11 de julho de 2026
Nacional

'É culpa de quem usou pirotecnia', diz delegado sobre tragédia no Sul

Por Marcus Liborio | Com Redação e Agências
| Tempo de leitura: 22 min

 

Patricio Nunes/Reprodução

Tragédia com 231 mortos e 144 feridos choca o país, repercute no mundo e motiva reflexão sobre prevenção    

São Paulo - O incêndio com mais mortes nos últimos 50 anos no Brasil causou comoção nacional e grande repercussão internacional. Ainda no domingo houve um primeiro enterro, mas a maior deles é realizada nesta segunda-feira - de manhã e à tarde.

Em poucos minutos, mais de 230 pessoas - na maioria jovens - morreram na boate Kiss de Santa Maria - cidade universitária de 261 mil habitantes na região central do Rio Grande do Sul. Outras 144 ficaram feridas.

A Prefeitura de Santa Maria informou nesta manhã de segunda-feira que o número de mortos seria de 236, mas corrigu depois para 231.

Dos feridos, 79 seguem internados no município - e 65 em outras regiões.

A tragédia começou às 2h30 de ontem, quando um músico acendeu um sinalizador para dar início ao show pirotécnico da banda Gurizada Fandangueira. No momento, cerca de 2 mil pessoas acompanhavam a festa organizada por estudantes do primeiro ano das faculdades de Tecnologia de Alimentos, Agronomia, Medicina Veterinária, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Uma fagulha atingiu o sistema de exaustão da casa noturna e o fogo se alastrou rapidamente pelo teto com papelão e material de proteção acústica. A maioria das vítimas, porém, não foi atingida pelas chamas - 90% morreram asfixiadas.

Riscos seguidos

Uma série de erros potencializou a tragédia. Sem porta de emergência nem sinalização, muitas pessoas em pânico e no escuro não conseguiram achar a única saída existente na boate.

Com a fumaça, várias morreram perto do banheiro. Para piorar, seguranças da casa tentaram impedir alguns frequentadores de sair antes de pagar a comanda. Na rua estreita, o escoamento do público foi difícil. Bombeiros e voluntários quebraram as paredes externas da boate para aumentar a passagem.

Mas, ao tentarem entrar, tiveram de abrir caminho no meio dos corpos para chegar às pessoas que ainda estavam agonizando. Muitos celulares tocavam ao mesmo tempo - eram pais e amigos em busca de informações.

Como o Instituto Médico-Legal não comportava, os corpos foram levados a um ginásio da cidade, onde parentes desesperados passaram o dia fazendo reconhecimento. Lá também foi realizado o velório coletivo.

Ao longo do dia, centenas de manifestações de solidariedade lembraram a tragédia em todo o País. Emocionada, a presidente Dilma Rousseff chorou duas vezes ao falar do caso - ainda no Chile, de manhã, onde deixou um encontro com presidentes, e à tarde, ao lado do governador Tarso Genro, já em Santa Maria.

Segundo o comandante dos bombeiros, a boate tinha alvará vencido, mas em processo de renovação estava em andamento. “Tinha vencido o alvará deles, mas eles tinham toda a parte preventiva instalada no prédio”, explicou o coronel Guido Pedroso de Melo.

Delegado fala em homicídio culposo

O delegado Sandro Meinerz, um dos responsáveis pela investigação do incêndio ocorrido na boate Kiss, em Santa Maria (RS), que vitimou 233 pessoas, afirmou ontem que os integrantes da banda que tocava no local e cujo uso de fogos de artifício indoor podem ter dado origem ao incêndio podem ser indiciados por homicídio culposo - quando não há intenção de matar.

“Doloso não, culposo sim. É culpa de quem usou a pirotecnia. A banda sim (poderá ser indiciada), porque a atuação deles é que deu vazão ao incêndio e é preciso checar se eles podiam fazer aquilo ou não”, afirmou o delegado.

Segundo Meinerz a faísca do sinalizador utilizado no palco pela banda foi puxada pelo exaustor da boate e isso causou o incêndio por cima da espuma, o que pode ter gerado fumaça tóxica. O delegado não informou se os integrantes da banda já foram ouvidos pela Polícia.

Meinerz disse ainda que nenhum dos três proprietários da boate Kiss foi ouvido, mas que já foi feito contato com um deles pelo telefone. “Foi feito contato com um deles. São três proprietários, mas queremos saber se há uma coincidência do que consta documentalmente com o que efetivamente acontece. A gente sabe que nesse meio há proprietários que usam nomes de terceiros (no negócio)”, comentou.

Dilma: ‘Eu não vim aqui para falar’

A presidente Dilma Rousseff visitou ontem a cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, retornando mais cedo de um viagem oficial ao Chile, após um incêndio em uma casa noturna na cidade gaúcha que deixou mais de 230 mortos, e afirmou que o momento é de tristeza para todos.

Dilma chegou à Base Aérea de Santa Maria e seguiu direto para um hospital na cidade, onde vítimas do incêndio estavam internadas. Depois, a presidente seguiu para um ginásio onde estava sendo feito o reconhecimento das vítimas. Ela conversou com parentes e ofereceu solidariedade. A presidente saiu de Santa Maria, rumo a Brasília, sem comentar a tragédia. “Eu não vim aqui para falar”, disse ela ao ser abordada por jornalistas. Em homenagem às vítimas, decretou luto de três dias.

De acordo com informações do Hospital de Caridade, um dos locais que têm recebido os feridos no incêndio, Dilma permaneceu no local durante cerca de 15 minutos, reunida com o governador do Estado, Tarso Genro, e com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Neste encontro, foi discutida a possibilidade de remoção dos casos mais graves.

Alvará vencido

O delegado Sandro Meinerz, um dos responsáveis pela investigação do incêndio ocorrido na boate Kiss, em Santa Maria (RS), afirmou que o alvará de funcionamento do estabelecimento estava vencido na ocasião do incêndio.

“A informação preliminar é que o estabelecimento funcionava com alvará vencido em processo de renovação, mas ainda não renovado”, afirmou o delegado à reportagem. “Por que não renovou?”, questionou.

Meinerz disse ainda que a Polícia Civil irá investigar quando foi realizada a última vistoria do estabelecimento e verificar se houve alguma mudança na estrutura do local a partir de então. Além disso, a investigação pretende avaliar se o local estava adequado às normas de segurança e se de fato comportava o número de pessoas que estavam lá.

O delegado afirmou ainda que a Polícia irá investigar o suposto bloqueio das saídas da boate por seguranças e a existência de apenas uma saída de emergência. “Apenas uma saída de emergência?”

FAB envia equipes 

Uma aeronave C-130 Hércules foi disponibilizada pela Força Aérea Brasileira (FAB) para transporte de médicos e suprimentos para apoio ao atendimento aos feridos do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), ocorrido na madrugada de ontem. A aeronave já teria partido da Base Aérea do Galeão em direção ao Rio Grande do Sul.

Segundo a FAB, equipes de cirurgia geral e plástica, médicos intensivistas e enfermeiros do Hospital de Força Aérea do Galeão (HFAG) e do Hospital de Aeronáutica de Canoas (HACO) foram mobilizadas para auxiliar no atendimento aos feridos. Além da aeronave C-130 Hércules, quatro helicópteros H-60 Blackhawk da Base Aérea de Santa Maria também foram colocadas à disposição.

Dois helicópteros, inclusive, já chegaram a Porto Alegre trazendo quatro vítimas do incêndio em Santa Maria (RS). Os helicópteros pousaram no parque da Redenção, de onde os pacientes foram levados até o Hospital de Pronto Socorro (HPS) de ambulância. O HPS possui uma unidade de atendimento a pacientes vítimas de queimaduras.

Em fila, famílias reconhecem corpos

Jean Pimentel/Agência RBS/Estadão Conteúdo

Médicos e voluntários mostram objetos aos familiares para identificar as vítimas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Famílias faziam fila em um ginásio em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul, para reconhecer os corpos das vítimas de um incêndio numa boate da cidade, que deixou 233 pessoas mortas, a grande maioria jovens.

Apenas dois integrantes de cada família podiam percorrer a fila de corpos alinhados no chão do ginásio, em um trabalho lento e doloroso para confirmar a identidade de cada um dos mortos.

“É o dia triste da minha vida. Eu nunca pensei que ia viver isso e ver minha menina indo embora”, disse à reportagem Neusa Soares, 64 anos, lamentando a morte da filha Viviane Tolio Soares, 22 anos, que trabalhava numa loja de departamentos, enquanto aguardava na fila para entrar no ginásio.

Todos os familiares eram amparados por assistentes sociais e recebiam luvas de borracha e máscaras cirúrgicas antes de entrarem no local.

Não havia mais capelas mortuárias disponíveis na cidade para realizar os velórios. Em função disso, a prefeitura decidiu realizar um velório coletivo. No entanto, a cerimônia só teria início após a última vítima ser identificada.

Durante o dia, alguns pais de vítimas já identificadas estavam revoltados com a hipótese de não poder iniciar imediatamente os funerais. “É muita dor ainda ter que esperar”, dizia um pai revoltado, ao lado do ginásio.

As autoridades locais já cadastraram mais de 200 voluntários, incluindo psicólogos e enfermeiros, para ajudar no amparo aos parentes das vítimas.

Cidade localizada a 350 quilômetros de Porto Alegre, Santa Maria abriga várias universidades. A prefeitura decretou 30 dias de luto oficial por conta da tragédia.

‘Não tem explicação para eu estar vivo’

O segurança da boate Rodrigo Moura disse à reportagem que não conseguiu apagar o fogo. Disse que correu para o banheiro, onde viu pilhas de corpos. E que ainda não sabe como saiu da boate. “Pelo lugar em que eu estava (nos fundos), não tem explicação eu estar vivo.” Dez colegas morreram, diz.

O guitarrista Rodrigo Lemos Martins, da banda Gurizada Fandangueira, disse que ficou “surpreso” com o incêndio que começou enquanto o grupo tocava. Ele afirmou que o sinalizador usado pelo vocalista, chamado “sputinik”, era comum nos shows. Foi só uma música depois de ter sido aceso que o fogo começou, segundo o rapaz. Por isso, Martins diz ver a possibilidade de que o sinalizador não tenha sido o responsável pela tragédia.

Fumaça tóxica mata por asfixia em até dez minutos

Para que que haja uma morte em decorrência de uma asfixia, como aconteceu na boate Kiss, em Santa Maria, são necessários pelo menos dez minutos de exposição à fumaça tóxica. A avaliação é do pneumologista Humberto Bogossian, do hospital Albert Einstein, de São Paulo.

De acordo com o profissional, em uma situação como a que houve em Santa Maria (RS), as vítimas ficam expostas a três fases de contaminação que, em conjunto, sem cuidados médicos, vão levar à morte.

“No primeiro momento, acontece uma lesão térmica no sistema respiratório provocada pelo calor no ambiente. A temperatura pode ficar tão elevada que a proteção que temos na narina fica perdida. Acontece uma queimadura de toda a mucosa respiratória. Será possível respirar, mas com dificuldade”, disse o médico.

Bogossian explica que, com o tempo, a queimadura vai provocar um inchaço e o fechamento parcial do canal onde passa o ar.

Conforme o médico, o segundo momento de risco na exposição à fumaça é a diminuição do nível de oxigênio no ar, o que irá provocar a falta do elemento no sangue e o início da morte de células no cérebro.

O terceiro momento da contaminação, segundo o pneumologista, é o contato com o monóxido de carbono, que vai afetar o transporte de oxigênio pelo corpo, afetando as hemácias (células do sangue).

Jornais internacionais dão destaque ao incêndio na Kiss

Canais de televisão e jornais internacionais repercutiram com destaque o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS).

Na Europa, a notícia foi manchete dos jornais “Guardian”, do Reino Unido, nos espanhóis “El País” e “El Mundo”, nos franceses “Le Monde” e “Le Figaro”.

Os americanos “New York Times” e “Washington Post” ainda mostram fotos do resgate.

Na Argentina, a notícia foi o principal destaque dos jornais “Clarín” e “La Nación”. O país teve uma tragédia parecida em 2004, quando 194 pessoas morreram após um integrante da banda Callejeros lançou um sinalizador na boate República Cromagnon, em Buenos Aires.

O “La Nación” publicou um perfil da banda Pimenta e Seus Comparsas, uma das bandas que tocou na Kiss na madrugada de ontem.

Ambos os jornais fizeram textos comparativos com o desastre de Cromagnon.

A rede de televisão Telesur, com sede em Caracas, destacou a saída de Dilma Rousseff da cúpula da América Latina e da União Europeia em Santiago em vez de colocar imagens da tragédia.

Fogos indoor são comuns em Santa Maria, diz DJ 

O DJ Sandro Cidade, que trabalha há três anos na boate Kiss, em Santa Maria, e estava no local no momento do incêndio ocorrido na madrugada de ontem, disse que os fogos de artifício indoor, próprios para ambientes fechados, são comuns em eventos da cidade gaúcha. “São usados em festas de 15 anos, em qualquer salão que você for em Santa Maria você vai encontrar”, afirmou à reportagem.

As causas do incidente ainda não foram determinadas, mas relatos indicam que o incêndio começou durante a apresentação de pirotecnia realizada pela banda Gurizada Fandangueira, a segunda a subir ao palco na madrugada de ontem.

O DJ, que além de tocar nos intervalos dos shows é responsável pela operação de som do estabelecimento, desconhece se foi feito algum teste com os fogos de artifício usados pelo grupo. “Não é culpa da banda, foi uma fatalidade, uma tragédia”, defendeu.

O gaiteiro da banda Gurizada Fandangueira, Danilo Brauner Jaques, faleceu. 

Reprodução/Facebook

 

 

 

Michele Cardoso: protética morta em incêndio em Santa Maria; ao lado, imagem postada há duas semanas por ela com fita que traz nome da boate Kiss

 

 

 

 

 

 

 

 

Como foi o acidente (segundo relato de presentes)

No início do show, por volta das 2h, um integrante de uma banda acendeu um sinalizador. As faíscas atingiram o teto, com isolamento acústico altamente inflamável, e as chamas se espalharam rapidamente; seguranças e integrantes da banda ainda tentaram apagar o fogo com água e extintores 

Ao perceberem o início de incêndio e aos gritos de “fogo”, os presentes iniciaram uma correria no local; muitos decidiram se abrigar nos banheiros da casa noturna

 

Outras pessoas correram para a porta de saída da casa, mas teriam sido barradas por seguranças, que imaginavam se tratar de uma briga, e não um incêndio

 

Os primeiros integrantes dos Bombeiros que chegaram ao local tiveram de ultrapassar pessoas mortas próximas à entrada da casa de show até alcançar um outro ponto do local no qual sobreviventes agonizavam

 

A maioria dos corpos foi encontrada nos banheiros (um masculino e um feminino); entre as vítimas, a maioria morreu intoxicada; segundo os Bombeiros, há vítimas que foram pisoteadas e intoxicadas

‘Só deixavam sair se pagasse comanda’

Segundo relatos de testemunhas da tragédia na boate, seguranças impediram a saída das pessoas nos primeiros momentos

Santa Maria - Testemunhas relatam que os seguranças da boate Kiss, em Santa Maria (RS), impediram a saída das pessoas nos primeiros momentos do incêndio que atingiu o local na madrugada de ontem e deixou ao menos 233 mortos. “No começo, só deixavam sair quem pagasse a comanda”, disse Murilo Lima à rádio Gaúcha. “No começo, os seguranças estavam barrando, pois não sabiam o que estava havendo”, completa o jovem, que escapou da tragédia.

A informação foi confirmada pelo estudante de engenharia Mateus Abadi, 21 anos. Ele afirmou à reportagem que os seguranças não sabiam o que acontecia. “Assustados, seguraram um pouco as pessoas. Até que perceberam a urgência e abriram as portas.”

Segundo ele, “não tinha como se mexer lá dentro, a casa estava lotada”. “Foi impressionante as pessoas sendo carregadas como saco de batatas, como se não valessem nada”, relembra Abadi. O estudante conseguiu correr a tempo. “Estava perto da saída com minha irmã, mas um amigo infelizmente morreu”, conta.

Uma estudante da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) afirmou ainda que os extintores do local não estavam funcionando.

“O pessoal começou a correr e a se pisotear. Chegaram a me falar que havia uma pilha de dois metros de pessoas amontoadas no banheiro, tentando escapar do fogo que vinha mais baixo”, relata ela, que não quis se identificar.

Ela conta ainda que se safou por questão de instantes. “Eu saí para fumar bem na hora”, afirma aliviada. “Quando acendi o cigarro, todo mundo começou a sair correndo”, completa.

A gaúcha perdeu cinco amigos na tragédia, mas ainda aguarda a divulgação de outros nomes de pessoas com quem não conseguiu mais contato. Segundo ela, alguns dos extintores não estavam funcionando.

‘Vi pessoas serem pisoteadas tentando sair’, diz sobrevivente

Santa Maria  - A auxiliar de escritório Michele Pereira, 34 anos, é uma das pessoas que conseguiu escapar do incêndio que atingiu na madrugada de ontem a boate Kiss, no centro de Santa Maria (307 km de Porto Alegre).

No momento do incêndio Pereira estava em frente ao palco onde um grupo fazia um show. “A banda que estava no palco começou a usar sinalizadores e, de repente, pararam o show e apontaram (o sinalizador) para cima. Aí o teto começou a pegar fogo, estava bem fraquinho, mas em questão de segundos começou a se alastrar”, contou.

A auxiliar estava próxima da porta da saída, por isso conseguiu escapar. “Foi minha sorte estar perto da saída e era a única que tinha pelo que eu vi porque todo mundo estava saindo por ela ou pela porta de entrada”, contou. No corre-corre, Michele caiu e machucou o joelho. “Vi muita gente sendo pisoteada no desespero para sair de lá eu acabei cortando o joelho”, disse.

Na saída, o cenário visto por Pereira foi desolador. “Foi terrível, cena de filme de horror! Corpos caídos pelo chão, muita gente desmaiada, chorando, tentando respirar porque a fumaça era muita”, contou.

Pereira estava com a estudante de radiologia Leandra Toniolo, 23 anos, quando a amiga avisou que iria ao banheiro, deixando todos os documentos na bolsa da auxiliar. O incêndio começou quando Toniolo ainda estava no banheiro. A família ainda busca por notícias da estudante.

“Assim que o incêndio começou ela ainda estava no banheiro, que ficava próxima a entrada. Eu estava no lado oposto, perto do palco e próximo da porta de saída. Eu teria que cruzar a pista inteira para tentar encontrá-la e no tumulto era impossível”, contou.

Integrante da banda que tocava na boate morreu

A banda Gurizada Fandangueira, que tocava na boate Kiss em Santa Maria (RS) na hora do incêndio onde pelo menos 233 pessoas morreram e outras 127 se feriram na madrugada de ontem, teve um de seus seis integrantes mortos: o sanfoneiro (gaiteiro) Danilo Jaques, o mais jovem do grupo.

O baterista Eliel de Lima, 31 anos, contou ao site de notícias G1 que, antes de deixar o local, desatou a sanfona das costas do amigo. Eliel diz que foi o último músico a deixar o palco.

Nessa hora, Danilo estava parado ao lado da porta do banheiro, ainda preso à sanfona. Foi quando o baterista ajudou o colega a se livrar do instrumento. “Àquela altura, o pessoal já estava correndo, a fumaça levantando, aí não o vi mais, estava tudo escuro, era uma fumaceira”, lembra.

Depois disso, Eliel saiu correndo em direção à saída e ficou esperando em um estacionamento em frente pelos outros cinco companheiros da banda. Aos poucos, os músicos se encontraram, mas Danilo não voltou.

“A gente saiu mal, no meio da fumaça, tive dor no peito. Fiquei aguardando para podermos nos achar, para ver quem tinha saído. Fomos nos encontrando aos poucos e ficamos na expectativa de achar o Danilo, mas ele não apareceu”, relata.

Eliel só ficou sabendo da morte do amigo no início da tarde de ontem, pois mora na cidade de Rosário e foi para casa depois do acidente.

Início do incêndio

Eliel lembra que a banda estava tocando há cerca de meia hora, depois das 3h da manhã, quando o fogo começou – as faíscas do show pirotécnico que o grupo usava atingiram a espuma do isolamento acústico no teto do estabelecimento e as chamas se espalharam.

Os integrantes da banda foram as primeiras pessoas a perceber o incidente, por isso conseguiram escapar rápido, “superapertados”. Para chegar até a saída, tiveram que atravessar toda a boate Kiss, pois o palco ficava no lado oposto ao da porta externa. “Um segurança chegou com um extintor de incêndio, tentou apagar o fogo, mas o extintor não funcionou”, revela o baterista.

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O incêndio teria começado durante show da banda Gurizada Fandangueira; integrantes na foto acima

Em nota, boate lamenta a tragédia

Santa Maria - A administração da boate Kiss anunciou “com grande pesar” a tragédia em sua página do Facebook. Segundo a nota, “a prioridade da casa é prestar o atendimento necessário aos sobreviventes e familiares das vítimas fatais.”

O comunicado, assinado por Armando C. Neto, diz que a empresa disponibilizou uma equipe de especialistas, como médicos e psicólogos para auxiliar as famílias e vítimas. A nota afirma que os funcionários do local eram treinados e preparados para atuar em situações de emergência. Segundo o comunicado, a boate ficará fechada por tempo indeterminado.

A boate Kiss excedia a sua capacidade de lotação (1.000 pessoas) quando o incêndio teve início em uma das palmeiras de imitação que decoravam o local, espalhando-se em seguida pelas paredes e o teto do clube.

Argentina mandará pele para queimados

São Paulo - O atendimento aos feridos do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, mobilizou médicos, psicólogos, voluntários e hospitais de várias cidades e até da Argentina, que anunciou o envio de pele para enxertos para as pessoas queimadas.

Feridos com queimaduras graves foram transferidos para Porto Alegre e, segundo o governo, centros de referências no Rio e Paraná estão prontos para receber eventuais pacientes.

A Secretaria Municipal de Saúde de Santa Maria anunciou uma campanha para doação de sangue no Hemocentro do Rio Grande do Sul a partir da manhã de amanhã a fim de repor os estoques e ajudar as vítimas do incêndio.

Reprodução

Reprodução

Frente da boate após o acidente

Pista de dança da boate Kiss

 

Incêndio em circo matou 503 há 51 anos

Tragédia em Niterói foi causa por homem que disparou chamas contra a lona, que pegou fogo e caiu sobre público

Rio - A maior tragédia brasileira decorrente de um incêndio aconteceu na tarde de 17 de dezembro de 1961 em Niterói, então Capital do antigo Estado do Rio de Janeiro. Oficialmente, morreram 503 pessoas. Pelo menos 1.000 ficaram feridas, grande parte delas com queimaduras gravíssimas. Cerca de 70% dos mortos eram crianças. A tragédia foi provocada por um homem que disparou chamas contra a lona do circo, que pegou fogo e caiu.

Passados 51 anos, o desastre do Gran Circo Norte-Americano ainda é tema discutido na cidade. Há questionamentos sobre o número real de vítimas, que poderia ser ainda maior, e sobre a autoria, creditada pela polícia a um empregado que, demitido do circo, teria se aliado a dois mendigos para incendiar a lona.

Havia, de acordo com a crônica da época, pelo menos 2 mil pessoas sob a lona do Norte-Americano quando o fogo começou. Inflamável, a cobertura caiu sobre a multidão em pânico, o que certamente impediu que centenas de espectadores escapassem pela única e estreita saída.

As labaredas arderam por dez minutos. Apagadas, revelaram um cenário jamais visto em uma cidade pacata, com não mais do que 250 mil habitantes: corpos calcinados espalhados às centenas pelo terreno onde até minutos antes funcionara um circo. Ao redor, agonizantes imploravam atenção e socorro. Para agravar ainda mais o quadro, a rede hospitalar da Capital fluminense estava semiparalisada por uma greve que já durava 20 dias. O Hospital Antônio Pedro foi reaberto emergencialmente.

Um dos médicos envolvidos no atendimento aos queimados, o clínico Marcio Torres relembra um episódio que o marcou. Ele estava no quinto andar do Antônio Pedro, sozinho com pacientes moribundos, quando reparou na entrada de um homem de terno, que, chocado com o que via, desatou a chorar.

Com 26 anos na época, Torres chegou a pensar que, por uma desatenção da triagem, o parente de um ferido conseguira chegar à enfermaria. Ao aproximar-se, o médico descobriu quem era o visitante: o então presidente da República, João Goulart.

“Eu atendia na enfermaria quando vi chegar um senhor cambaleante. Ele se abaixou na mesa e começou a chorar que nem criança. Só depois vi que era o Jango. Não era um choro demagógico, fabricado para câmeras. Ele estava só, nem tinha me visto. Não trocamos palavra. Eu o peguei por um braço, o bispo de Niterói chegou e o pegou pelo outro, e o ajudamos a deixar a enfermaria”, rememora o clínico, que completa hoje 78 anos.

Lenir Ferreira, 77 anos, perdeu o marido e os filhos de 2 e 3 anos no incêndio. Estava grávida. Também perdeu a criança que nasceria. Passou nove meses hospitalizada. Traz cicatrizes espalhadas pelo corpo. Por ter perdido parte do couro cabeludo, ainda hoje usa peruca. “Já vivemos isso. Essa tragédia no Rio Grande do Sul me fez lembrar tudo o que passamos em Niterói. Lembro bem que quando o fogo do circo apagou, apareceu um soldado que gritou: ‘Quem está vivo aí, levanta a mão’. Consegui levantar o braço com muita dificuldade. Não consigo esquecer”, disse.

Outro sobrevivente é o coronel Mário Sérgio Duarte, ex-comandante-geral da Polícia Militar (PM) do Rio. Ele tinha quatro anos. Ao ver o fogo na lona, avisou ao pai e à irmã, mais velha um ano. Os três fugiram por um buraco escavado no chão.

Culpados

O dono do circo Danilo Stevanovich contratou 50 funcionários extra para instalação do circo, entre eles Adilson Marcelino Alves (com antecedentes por furto e tinha problemas mentais). Adilson foi despedido dois dias depois e passou a rondar o circo.

Expulso na noite de estreia, ele jurou vingança, e com dois comparsas, José dos Santos e Walter Rosa dos Santos iniciaram um incêndio. O circo com cerca de 3 mil pessoas na plateia foi consumido rapidamente deixando 500 mortos, 70% crianças. Adilson foi condenado a 16 anos de prisão e 6 anos de internação em manicômio judiciário, menos de um ano depois fugiu e foi assassinado. Walter Santos e José dos Santos também foram condenados.

Incêndio em Santa Maria é 2º mais mortal e 5ª maior tragédia da história do Brasil

Santa Maria - O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), que deixou pelo menos 236 mortos na madrugada de ontem foi o segundo incêndio mais mortal e a quinta maior tragédia da história do Brasil.

O maior incêndio brasileiro aconteceu no Gran Circo Americano, em 17 de dezembro de 1961, que deixou 503 mortos em Niterói (RJ). A tragédia foi provocada por um homem que disparou chamas contra a lona do circo, que pegou fogo.

Outras milhares de pessoas ficaram feridas por queimaduras de segundo e terceiro graus ou pisoteadas na correria após o incidente. A maioria das vítimas foram crianças.

O número de vítimas até o momento já é maior que o incêndio no edifício Joelma, em 1974, que deixou 188 mortos e foi o maior incêndio do Estado de São Paulo e agora o terceiro maior do Brasil.

Tragédias

A tragédia em Santa Maria foi a quinta maior do Brasil, se considerados também os acidentes aéreos e os desastres naturais. O maior número de mortos em apenas um único fato no Brasil foi em janeiro de 2011, quando mais de 900 pessoas morreram em chuvas na Região Serrana do Rio.

Tempestades também foram a causa do segundo, do terceiro e do quarto maiores desastres brasileiros. Mais de 500 pessoas morreram na região metropolitana do Rio, no fim de 1966 e no início de 1967, e 465 foram vítimas de uma série de chuvas em Caraguatatuba (litoral norte de SP), em março do mesmo ano.

Há dois anos, 256 pessoas morreram após as chuvas de 6 de abril no Rio e em Niterói, em especial no deslizamento do morro do Bumba, um antigo lixão na zona norte niteroiense.

O incêndio na boate Kiss ainda supera os três maiores desastres aéreos brasileiros - o acidente com o voo 447 da Air France em 2009 (228 mortos), o voo JJ3054 da TAM em Congonhas (199) e a colisão do voo 1907 da Gol em Mato Grosso (154).