09 de julho de 2026
Articulistas

Jovens heróis de Santa Maria

José Fernando da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Depois de imerecidas férias - que nosso João Jabbour mesmo sem desejar nos propiciou - voltamos para lastimar o massacre de Santa Maria, realçar suas conseqüências e instigar compreensões sobre heróis e atos de heroísmo. Mitologicamente, herói é ente diferenciado, quase divino, que expõe, voluntária ou involuntariamente, sua vida em risco para favorecer outros. Heróis e heroísmo existem em tempos de guerra e em tempos de paz, muito embora as façanhas de guerra sejam exaltadas do ponto de vista dos vencedores, sendo rara a identificação e exaltação de heróis entre os vencidos. Hitler, que imaginava vencer, ironizou que ninguém indagaria do vencedor se dizia a verdade.

A derrota japonesa na segunda guerra ? e o império japonês nunca fora derrotado ? escamoteou heróis e foi pretexto para marcar e reprimir aqueles supostos incautos que aceitavam sem contestação a derrota japonesa, como desvendou Fernando Moraes no esplendido livro Corações Sujos, que gerou ótimo filme com o mesmo título que, infelizmente, teve boicotada sua exibição em nossos cinemas.

Quase sempre os heróis são conhecidos, exaltados e cultuados. Acontece, às vezes, que reconhecidos atos de heroísmo geram falsos heróis e deixam em silencioso anonimato os heróis verdadeiros. Com maestria o cineasta John Ford no épico "O homem que matou o facínora" (The man who shot Liberty Valence, USA, 1962) ao narrar a saga da transformação do Território do Wyoming em Estado americano a partir da vitoriosa carreira do jovem advogado Stoddard ? depois senador, embaixador na Inglaterra e candidato a Vice-Presidente - a quem fora atribuída, falsamente, responsabilidade e prestígio pela morte de perigoso facínora, mostra com aguda sensibilidade que atos heróicos podem conviver ? e muito bem ? mesmo com anonimato dos verdadeiros heróis.

Pouco sabemos sobre os jovens vitimados no massacre de Santa Maria, pois ignoramos seus nomes, origens, filiação, atividades. Eram na maioria estudantes porquanto Santa Maria como Bauru é cidade estudantil. Em suma são brasileiros nacionalmente anônimos e aquilo que aconteceu - além de entristecer toda a nação e especialmente seus pais, parentes, amigos, colegas e conhecidos - confere a cada um deles a qualificação de heróis de nosso povo que ao perderem a vida garantiram a vida e segurança de milhares e milhares de outros jovens. O heróico sacrifício deles revelou, salvantes exceções, gravíssimo e crônico quadro de ganância tolerada por desleixo administrativo omissiva e silenciosamente encravado nas nossas casas de espetáculo e ambientes de aglomeração popular, na verdade potentes armadilhas preparadas e nacionalmente espalhadas para gerar tragédias e desastres. O terrível impacto de Santa Maria forçou autocríticas e está exigindo explicações e providências.

Diante do heróico sacrifício de todos aqueles jovens massacrados ? que são e continuarão anônimos a quase todos nós ? devemos acreditar que empresários do ramo estejam se prevenindo com adequadas e perfeitas providências de segurança nos seus ambientes públicos e devemos ter esperança que nossos agentes públicos intensifiquem - para sempre e definitivamente - as fiscalizações de suas responsabilidades. Pelo sacrifício desses jovens heróis se respira nacionalmente ambiente coletivo de preocupação com segurança e prevenção e isso significa expressiva diminuição dos riscos que possam ter aptidão para gerar outras tragédias.

Tudo aponta nesta hora de muita dor que o arriscado tempo dos ambientes inseguros e inadequados edificados e mantidos com perigosas reduções de custos, dos atestados de segurança toleradamente falsos, dos alvarás de funcionamento complacentes, das fiscalizações meramente formais parece ter chegado ? ao que se crê definitivamente - ao fim. E isso exibe a importância nacional do involuntário e indesejado heroísmo subjacente à tragédia que massacrou nossos jovens e anônimos heróis de Santa Maria. A todos eles, com afeto e respeito, somos agradecidos e temos orgulho em alojá-los no pavilhão dos heróis de nossa pátria. Enquanto estiverem por lá eles serão lembrados e nos protegerão dos espertalhões, dos gananciosos e dos negligentes que desprezam o valor de cada vida humana. Amém.

José Fernando da Silva Lopes, advogado