10 de julho de 2026
Polícia

Andarilhos fazem ?segurança paralela?

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Aceituno Jr. 

Praça Rui Barbosa é alvo de crimes, principalmente à noite

Praça Rui Barbosa, região central de Bauru. Uma mulher de 64 anos tem a casa, nas proximidades, invadida por volta das 2h da madrugada. No dia seguinte, ela escuta: “meu plantão tinha terminado pouco antes. Pode ficar sossegada que ninguém vai entrar mais lá”. Frase dita por um policial ou vigilante? Não. A promessa de tranquilidade veio de um dos vários moradores de rua que passam a noite na praça. A existência de uma “segurança paralela” preocupa a polícia.

O fato preocupante foi verificado pela reportagem do JC junto a moradores e comerciantes vizinhos da praça. “Nós procuramos fazer amizade com eles (moradores de rua) para tentar ficar mais seguros”, conta uma comerciante que, com medo, prefere não se identificar. Medo e anonimato, aliás, é o comportamento de todos os ouvidos pelo jornal.

Todos têm uma história de furto ou roubo para contar (leia mais abaixo), mas ninguém confessa pagar para ter segurança. Entretanto, falam em uma espécie de moeda de troca com os moradores de rua. Além da “amizade”, dão comida, água e tentam “ser legais” com eles. “Tive que entender isso depois de certa idade. É o que precisamos para ter segurança”, reclama outra moradora.

Informada pela reportagem, a Polícia Militar (PM) afirmou desconhecer o fato, porém acendeu o alerta. “Se isso estiver acontecendo, é algo muito temerário”, aponta o oficial de relações públicas do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), capitão Alan Terra. 

De acordo com ele, caso os moradores de rua estejam, mesmo que de forma embrionária, recebendo algo em troca para vigiar as casas, o fato pode evoluir para um contexto muito preocupante.

“Nesses casos, o que pode acontecer é esses moradores de rua tomarem isso como rotina e começarem a exigir que todos paguem por essa segurança. Se chegar a essa situação, cria-se atividade de segurança paralela, ou seja, uma milícia”, alerta o capitão.

Os próprios vizinhos da praça que se dizem “amigos” dos andarilhos enxergam a prática com desconfiança, justamente por não saber das reais intenções daqueles que prometem proteção e também dos inúmeros casos de ocorrências no local. O que eles pedem é mais policiamento.


Polícia

A PM, porém, afirma que todo seu efetivo já está empregado. Questionado se, emergencialmente, iria ampliar o patrulhamento na praça, Alan Terra afirma que não pode fazer tal promessa. “Se tirarmos policiais de uma área para colocar lá, significa que iremos defasar aquela área”. Contudo, o capitão afirma que vai se reunir com oficiais para estudar a questão.

Enquanto isso, ele aconselha os moradores e comerciantes a entrarem em contato com a própria polícia e outros órgãos para ampliar a segurança. Entre esses órgãos, estariam o Conselho Comunitário de Segurança Pública das regiões Centro e Sul de Bauru (Conseg Centro-Sul) e a própria prefeitura para garantir defensibilidade urbana com iluminação e jardinagem.

“Entendo o desespero dessas pessoas, porém, pagar uma segurança paralela não é uma boa prática. O que elas precisam é cobrar dos órgãos competentes. Mas iremos apurar o que está ocorrendo”, finaliza o capitão Alan Terra.


Comerciante relata prejuízo de R$ 100 mil na última sexta-feira

O que fazer para ter mais segurança? A pergunta ainda sem solução é o que motiva quem convive nas imediações da praça Rui Barbosa a recorrer até a uma “vigilância paralela”. Mesmo assim, casos de furtos e roubos não param de ocorrer.

“Eu tenho uma banquinha aqui na praça. É algo incrível. Tenho problema todo santo dia. Na maior parte, vêm adolescentes e levam um produto ou outro. Alguns chegam até a nos ameaçar. E eles fazem isso até durante o dia mesmo”, conta uma comerciante do local, de 64 anos.

A mesma sensação de que o crime virou rotina é de um homem, de 31 anos, que tem uma loja bem próxima à praça. “O último roubo foi sexta-feira agora. Entraram na loja de noite e levaram muita coisa. Tive um prejuízo estimado de R$ 100 mil”, conta.

Outro comerciante afirma que o que ocorre atualmente é uma espécie de “arrastão”. “Parece que eles pegam um caminho e vão subindo. Cada dia, os ladrões atacam um lugar. Em dois meses, foram quase todos os comércios”, conclui.


Subnotificação

Um dos maiores obstáculos do trabalho da polícia é que muitas vítimas não comunicam os crimes. “Isso gera o que chamamos de subnotificação”, alerta o capitão Alan Terra. De acordo com ele, além de esse fato não gerar a investigação posterior, prejudica o patrulhamento, que é montado de acordo com estatísticas.

Outro conselho policial é o de que a vítima nunca reaja. “O ideal é se afastar, procurar um abrigo e ligar para a emergência, no 190. Nunca dá para saber o que um criminoso vai fazer”, complementa o capitão.