chamada “dívida emocional”, ou seja, pessoas que carregam a constante sensação de que precisam compensar alguém – ou a elas mesmas – financeiramente ou por meio de bens materiais.
Racionalidade também não implica, segundo ela, em organização e contas sanadas fora do papel. “Algumas pessoas apesar de toda a sabedoria financeira não colocam o conhecimento em prática”, analisa. “Outras, por outro lado, fazem dívidas sabendo de artimanhas para se livrarem delas, no caso, um desvio social”, cita.
De acordo com a psicóloga financeira, de nada adianta alguém buscar a melhor consultoria financeira sem emocionalmente, essa pessoa ainda não está preparada, tanto para abrir quanto para fechar a carteira. “É importante, sim, buscar auxílio profissional. No entanto, essa atitude somente se torna eficaz quando há a pré-disposição emocional”, agrega.
Quem não consegue, em hipótese alguma, abrir mão do prazer imediato em busca de uma vida financeira sadia, precisa do divã antes do economista. “Educadores financeiros também precisam encaminhar pessoas para auxílio psicológico”, defende. “Abrir mão do consumo implica em entrar em contato com sentimentos muitas vezes camuflados pelas compras desnecessárias”, relaciona.
Escale o poço
A terapeuta, que mantém um site com dicas emocionais que impulsionam a vida financeira (www.psicologiafinanceira.com.br), concorda que a sensação de estar no vermelho, apenas quem vive ou viveu pode descrever. “De uma leve preocupação até a um desespero, noites de sono são tiradas, bem como a saúde e levar a depressões. São apenas alguns dos problemas”, elenca.
Contudo, a atitude de quem se encontra nesta situação deve ser proporcional ao tamanho do desespero. “Ao entrar no vermelho, de imediato, corte custos. Não espere dinheiro mágico chegar, isso só faz crescer a dívida”, salienta.
O tempo, avalia a educadora do mercado financeiro, também joga contra, mesmo que silenciosa. “Quem deve há muito tempo assimila o ‘vermelho’ como parte da vida. É comum ouvirmos depoimentos onde dizem: ‘já me acostumei com a situação e nem ligo mais’. Quando se dão conta, a distância entre a realidade financeira e a dívida é como viajar da Terra à Lua”, ilustra.
Puxar o freio de mão, observa ela, é obrigatório. Entrar no saldo negativo, mais do que questão material, salienta, é uma armadilha que, analisa a psicóloga, armamos para nós mesmos. “É como um labirinto que construímos, acreditando que acharemos a saída e, depois, nos perdemos dentro dele. É não saber a hora de parar e dizer para si mesmo: ‘daqui não posso passar mais’”, compara.
Coragem e humildade para sair do fundo do poço, elenca a terapeuta, são algumas das principais ferramentas para virar o jogo. “O processo é doloroso, mas não é impossível”, incentiva Patrícia. “Coragem para mudar e humildade para aceitar que precisamos mudar. Isto é imbatível”, assegura.
Aperte os cintos
Passada a euforia da compra e troca de presentes, viagens e festas, é hora de apertar os cintos para saldar os compromissos. Para ficar no azul, ou tirar o vermelho da conta corrente, certas concessões são necessárias. “Caso o saldo seja negativo, é importante diminuir o consumo. Aquela pizza do sábado à noite ou gastos excessivos com energia devem ser revistos”, exemplifica o economista Carlos Sette.
De carona aos juros bancários, as despesas com combustível também aparecem no rol dos vilões do orçamento familiar, elenca o economista. “Voltas desnecessárias de carro pela cidade também fazem diferença no orçamento”, cita.
Ajustar a largura do cinto, contudo, também requer planejamento. E se organizar, garante o economista, é possível para qualquer pessoa, basta iniciativa.
Desate nós e saia do vermelho
Encare a situação o quanto antes. Não importa a causa, tempo e tamanho, enfrente.
Declare ‘guerra’, arregace as mangas.
Procure orientação profissional (consultores, advogados) para dar os melhores passos.
Aja sempre dentro da lei.
Responda para si : “O que quer dizer entrando nesta situação, o que tem a aprender com isso, o que deve fazer agora?”.
Se necessário, afaste-se de quem não contribua para suas mudanças.