09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Padre Boaventura

Da Redação (Colaborou Jéssika Elizandra)
| Tempo de leitura: 6 min

Éder Azevedo

Padre Boaventura, da ordem marianista, gosta de ler, acessar a internet, fazer mágicas, música

Quem visita padre Boaventura, de cara fica surpreso pela sua disposição aos quase 90 anos. Ele, que pertence à ordem religiosa marianista, anda para todos os lados da casa paroquial com a sua inseparável bengala. E atende à porta com um sorriso que ilumina seu rosto sempre que a campainha toca.

Antes mesmo da entrevista, Boaventura brincava pedindo para a reportagem contar “piadinhas” para que ele saísse sorrindo na foto. O imóvel é cheio de livros - e várias vezes, durante a entrevista, fomos interrompidos pela entrega de mais exemplares.

A seguir, o padre fala sobre a doença que o manteve internado no início da infância, a desaprovação do pai quando lhe contou que pretendia seguir a vocação religiosa e especula sobre as causas da queda da taxa de cristãos em todo o mundo.


JC - O senhor pode falar um pouco sobre a sua infância na Espanha?

Boaventura Barrón Ramírez - A minha família era formada pelo meu pai, minha mãe e seríamos em 10 filhos, porém só três de nós chegamos à idade adulta. Nasci em uma pequena cidade chamada Briñas (localizada em La Rioja, uma das províncias autônomas da Espanha), mas como o meu pai viveu muito tempo em Vitoria-Gasteiz (cidade da Comunidade Autônoma do País Basco, território vizinho), quando eu tinha 1 ano nos mudamos para lá, e ali, vivi até os 17 anos.

Aos 3 anos tive nas pernas uma osteomielite (infecção nos ossos), o que era bastante normal na época, já que não tínhamos antibióticos, e fiquei internado em uma hospital até os 5 anos.

Como havia outras crianças lá, a gente se divertia e esquecíamos da doença. Criança não sofre. Uma coisa que me marcou nesse período foi uma freira que orou por mim e, a partir daí, eu passei a ter uma fé muito forte.

Apesar de tudo, fui uma criança feliz e um pouquinho arteira. Pela minha infância ninguém imaginaria que eu poderia ser padre. Quando saí do hospital passei a frequentar um colégio ligado a igreja, pois mesmo o meu pai não sendo muito religioso, minha mãe era. Ir para a escola era maravilhoso. Tínhamos professores bons e respeitosos.


JC - Parece que o senhor toca flauta...

Boaventura  - Tocava. Aprendi nos anos 70 porque queria interpretar os cantos. Fui um autodidata com método, mas faz uns 20 anos que não toco para valer.


JC - Tem alguma outra habilidade “escondida”?

Boaventura  - Faço truques de mágica. Quer ver? (O padre faz a aliança que está no seu dedo anelar, sem a reportagem como, mudar para o médio. Também segura entre o indicador e o polegar um dado e, apesar de não tirar os dedos da face 1 e 2, na face debaixo mostra todas as outras do dado).


JC - Como foi a descoberta da sua vocação?

Boaventura  - Com 17 anos eu comecei a me perguntar o que Deus queria de mim e percebi que gostaria de seguir esse caminho. Mesmo assim, iniciei a faculdade de direito, enquanto preparava a minha família.

Quando pedi autorização aos meus pais para ir me juntar aos marianistas, a minha mãe aceitou bem, mas o meu pai disse: “Você faça o que quiser, eu não me oponho, mas não pise mais na minha casa”. Mesmo assim eu não desisti, pois estava confiante na minha decisão. Fui pedir autorização, e não conselho. Me mudei primeiro para o centro do País Basco e depois para Madri, e estudei para ser irmão (função masculina equivalente a de freira para as mulheres). Eu me dediquei ao estudo do grego e do latim, e depois me especializei em pedagogia e em psicologia, pois fazíamos os estudos oficiais junto com os religiosos. Nos preparávamos com muito empenho e dedicação. Queríamos ser os primeiros da sala. Meus pais iam me ver, mas não com muita frequência.


JC - Ao mesmo tempo em que o senhor era irmão, era também educador, certo?

Boaventura  - Sim. Marianistas têm uma dedicação especial a Nossa Senhora, pela sua bondade, simplicidade, alegria e pureza, e uma das nossas ocupações fundamentais é ser professor, função que passei a exercer aos 23 anos. Ensinava grego e espanhol e sempre me esforcei para motivar meus alunos, e eles se sentiam seguros de vir conversar comigo se tivessem alguma dificuldade.

Primeiramente dei aula para jovens de 14 anos e depois para os marianistas que iam para a faculdade. Nessa época eu não sentia necessidade de me tornar padre.


JC - E quando começou a sentir?

Boaventura  - Vim para o Brasil em 1976, ser missionário na cidade de Tupã. Comecei a visitar pessoas nas casas, doentes, e todo mundo me chamava de padre. Então a mudança foi natural. Eu já tinha a minha formação, livros publicados (no Brasil você pode encontrar os títulos “Lucas, o Espírito de Jesus” e “Mateus, o Reinado do Deus Pai”, escritos por ele), por isso não precisei fazer nenhum estudo especializado. Ainda assim estudei mais a fundo teologia e a bíblia, e fui ordenado.


JC - Por que o senhor veio para Bauru?

Boaventura  - Em 1984 recebi um convite para ficar à frente da Paróquia São Sebastião. Em 1987 fui para a Maria Mãe do Redentor e, em 1996, para a Sagrada Família. Fui muito feliz nas comunidades que acompanhei, e continuo sendo. Quando cheguei, fomos ao escritório do padre para escolhermos algumas fotos antigas dele, e ele me mostrou algumas no computador, o qual manejava com grande habilidade. Então, quis conversar com ele a respeito.

JC - Eu vi que o senhor usa a internet. Por quais sites navega?

Boaventura  - Quando comecei a usar o computador, não sabia nem ligar, mas hoje consigo utilizá-lo. Navego pouco na internet.

Uso, por exemplo, para me manter informado a respeito das coisas do Vaticano. Eu também tenho Facebook (para quem quiser adicioná-lo, é só procurar “Ventura Barrón”), mas é difícil responder a todos. Então utilizo mais para responder aos comentários a respeito do meu programa de rádio.


JC - Como ele funciona em Bauru?

Boaventura - Já faz 20 anos que a Auri-Verde o transmite diariamente às 6h. Ele só tem 7 minutos, mas não precisa de mais. Eu vou uma vez por semana até a rádio e já gravo todos os programas de uma só vez.


JC - O senhor não é mais responsável por ne paróquia. Quais são as suas ocupações atualmente?

Boaventura  - Moramos aqui em seis pessoas: dois padres e quatro irmãos. Somos uma família marianista, como um convento. Celebro missa todos os dias. Pode ser aqui, ou no Ferradura Mirim, ou no Hospital Lauro Souza Lima. Faço confissões todas às quartas-feiras na catedral, e sempre tem uma fila enorme.

Dou aula de estudos bíblicos e das cartas de São Paulo há uns 50 metros daqui. Considero o curso bastante original, faço desenhos, todos leem e depois podem dar a sua opinião. Pega fogo!

Tenho projetos enormes, mas tenho que escolher a quais me dedicar, pois senão não faço nada. Agora estou me aprofundando na bíblia como nunca me aprofundei, vendo quais são as partes fundamentais, os pensamentos, e anotando. A bíblia para mim é uma paixão.

Tenho muitos amigos. Não mereço os amigos que tenho. Eu só vou me aposentar quando morrer. Tive e tenho uma vida muito feliz. Quando Deus me chamar, eu vou correndo.

 

Perfil

Nome: Boaventura Barrón Ramírez

Idade: Fará 90 anos no próximo dia 23

Local de nascimento: Cidade de Briñas, localizada na província autônoma espanhola de La Rioja

Signo: Aquário

Hobby: Ler e estudar a Bíblia

Livro de cabeceira: A Bíblia, e seu livro preferido nela é o Evangelho de Lucas

Filme preferido: Os de Chaplin

Estilo musical predileto: Músicas de tourada espanhola

Time: Corinthians

Para quem dá nota 10: João Paulo II

Para quem dá nota 0: Demônio

E-mail: ventura.barron@marianistas.org