11 de julho de 2026
Articulistas

A falta que a água me faz

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A ONU afirma que a falta de água será um problema mundial no século 21. Em Bauru já é. Os munícipes acompanham na mídia, e nas torneiras, o tormento que se tornou a constante falta de líquido potável. O DAE não sai das manchetes e as justificativas se assemelham muito àquelas do conselheiro Acácio, personagem de "O Primo Basílio", de Eça de Queiroz: "Falta água porque o precioso líquido é escasso". E faltará mais ainda se não soubermos distribuí-lo, sem desperdícios. Cada vez que a adutora do DAE estoura por estar velha de muitos anos, cabe a pergunta ingênua que faria inveja ao pomposo conselheiro: "E por que não instalam uma nova, já que sabem que está velha?" Agora a culpa pela falta d´água em Bauru é do "flange". Tropecei, quase caí na corrida ao dicionário. O Houaiss tirou-me das trevas da ignorância. Nunca mais vou esquecer tratar-se de uma conexão para ligar um cano a outro. Aí tudo bem. As pessoas que fiquem sem tomar banho. Flange é flange.

Planos abundam na autarquia. O novo presidente, pessoa muito correta e de boa vontade, anunciou a construção de uma barragem no Rio Batalha, para armazenar mais água. É preciso sonhar grande (obrigado, Acácio). Todos os detentores de algum poder querem marcar o período do seu plantão deixando uma pirâmide para a posteridade. É histórico. Mas, seria melhor em primeiro lugar resolver os problemas estruturais. De nada adianta barrar o rio se o órgão responsável pela produção não consegue distribuir a água. As notícias sobre vazamentos são constantes. O DAE leva pelo menos uma semana para corrigir o desperdício. Trata-se de água tratada, que consumiu energia elétrica para o bombeamento, cloro, sulfato de alumínio, sulfato de cobre, flúor e passou por testes de laboratório depois de decantada, para depois, ser despejada na rua.

Minha mulher gosta de me mandar buscar água na fonte que o DAE mantém defronte à Faculdade de Odontologia. Obediente, vou. Água de poço, com cloração mínima. Imprescindível para os quatro cachorrinhos da minha cara consorte. Trago quarenta litros por vez. Ontem, em mais uma missão encontro somente uma torneira em operação. As outras cinco estão quebradas. Vandalismo, por consequência. O posto de distribuição está todo pichado. Exala um cheiro de urina ao redor. Lixo no entorno. O cidadão na fila, com meia-dúzia de garrafas pet seguras com dificuldade sob os braços, fronte alta, olhos de bondade indagava em voz alta como era possível o povo danificar o que beneficia ao próprio povo? Lembrei-me na hora da "teoria das janelas quebradas", desenvolvida pelo cientista político de Harvard James Q. Wilson (1933-2012). O conceito é mais ou menos este: todo bem público, ou exposto ao público, se der sinal de abandono, pouco caso ou desleixo será ainda mais danificado como sinal de protesto. É a motivação dos pichadores. A recíproca também é verdadeira (outra vez o sr. Acácio). Caso sejam logo consertadas darão sinais que a desordem não será tolerada. Condições de desordem só geram mais desordem.

Edifícios degradados, pichados são ninhos de criminalidade. Desta teoria nasceu o célebre "Tolerância Zero", do prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, na década de 90. Está tudo no ensaio "Broken Windows" (março de 1982) com George Kelling. Políticas brandas elevam o número de crimes. Foi assim que diminuiu a criminalidade em Nova York, a ponto de hoje ser considerada uma das cidades mais seguras do mundo. Lá, cuspiu na calçada está multado. Ninguém fuma na estação rodoviária. No metrô há um aviso curto e grosso: qualquer infração penal dentro do metrô é agravada com dez anos de cadeia. Carro estacionado em local proibido é multado e guinchado. Câmeras de vigilância em todos os lugares. Menor que picha vai para o reformatório para aulas de ética e estética. Se tiver 16 anos, cadeia igual a qualquer adulto. Na Washington Square, um bonito jardim com monumentos, frequentado por remanescentes hippies existe uma placa: "Don´t even think about it" (nem pense nisso).

Em Toronto, no Canadá, a guia me disse que a água é de graça porque a cidade está à beira do Lago Ontário, enorme, de "fresh water", como eles chamam a água potável. Ninguém nem assim desperdiça. Os sanitários têm aquela caixa acoplada com dois botões. Um só para xixi, e o outro. Em vez de 24 litros, como no Brasil, gastam seis. Mais econômico só o costume argentino de juntar tudo e dar uma descarga única no fim do dia.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC