O sr. Esteves reside em um bairro tranquilo e é um típico homem comum. É considerado bom cidadão, cumpridor de seus deveres e de inteligência razoável. É um homem gentil, amável, pontual e honesto e é incapaz de pisar em uma formiga. Ama a natureza, respeita os animais. Possui um automóvel, como grande parte dos cidadãos brasileiros e se considera um bom motorista.
Mas, quando o sr. Esteves assume o volante, acontece um fenômeno inusual. Ele se deixa conduzir por uma forte sensação de poder, sua personalidade se modifica rapidamente e, de repente, ele se transforma em um monstro, em um motorista incontrolável. O sr. Esteves é agora o sr. Tyson, "o motorista". Buzina para os pedestres que estão atravessando a rua, passa no sinal vermelho, dirige palavras ofensivas o outro motorista que não lhe deu passagem, para na vaga para deficientes por alguns longos minutos, estaciona sobre a calçada... Ele tem esse direito, pois pagou IPVA, seguro obrigatório, IPTU, etc.
Como tal, acha que os ônibus atrapalham o trânsito, que os pedestres incomodam demais, os agentes e policiais de trânsito o perseguem e só querem multá-lo, os semáforos são muito demorados, e passar uma vez ou outra no sinal vermelho, quando está com pressa, não traz maiores consequências.
Enfim, o sr. Esteves, um pacato, educado e civilizado cidadão, no seu cotidiano, quando travestido de motorista, com a sua armadura de aço, se transforma em um paladino das ruas. Entende que tem o direito de desrespeitar as leis de trânsito, de beber e depois dirigir, e muitas vezes velozmente. Não se preocupa se com suas atitudes vier a atropelar e matar crianças, idosos, pessoas, em geral. Aliás, para estes senhores Tyson, uma pena deveria ser imputada pela justiça, o trabalho obrigatório, por longos anos, em hospitais de traumatologia. Somente convivendo com a dor diária destas vítimas e seus familiares, poder-se-ia ter seu coração amolecido.
Ainda ontem, fui testemunha de um fato lamentável, no estacionamento de um supermercado na zona sul da cidade. Neste local, faixas de pedestres entrecortam o estacionamento e todas há demarcação de "Pare" no solo, dando clara preferência ao pedestre. Uma moça cortou a frente de um senhor que transitava pela faixa e ele bateu na lateral do veículo. Ela não só não parou para ver se algo tinha acontecido com o cidadão, como despejou janela afora os mais indizíveis impropérios a ele. Antes, este comportamento inadequado era mais comum entre os homens; hoje, já se difundiu também entre as mulheres. Que pena!
O ser humano, principalmente, no trânsito está cada vez mais embrutecido, insensível, incapaz de ser gentil e afável, elegante, cortês. O que se vê são brutamontes, capazes de buzinar para uma pessoa de idade atravessar logo a via, ou largar no semáforo que se tornou verde, porém ainda há pedestres atravessando a faixa, o que lhe é ainda direito e prioridade. O americano Tom Vanderbilt, em seu livro "Traffic", faz uma análise bastante realista sobre o estranho comportamento das pessoas no trânsito.
Chiara Lubich, uma das grandes pensadoras no mundo contemporâneo, ganhadora do Prêmio Defensora da Paz, na Índia, em 2001, afirma que para se construir uma sociedade mais unida, mais humana, mais fraterna, é necessário que se coloque em prática a "regra de ouro", princípio que, com diferentes formulações, está presente nas grandes religiões, ou seja, "faça aos outros o que gostaria que fosse feito a você".
Não há dúvida que o trânsito brasileiro é ruim, congestionado, com problemas aqui e acolá. Mas, depois de tantos anos de vivência na área acadêmica, em trabalhos com prefeituras e livros escritos sobre o tema, chego a uma conclusão. O trânsito só mudará quando as pessoas também mudarem. Quando as pessoas adquirirem educação, respeito, civilidade, cortesia, virtudes necessárias para se viver em sociedade. O respeito ao próximo é a base para qualquer sociedade desenvolvida, solidária, fraterna. Seria melhor começarmos a mudar a nós mesmos!
O autor, Archimedes A. Raia Jr., é engenheiro, mestre e doutor em Engenharia de Transportes, professor da UFSCar e Diretor de Engenharia da Assenag. E-mail: raiajr@ufscar.br