Encaramos a vida como cão e gato. Estamos sempre brigando para impor a ela nosso esforço em busca de objetivos próprios e de uma maneira mais fácil de continuarmos vivendo.
Isso nos traz à lembrança a pequena história do leão (felino) e do cachorro (canino). Por instinto canino, o cachorro perseguia o leão que, por ser felino, fugia sempre. Certo dia, enquanto fugia do cão, o leão, percebendo o ridículo da situação, parou e disse a si mesmo: "Mas o que é isso? Por que estou fugindo de um simples cachorro?" Assim pensando, parou e esperou. Quando o cachorro chegou bem próximo, ele abriu sua tremenda bocarra e disparou o mais assustador de seus urros. Apavorado, com o rabo entre as pernas, o cão deu meia volta e fugiu em grande disparada. Não mais se aproximou do leão.
Sartre não acreditava no destino humano. Ele dizia que o homem é aquilo que faz da sua vida. O resto seria aquilo que outro filósofo polêmico, Nietzsche, proclamava ser uma "conformidade lastimosa". Não vamos discutir aqui se eles estão certos ou não em suas conclusões, mas vamos procurar entender por que pensavam assim. Afinal, são duas extraordinárias personalidades do pensamento humano.
O ser de Sartre é um leão que não abre mão dessa condição, mesmo sendo sua origem um felino. O super-homem de Nietzsche não é um ser com superpoderes, mas um homem com liberdade para pensar e agir. Sabe, porém, que um homem assim age dentro de limites, e que esses limites, no entanto, podem ser ultrapassados. O leão não é leão porque nasceu leão. Ele o é porque vive como leão. Tire-o de seu ambiente e crie-o como um gatinho e ele viverá como um. Isto é o que Sartre quis dizer.
A vida é uma travessia entre o ser e o nada. O nada de antes e o nada do depois. Porém, entre esses limites, "os dois nadas", há uma existência da qual somos protagonistas. Podemos assim, ser tudo o que desejarmos dentro desses limites, bastando lembrar de quem somos afinal. Neste início de 2013, lembremo-nos de quem somos e, como o leão da história, vamos abrir nossa bocarra. E, com o mais ensurdecedor dos urros, encaremos o ano novo que começamos a caminhar. É isso aí!
O autor, Antonio Grecco, é colaborador do Opinião