Inerte na cama. Consciente. Falou-me: a doença ganhou parte. Mas não me venceu. Sou mais forte. Apesar de não poder mais andar, aqui estou a desfrutar de tudo que a vida oferece e tenho a capacidade de acolher. Perguntei, onde encontras tanta disposição para não desanimares e sorrir?
Na fé e no poder do cérebro. Os sentidos estão vivos. Ouço o tempo, sinto o aroma no ar, os sabores na boca, os toques na pele e vejo as coisas. Neste momento, mais feliz, porque não existe piedade na tua voz e no teu olhar. Olhas-me com desafetação.
Não como um aleijado incapaz dos joelhos para baixo. Miras-me como iguais. Tu és tu, eu sou eu. Sem diferenças. Senti-me pequeno diante de tanta grandeza. Perante o poder de tanta confiança.
Somos homens de Deus, fonte eterna da água da vida, continuou. A vida é dom divino e não o reconhecemos. Jogamos com ele para sermos mais poderosos do que os próximos. E deles nos afastamos atirando-os às tormentas. Nossos atos não são para os que nascemos. Nobres. Somos o avesso. Não existem segredos. Basta saber caminhar, ter as mãos espalmadas a se oferecer e para não empunhar armas. Sabedoria nas alternativas. O cérebro deu-me novas pernas.
Deitado, abraço minhas avenidas. Vejo árvores e me abrigo do sol sob suas sombras. Vejo pássaros, pessoas e bicicletas nas ciclovias. Adultos e crianças. De todas as castas. O que fui e o que sou. "O segredo da saúde, mental e corpórea, está em não se lamentar pelo passado, não se preocupar com o futuro, nem se adiantar aos problemas, mas viver sabia e seriamente o presente". (Buda 563aC - 483aC) Todas as manhãs o céu se abre para as nossas escolhas. Humildade para vislumbrar os caminhos da retidão. "Eu sou o caminho, e a..." (Jo 14.6)
Li nos seus olhos luz jamais vista em olhar algum. A voz soava melodia. A expressão paciente do seu rosto, pintor algum nunca a exprimiria. No quarto fluíam sopros de bênçãos.
Amigo, disse-lhe, acabas de desenhar o homem novo! Da tua boca recebo dádivas. Saio da tua casa à procura das passagens que me conduzam à paz tão rica como a tua. Deus permaneça nos teus olhos, na tua boca, no teu coração, na tua alma e no teu espírito! Pretendia dar-lhe uma cadeira de rodas. Não. Melhor deixá-lo abraçando suas avenidas... Quem sou eu para me intrometer na filosofia de um homem que não pode andar? Que, sem pernas, caminha a transmitir a resignação e a graça divina da vida? No meu pôr do sol, ainda sou um aprendiz...
O autor, Munir Zalaf, é escritor e palestrante voluntário