09 de julho de 2026
Articulistas

Esquecemos quem fomos e quem somos

Munir Zalaf
| Tempo de leitura: 2 min

Raramente nos lembramos quem fomos para o que ou a quem pertencemos. Esquecemos a criança que ainda vive em nós, e deixamos adormecida a alegria de viver. Das pipas, bolinhas de gude, jogo amarelinha, façam tudo que o mestre mandar, chicote queimado, e tantos outros. Dos namoricos e das paixões frustradas. Não nos lembramos da primeira dança com rostos colados e cochichos aos ouvidos. Do vestido longo. Do terno azul marinho da gravata e dos sapatos de verniz.

Nosso Deus! Onde ficaram as serenatas, a dama na janela, as madrugadas despertadas pelas canções de então? O gosto do primeiro beijo somente após semanas de namoro? Levar a namorada de volta pra casa até as 10 horas da noite?

Estou revivendo os anos 40 e 50. Estão na saudade e nas páginas do romantismo que os costumes modernos apagaram.

Nenhuma crítica deste octogenário. Adaptei-me à modernidade. O crescimento tecnológico mudou o homem. O homem mudou os costumes desenvolvendo-os em bons e os maus hábitos. A importância dos estudos pela competição no mercado de trabalho, a mulher em atividades profissionais por ideal ou ajudar no orçamento doméstico, escravizaram o ser humano na busca da sobrevivência desejada.

Correr, chegar primeiro na fonte para beber a água limpa é preciso!

As crianças de hoje não tem infância. Perdoem a "minha malvadeza". Nem pais elas tem em se tratando da convivência. Começam a viver (?) em creches, jardins de infância, ensino fundamental e aí por diante. Até ficarem adultas diplomadas e sem recordações dos encantos da vida infantil.

Repito. Não vai aqui nenhum censura. As precisões atuais são inevitáveis. A certeza absoluta de que não é culpa da maioria dos pais. É da própria vida que hoje cobra com rudeza a corrida desenfreada para assegurar aos filhos seus futuros.

Não dá pra voltar. Tem que ser assim. Extinguiram a essência da vida. Com a sua sementeira.

Nós, das serestas, das cuba libres e dos rabos de galo, do zepelim, do futebol no campinho, sentimos nó na garganta quando "no meu tempo era assim...". Felizes! Dialogávamos. Riamos e chorávamos juntos. Dividíamos os problemas. Havia tempo pra isso. Hoje somos pais e filhos prisioneiros de um tempo sem ponteiros.

Deixamos a vida no esquecimento. Nas fotos desbotadas que provocam risos.

Permitam-me sonhar uma serenata e cantar a canção de Orestes Barbosa, "Chão de estrelas", pra minha amada me ouvir entre nuvens e querubins...

E, por favor, cantem comigo!

O autor, Munir Zalaf, é escritor e palestrante voluntário