09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Que falta fez um chato


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Quem nunca ouviu falar de um personagem execrado pela maioria e elogiado pela minoria, chamado de... chato. Sim, chato é o sujeito, no Brasil, que leva ou tenta levar seu trabalho a bom termo, pautando pela retidão e, principalmente, pela honestidade. Chato é aquele policial rodoviário que "multa mesmo" o motorista que não usa cinto de segurança; esquecendo-se o multado que a lição pode servir como prevenção de um acidente grave no futuro. Chato é o fiscal municipal que não assina alvará por falta de instalações sanitárias adequadas num estabelecimento público. Chato é o médico que não aprova a renovação da carteira de habilitação do pretenso motorista, não mais possuidor daquela visão do verdor dos vinte e poucos anos. Enfim, só para encurtar caminho, chato é aquele não concede alvará a casa noturna em decorrência da inobservância dos preceitos de segurança.

Temos de admitir: somos excessivamente permissivos. Por aqui é assim: quase todo mundo adora o "bacana", o "gente fina", que faz vistas grossas ao que deveria censurar, proibir e vetar. O que faz o que deve fazer é um chato. Chato. Tem vários sinônimos esse verbete: mala, xarope, porreta, casca-de-ferida, sogra, dor-de-dente, dose cavalar, carne-de-pescoço, etc. Agora, e só agora, depois de mais de duzentos e trinta mortos, querem investigar todas as casas noturnas e boates. Querem rever os alvarás concedidos, etc. Há poucos anos um shopping explodiu por causa de vazamento de gás. Todo mundo sentia cheiro de gás no local, menos os fiscais, que não eram chatos, com toda a certeza. No Brasil, proibições que deviam ser óbvias mais que óbvias, óbvias ululantes, dividem opiniões. E geram dilemas, debates, polêmicas, celeumas, como no caso da proibição de celulares nas salas de aula. O diretor de escola particular que se mostra arredio a cumprir essa lei se mostra também mais preocupado com a clientela do que com a qualidade do ensino.

Não se espantem se também dividir opiniões a possibilidade de um noia sem habilitação ter permissão para se tornar motorista de uma Van Escolar com quatorze crianças. Ou, quem sabe, talvez, quiçá, alhures, que divida opiniões também a possibilidade de portadores de HIV se tornarem doadores de sangue habituais.

Sidnei Rodrigues