08 de julho de 2026
Articulistas

O caos social pode ser evitado?

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

A entropia é geralmente descrita como uma medida da ordem e da desordem dentro de um sistema - quanto menor for a entropia, mais ordenado será o sistema; quanto maior for a entropia, mais desordenado ele será. O conceito de sistema é amplo: é aplicado ao universo e também aos organismos sociais - à família, à colmeia, a um cardume.

A segunda das quatro leis físicas que descrevem as relações das diferentes formas de energia afirma ser estatisticamente provável que a entropia num sistema tende a aumentar. Fazendo uma analogia, pensemos nosso universo como uma sala de recreação de crianças. A probabilidade dela estar desordenada de inúmeras maneiras é muito maior do que ela estar ordenada.

As equações da entropia, como muitas leis fundamentais da Física, operam simetricamente com relação ao tempo. Assim, teoricamente, a entropia de um sistema pode aumentar a partir de um momento presente para diante no futuro ou para trás no passado. Mas, por toda parte, em nosso universo de espaço-tempo, esse aumento é uma via de mão única - a entropia aumenta a partir daquilo que chamamos de passado para aquilo que chamamos de futuro. Nós experimentamos a chamada flecha do tempo. Se seguirmos a tendência da entropia decrescente remontando no tempo, chegaremos ao início do universo, quando sua entropia era muito baixa - isto é, quando ele se encontrava num estado extremamente ordenado.

O fato da entropia estar no seu maior nível de ordem no instante do Big Bang, permitiu que o mundo físico se desdobrasse de três maneiras decisivas. Primeira, deu à "seta" do tempo o seu sentido, portanto, o universo evolui, por meio da experiência do fluxo do tempo: do passado para o presente e em seguida para o futuro. Segunda, à medida que a entropia inevitavelmente aumenta, mais e mais informação e complexidade são capazes de ser incorporadas ao mundo físico e experimentadas. Terceira, esse aumento na informação e complexidade é contrabalançado por um decréscimo na ordem, ou seja, a evolução do universo incorpora níveis de informação cada vez maiores a medida em que sua ordem vai mudando para desordem.

É o que observamos na sociedade. Na medida em que a população e a entropia crescem, para contrabalançar a desordem e o caos que tendem a aumentar, é preciso leis mais rígidas, penalidades mais rigorosas, mais observância aos deveres, mais educação para a civilidade e para a convivência. Está claro que nossos governantes e legisladores têm falhado em aplicar medidas que se contrapõem ao aumento da desordem. Segundo a mesma lei física, até para minimizar um processo como esse se exige muito trabalho e dispêndio de energia. Para qualquer sociedade humana, a ausência de um esforço nessa direção que possa ser sentido, forma um vazio que desajusta todos os comportamentos. Quando nenhuma autoridade, nenhuma instituição, nenhuma personalidade pode garantir uma real credibilidade moral, quando as pessoas passam a achar que o mundo é uma selva em que reina a lei do mais forte, em que tudo é possível, só se pode vagar na direção da violência assassina, da tirania e do caos.

Assim como na sociedade, isto também ocorre em nossa própria vida. O homem é também um ser entrópico, apesar do corpo humano funcionar como um sistema aberto, recebendo aporte energético de várias fontes, principalmente sob a forma de alimentos. Essa energia alimentar, submetida a transformações metabólicas, é utilizada pelos diferentes órgãos, no entanto, somente uma fração da energia liberada pelo processo metabólico é efetivamente utilizada pelas células. É o corolário da segunda lei: grande parte da energia produzida pelo nosso corpo não fica disponível, é degradada. Sempre que energia é transformada, uma parte se degrada. No nosso caso, com a idade, a parte degradada aumenta e isso possibilita o surgimento de duas situações que evidenciam o caráter entrópico do ser humano: a doença e a morte. Com a idade a entropia aumenta, nosso corpo se desordena, envelhece, em que pese o ganho de experiência e conhecimento. De qualquer forma, também existem atitudes que contribuem para minimizar ou retardar o efeito entrópico em nosso corpo: as emoções positivas - alegria, prazer, perdão, gratidão, fé, esperança - diminuem a entropia, aumentam a ordem psíquica.

Pode-se dizer, portanto, que a vida é também o campo de batalha entre duas forças: a evolução espiritual e a entropia. A entropia causa o desgaste do corpo físico, que é o hardware para o qual a evolução produz novos softwares.

O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor Tttular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru