O velório de Vinícius Henrique da Silva, 18 anos, foi marcado por um misto de tristeza e indignação. Para familiares e amigos do jovem conhecido como Tibiano, ele foi vítima de uma execução da Polícia Militar (PM). A corporação, contudo, reafirma que os policiais agiram em legítima defesa e não atiraram para matar a vítima.
Conforme o JC publicou com exclusividade na edição impressa de ontem e em seu site, Tibiano foi morto por volta das 22h, no Jardim Redentor. Ele descia pela rua Santa Agda e ingressou na São Matheus quando ficou frente a frente com duas viaturas. Ali, foi baleado e morreu.
A morte, porém, levantou duas versões. A família e amigos do jovem afirmam que ele não reagiu e foi assassinado cruelmente. A PM, contudo, reafirma a versão inicial de que Tibiano, que já tem passagens criminais, apontou uma arma aos policiais.
O tiro atingiu o ombro esquerdo do jovem, porém, pelo ângulo que o projétil atingiu o corpo da vítima, acertou outros órgãos. “Ele foi morto sem piedade. Tem gente que viu o que aconteceu. Ele já havia se rendido quando foi morto”, conta uma familiar de Tibiano, de 54 anos, que tem medo de revelar sua identidade.
No velório, realizado no Centro Velatório São Vicente, familiares e amigos demonstravam toda indignação. “Nós queremos justiça. Os verdadeiros bandidos são eles (polícia)”, disse outro jovem, de 21 anos.
A PM, contudo, contesta a história de que o jovem tenha se rendido. “Uma viatura foi atender uma ocorrência de desinteligência. Logo depois, foi comunicado um disparo de arma de fogo”, conta o comandante interino do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), major Marcelo Sanches.
Na versão dos policiais, duas viaturas se depararam com Tibiano descendo de bicicleta. “A primeira viatura deu a ordem de parada. Nisso, o passageiro da viatura de trás desceu. O jovem apontou a arma para ele e continuou. Assim, o policial atirou”, relata Sanches.
O nome do policial que fez o disparo não foi divulgado. Sabe-se apenas que se trata de um sargento. A arma que supostamente estava em posse de Tibiano, um revólver calibre 38, foi encontrada sobre o telhado.
Segundo a PM, ao ser atingido, o jovem teria jogado a arma para cima. É mais um ponto que a família e amigos da vítima questionam. “Como alguém ferido consegue jogar uma arma em cima do telhado?”.
As armas dos dois envolvidos foram apreendidas para investigação. O revólver que supostamente estava com a vítima tinha a numeração raspada e não estava municiado. Foi encontrada junto com Tibiano uma munição já deflagrada, provavelmente do disparo anterior que foi comunicado para a polícia.
Vítima
Apesar de familiares contestarem o que foi divulgado sobre o passado de Tibiano, a polícia confirma que ele já fora apreendido na Fundação Casa e possuía passagens por dois roubos consumados, uma tentativa de assalto e um homicídio no Jardim Redentor em dezembro de 2011. Segundo a PM, ele estava, anteontem, com duas pedras de crack e R$ 140,00 em dinheiro.
“Se ele já teve problemas, não importa. Ele estava trabalhando atualmente. Não estava envolvido com nada errado. E, se ele estivesse também, tinham que prender. Não matar”, argumenta outra familiar.
As investigações são conduzidas pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG), da Polícia Civil. Apesar de a família dizer que há testemunhas presenciais do ocorrido, nenhuma apareceu até o momento. A polícia pede que procurem o disque-denúncia por meio do 181 e afirma que, além do sigilo, as testemunhas podem ingressar em um programa de proteção.
Já o corpo de Vinícius Henrique da Silva, o Tibiano, será enterrado hoje às 10h, no Cemitério do Jardim Redentor.
Tempo de socorro
Outra divergência entre a versão dos policiais e da família de Tibiano é em relação ao tempo entre ele ter sido baleado e sua morte. “Ele ficou um tempão agonizando no chão. Chegou a gritar o nome de um amigo. Tentaram ajudar e a polícia não deixou”, conta, uma testemunha.
A PM, entretanto, afirma que ele morreu assim que foi atingido pelo disparo e que não houve tempo de realizar o socorro.
A morte de Tibiano também é o primeiro caso após a resolução promulgada no último dia 7 pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP). Nela, somente os serviços médicos e paramédicos de emergência, como o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), podem socorrer vítimas graves ou fatais decorrentes de intervenções policiais.
De acordo com o delegado Kleber Granja, o corpo da vítima foi preservado até a chegada da perícia, conforme manda a resolução.
Versão da PM deve ser confirmada
As apurações, que estão sob a responsabilidade da DIG, caminham, até o momento, para a versão dos policiais militares. Apesar de fazer a ressalva da prematuridade das investigações, é o que afirma o titular da unidade especializada, Kleber Granja. “Não há nada até agora que conteste a versão de legítima defesa”.
O delegado explica que, na cena do crime, foram colhidas evidências significativas para as investigações. O trabalho no local durou praticamente toda a madrugada.
Apesar de não haver nada que conteste a versão oficial da PM, o delegado afirma que as apurações estão apenas no início. É por isso que é de grande importância localizar alguma testemunha presencial ao fato.
“Iremos ouvir os familiares da vítima também. O boletim de ocorrência foi registrado como homicídio em decorrência de intervenção policial”, finaliza Kleber Granja.
O inquérito tem prazo de 30 dias para ser concluído, prorrogáveis pelo mesmo período.
Suposta briga
A PM afirma que recebeu duas ligações do Jardim Redentor: uma sobre desinteligência e outra de disparo de arma de fogo. No plantão da Polícia Civil, foi registrado um BO não criminal de um homem que fugiu da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Mary Dota e pode ter ligação com o caso.
Segundo o registro, o paciente, de 26 anos, foi hospitalizado após uma briga em um bar, no Jardim Redentor, justamente com Tibiano. O BO ainda narra que, ao saber da morte do suposto desafeto, o homem fugiu do hospital.
Os amigos de Tibiano contestam a versão. “Ele tentou separar esta briga. Não estava envolvido. Eu estava comigo pouco antes de ser morto”, argumenta um amigo, de 21 anos.
Policiais não serão afastados
De acordo com o major Marcelo Sanches, os policiais envolvidos na ocorrência não serão afastados do serviço. Tanto o oficial que realizou o disparo quanto os outros três que estavam no local passarão apenas por uma avaliação psicológica padrão. “É algo que é realizado sempre que há vítimas”.
Além disso, foi aberto um inquérito policial militar para apurar o caso. A corporação, contudo, é firme e objetiva em destacar que os envolvidos agiram em legítima defesa. “Não há nenhuma dúvida disso. Tanto que o disparo não foi para matar. Foi um disparo na região do braço”, complementa.