Rubem Braga (1913-1990) é relembrado na passagem do centenário do seu nascimento. Há quem o qualifique num estágio superior a Machado de Assis. Ao autor de Dom Casmurro sobrava ironia e faltava solidariedade para com o sofrimento. Jamais demonstrava alegria com a felicidade dos outros. Foram justamente esses dois sentimentos que marcaram Rubem Braga. Seus textos na extinta revista Manchete fluíam límpidos como as águas de um riacho que corre sobre seixos rolados. O "sabiá da crônica", como era chamado, felizmente deixou vários livros pela editora que fundou junto com outros poetas da prosa do cotidiano, como Paulo Mendes de Campos, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino e Otto Lara Rezende. Num dessas crônicas ele lamenta ter que escrever, muitas vezes, sobre o nada. Insistir nas palavras mesmo quando seus significados distorçam o real e as ideias nada representam. Porque viver é estar além das palavras, é estar além de nós mesmos.
A lição do mestre cabe diante do que assistimos há dias pela mídia, com o seu horroroso espetáculo dos apresentadores de televisão explorando a biografia das vítimas; ou de especialistas explicando como os alvéolos são destroçados pela inalação de fumaça. Um dos sobreviventes descrevia "o monte de corpos empilhados uns em cima dos outros, como os judeus no Holocausto". Ainda que o cenário justifique a analogia, a outra semelhança é a gratuidade com que essas vítimas foram incineradas. Outro repórter contou 180 inúteis chamadas endereçadas ao celular caído ao lado do corpo estendido na rua. Autoridade entrevistada, no glossário gaúcho atribuía a tragédia "ao amontoado de cacaborradas e chocarrices": lotação excessiva, pirotecnia em recinto fechado, teto de material inflamável, saídas de emergência inadequadas, seguranças exigindo o dinheiro da comanda. "Como o prefeito admitia a boate Kiss funcionar com o alvará vencido?" ? indagava um indignado. Mal sabe ele que este é o país dos sem-alvarás. O Senado da República acaba de eleger Renan Calheiros para presidi-lo, mesmo acusado de três crimes: peculato (usar cargo público para obter vantagem), falsidade ideológica e uso de documento falso. O alvará dele está cassado há dois anos, desde quando pagou a pensão da amante com dinheiro de propina. Nem a Prefeitura de Santa Maria tem alvará. Repartições públicas de Bauru, como o prédio dos Correios e do INSS seriam reprovados em inspeção dos bombeiros. No geral reagimos com ironia àqueles que nos pedem cuidados preventivos, ações e controles determinados. Afinal, métodos e previsibilidade são monótonos, repetitivos, cansativos. Tudo custa dinheiro. Mas quanto vale uma vida? Há os que preferem não perder a piada, mesmo horrorizando os amigos do Face, com seu humor negro: "a tragédia de Santa Maria foi castigo divino a quem gosta de música sertaneja". Na rede social outro sádico perguntava: "Tirando essas coisas ruins, que tu achastes do show da Gurizada Fandangueira?"
Palavras são palavras. Podemos justificar o desastre via Teoria do Caos, coisa que ganhou ares de estudo científico sério a partir de 1960. Edgard Lorenz comprovou com formulações matemáticas que o bater de asas de uma borboleta no Brasil, com vibrações sendo transmitidas e ampliadas em progressão, tempos depois pode causar um tornado no Texas. Cacaborradas em série ? falta de alvará, lotação excessiva etc. ? desencadeiam tragédias. Quanto mais energia acumulada, maior o desastre. Aviões cada vez maiores levam à sinistralidades dantescas. A prevenção também se aperfeiçoa na aviação. Uma aeronave para 400 passageiros tem oito saídas de emergência, com tobogãs para permitir o esvaziamento da cabina em 90 segundos. A boate Kiss, com uma porta só, concentrava 1.500 pessoas.
Volto ao saudoso Rubem Braga que, acometido de câncer em 1990, foi lhe recomendado tratamento nos Estados Unidos. Ele não pode ir porque sua poupança havia sido bloqueada no período Collor, que é outro sem-alvará por aí, expondo o povo a perigo. Os amigos de Rubem procuraram o governo. A resposta: "se todos os que têm câncer puderem sacar a poupança, o Plano Collor está fadado ao fracasso". Quando percebeu que não tinha outro jeito, o cronista tratou de se preparar para o pior. Com o dinheiro do salário foi a São Paulo, onde funcionava o único crematório do Brasil, indagou o preço, preencheu o cheque. E quando lhe perguntaram onde estava o corpo, apontou o próprio peito. Que descontassem o cheque logo e aguardassem notícias.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC