08 de julho de 2026
Geral

Notícia choca alunos e colegas de trabalho

Tisa Moraes com Redação
| Tempo de leitura: 4 min

Momentos depois do acidente que tirou a vida do professor João Batista Neto Chamadoira, 71 anos, formandos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru se reuniram no Anfiteatro Guilherme Rodrigues Ferraz (Guilhermão) para a solenidade de colação de grau. Da cerimônia, participaram muitos dos estudantes de jornalismo, ex-alunos de Chamadoira, que se aposentou compulsoriamente no ano passado, ao completar 70 anos de idade.

Uma homenagem emocionada foi prestada ao professor, que dedicou boa parte de sua vida profissional à Unesp de Bauru. Nas redes sociais, ex-alunos e pessoas vinculadas à Academia Bauruense de Letras (ABL), da qual ele fazia parte, também demonstraram consternação por sua morte trágica.

A jornalista recém-graduada Larissa Maschio, 23 anos, que atualmente reside em Bauru, estava com dois sentimentos bastante distintos em uma das noites mais importantes da sua vida. De um lado, a alegria compartilhada com os familiares que estavam presentes da solenidade; do outro, a tristeza de saber da morte de seu professor e amigo.

“Tive aula com ele no meu primeiro ano de faculdade (2008). Sempre tenho coisas boas para falar sobre ele, que estava sempre animado e era um grande apaixonado pelo rádio”, disse Larissa.

Já a aluna Débora Pavan, 23 anos, que também se formou ontem em jornalismo, contou que não teve aula com Chamadoira, mas que o conhecia da Rádio Unesp, onde ele desempenhava um trabalho voluntário que envolvia os alunos do curso.


‘Mundo perdeu um grande homem’

O professor responsável pelo departamento de ciências humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac), Maximiliano Martin Vicente, que foi o patrono e o paraninfo das turmas de jornalismo, estava chocado com a notícia repentina, que pegou de surpresa a todos os presentes. “Eu ainda não estou acreditando, nós trabalhamos juntos por muitos anos. Era um homem otimista, com espírito aventureiro, conheceu boa parte do mundo em suas viagens, era poeta e amante do rádio. O mundo perdeu um grande homem, e eu não estou dizendo isso só porque ele morreu, é porque ele era mesmo”, enfatizou Maximiliano.


Biografia

Nascido em Atibaia (SP) em 9 de setembro de 1941, Chamadoira formou-se, na Capital paulista, em Letras Vernáculas, pela Universidade de São Paulo (USP), em 1968. Em plena ditadura militar, como militante ativo do movimento estudantil, chegou a ser preso duas vezes.

Depois, tornou-se mestre em Língua Portuguesa, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutor em Linguística, pela Unesp de Araraquara.

Ainda na Capital, iniciou sua carreira como professor e, anos depois, mudou-se para Bauru, onde passou a ministrar aulas na Unesp. Vinculado ao Departamento de Ciências Humanas, foi professor nas disciplinas de técnica redacional de jornalismo impresso, radiojornalismo e telejornalismo. Em 2012, aposentou-se compulsoriamente ao completar 70 anos.

Durante mais de dez anos, também atuou como voluntário na Rádio Unesp. Até seus últimos dias, atuou como produtor, diretor e apresentador do “Poesia e Prosa”, programa radiofônico com duração de cinco minutos, transmitido duas vezes por semana.


Paixões

Neste curto período, Chamadoira lia poesias, algumas delas de autoria própria, como forma de difundir uma de suas grandes paixões – a literatura - através do meio de comunicação com o qual mais se identificava. “Ele amava o rádio. Era muito dedicado, mesmo sem receber qualquer remuneração por este trabalho. O que ele queria era transmitir conhecimento e cultura para as pessoas”, relembra o produtor da rádio Fábio Fleury.

Outro trabalho voluntário desenvolvido pelo professor foram gravações de textos para deficientes visuais do Lar-Escola Santa Luzia. Escrevia ainda crônicas sobre sua adolescência em Atibaia para o jornal online Atibaia News.

Também professor da Unesp, Ângelo Sottovia Aranha lembra que Chamadoira manteve o espírito combativo que teve seu embrião durante os “anos de chumbo”. Muito tempo depois, já sexagenário, abraçou a defesa dos direitos dos idosos.

“E não era apenas em seu benefício, mas de todo mundo. Ele era corajoso para brigar com quem desrespeitasse vagas ou assentos reservados para a terceira idade, por exemplo. Tinha um senso de justiça muito próprio da personalidade dele”, comenta.

Outra paixão de Chamadoira, de acordo com amigo Muricy Domingues, também membro da ABL, eram as viagens ao redor do mundo. Ainda na semana passada, ele conversava na academia sobre sua incursão no Peru, alguns anos atrás, quando conheceu Machu Picchu e Cuzco.

“Ele gostava de escrever sobre as viagens que fazia. Apesar de gostar muito de se aventurar pelo mundo, tinha uma forte ligação com a mulher, com a família. É uma pena, uma perda muito grande para todos nós”, lamenta.


‘Companheiros de uma vida feliz...’

Com essa introdução o professor Chamadoira iniciava, em 3 de julho de 2012, um recado enviado pela internet a colegas dos tempos de Conjunto Residencial da USP (Crusp). O blog Crusp 68 traz memórias daqueles que foram estudantes da Universidade de São Paulo no fim dos anos 60. “Entre 1965 e 1968, vivi a minha vida, posso dizer”, destacava Chamadoira na mensagem. “Era uma época encantadora, em todos os aspectos: amizade, cultura, conhecimento, afetividade, tentativas de namoros, namoros. Crescimento para todos os lados”.

Ele acrescentava: “Hoje, já com duas aposentadorias, por tempo de serviço no Instituto Federal de Educação e Tecnologia (antiga Escola Técnica Federal de São Paulo) como professor de redação e literatura, e pela compulsória Unesp Bauru, docente de Linguística e Jornalismo, olho para trás e, vendo o Crusp, curvo-me nas possibilidades que a vida me proporcionou”.

E encerrava: “Por certo, o Crusp foi ferramenta fundamental para meu trabalho frente à vida. Era isso, pessoal. Sorry pelo, parece-me, exagero. Mas o Crusp e a vida assim me deixaram”.