09 de julho de 2026
Política

?Angola bebe da água do Brasil?

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Angola, país com os melhores índices potenciais de crescimento no pós-reconstrução da guerra civil que perdurou por 26 anos, também é a nação africana que busca maior aproximação com o Brasil. Em visão quase diplomática, Hélio Aragão, o secretário de Comunicação do MPLA (trocando em miúdos o Partido Pela Libertação de Angola), não perde tempo e lança: “Angola bebe da água do Brasil para crescer. O Brasil foi o primeiro a reconhecer nossa independência, nos sentimos muito bem aqui e recebemos muito bem os brasileiros por lá”.

Representante de investidores angolanos na área de ensino superior na região de Bauru, sobretudo com a unidade da FAAG em Agudos, Aragão conversou abertamente sobre o processo de reconstrução do país africano destruído pela guerra civil, falou das etnias internas, do acordo ortográfico por lá também não adotado (como aqui ainda engatihando na prática), da tristeza com que seu povo, de origem predominantemente negro, vê a discriminação racional e social brasileira e do avanço da indústria para além do papel de matéria prima, assim como o enorme desafio em evoluir acima da agricultura de subsistência.

Hélio Aragão, de 33 anos, reflete na pouca idade pelo posto que ocupa nas relações internas em Angola a “sede política” de um país em busca da reconstrução, o que se torna, paradoxalmente à matança da guerra civil interna, em oportunidade para jovens como ele ascenderem em posições sociais de destaque. Ele nasceu em Luanda, a capital onde viveu até os 16 anos para então estudar na África do Sul. Em 2003 veio ao Brasil para se formar em marketing pela Universidade Tuiuti , em Curitiba (PR).


Crescimento

“Angola e Brasil assemelham-se muito. Angola bebe da água do Brasil para crescer, e com o volume de recursos externos que por lá estão sendo efetivados, acredito que vamos levar bem menos tempo para alcançar o estágio de país emergente no continente africano”, cita.

Atuante na área de comunicação do partido que domina o poder por lá por cerca de quatro décadas, apesar dos problemas da guerra civil e dos fragmentos de etnias internas, decreta sua versão.

“Hoje estamos em paz definitiva, mas as consequências da guerra civil foram enormes e estamos em franca reconstrução. Depois de muitos anos, em 2014 um Censo completo vai apontar com precisão nossas deficiências sociais e nossa situação real no campo e na cidade. Mas Angola já atua pela reconstrução em infraestrutura de maneira forte, recebe crescentes investimentos externos e inicia etapa para diversificar sua economia”, avalia.

O petróleo ainda continua tendo peso decisivo para um País onde os vizinhos lidam com problemas ainda maiores, como o Congo. A agricultura, de outro lado, permanece de subsistência, fase que também precisa ser superada para uma nação que já foi a maior produtora mundial de café, concorrente dos brasileiros, mas que ainda detém muitas reservas de minério, sobretudo de diamante, foco da presença ainda de grupos de guerrilhas em razão da disputa pelo controle das reservas. O petróleo é foco de forte disputa em localidades como Cabinda.


Dados econômicos

Angola é o segundo maior produtor de petróleo de África, depois da Nigéria, produzindo mais de 1,9 milhão de barris por dia (bpd). Na sequência dos choques provocados pela desaceleração económica mundial e pela forte queda do preço do petróleo, que provocou desequilíbrios orçamentais e na balança de pagamentos, o país está em recuperação.

O crescimento do PIB teve ligeiro aumento acima de três pontos percentuais em 2011 e viria a alcançar performance o dobro desse patamar no ano passado, o que ajudou a compensar os problemas de produção no setor petrolífero.

O país atua com parâmetro de alcançar taxas de crescimento do PIB de algo acima de 7% neste ano. Tal crescimento será impulsionado principalmente pelo início do projeto de Gás Natural Liquefeito (GNL), orçado em 9 milhões da moeda USD, que irá permitir o aumento da produção de petróleo para mais de 2 milhões de barris por dia.


Inflação

As pressões inflacionárias mantiveram-se elevadas em 14,5% em 2010, e algo próximo de 13,5% em 2011, principalmente em resultado do forte crescimento da procura interna. No entanto, estas apresentam tendência de queda para abaixo de dois dígitos desde o ano passado. Apesar dos progressos na melhoria das condições sociais desde 2002, o país ainda enfrenta enormes desafios no que se refere à redução da pobreza, ao desemprego e ao desenvolvimento humano.

O governo continua a destinar mais de 30% do orçamento para gastos sociais. Em 2012, as despesas sociais orçamentadas cresceram para 33.3%, o que corresponde ao dobro do que será gasto em segurança, defesa e ordem pública e os orçamentos da educação e da saúde registraram aumentos de 10%.


Meta de autossuficiência para 2025

Conforme Hélio Aragão,  o governo angolano está executando o programa Angola 2025, cuja meta ambiciosa é buscar autossuficiência para o desenvolvimento em áreas de sua vocação na indústria e o desenvolvimento da agricultura de transformação. “O café o o açúcar não tem mais grande peso na economia. Luanda concentra um terço da população de 15 milhões de pessoas e o plano inclui a construção de cidades satélites em algumas das 16 províncias (Estados para nós) diversificadas para o desenvolvimento se descentralizar”, exemplifica.

O poder ainda é concentrado nas mãos do presidente. O povo vota em lista e o mais votado é o comandante do País, o vice o segundo e o terceiro presidente da Assembleia. O presidente nomeia todos os governadores das províncias.

O MPLA consolidou a paz em Angola e também teve forte influência sobre o fim do apartheid na África do Sul e ajudado na independência regional, como na Namíbia. O acordo ortográfico ainda não teve adesão em Angola. Nossos dialetos complicam muito isso. Dificíl acentuar ideia”, comenta com bom humor o angolano.

A Festa do Mar continua tradição em Angola, mas o “país inteiro para mesmo é para comemorar a independência. Em razão dos efeitos da guerra e por ser um país livre jovem, o nacionalismo e o sentido patriótico é muito forte por lá”, comenta Aragão.

Perguntado sobre o racismo e dos indicadores sociais negativos, ele não falou sobre a onda de estupros que preocupa sobretudo mulheres angolanas e, também, visitantes, mas não deixou de ponderar sobre a discriminação: “Nós ficamos tristes ao ver um país com tal grau de desenvolvimento e crescimento como o Brasil, apesar dos seus problemas estruturais que todos temos, ter problemas com a discriminação, sobretudo em relação ao negro”. A lei Maria da Penha, na versão angolana foi levada daqui, e a criação do Ministério da Família e da Mulher também.  

Sobre a reconstrução do País, ele finaliza que isso passa pela “busca de parceiros que respeitam Angola, como o Brasil, e pela presença de know how brasileiro forte por lá, como a FAAG aqui no ensino superior, as parcerias em infraestrutura e em habitação, onde o projeto brasileiro está sendo implantado lá para recuperar rapidamente o déficit de moradias, e a presença de marcas como a Odebrecht e Andrade Gutierrez”, elenca.