09 de julho de 2026
Bairros

Frentista infarta e morre após assalto

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

O susto e o medo enfrentados durante um assalto na madrugada de ontem foram fatais para um frentista de Bauru. Luiz Carlos Leandro, 58 anos, era hipertenso e não resistiu a um infarto, possivelmente resultante do estresse provocado no momento em que foi abordado por um dos dois bandidos que estavam no local.

A vítima chegou a ser levada pela viatura da Polícia Militar (PM), junto a um colega de trabalho, para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Mary Dota, mas acabou morrendo a caminho do posto de saúde.

Durante a ação, o proprietário da loja de conveniência do posto de combustíveis chegou a perseguir os bandidos, mas teve seu veículo alvejado.

Os acusados fugiram em uma bicicleta e, cerca de uma hora depois, foram presos em uma casa no bairro Beija-Flor (leia mais abaixo). Além do frentista, que morreu após ser acometido pelo infarto, ninguém se feriu.


A ação

Conforme o JC apurou, o roubo aconteceu por volta das 5h40 de ontem, 20 minutos antes do final do fim do expediente de Luiz Carlos Leandro, que trabalhava há 14 anos como frentista do posto de combustíveis localizado na quadra 15 da rua Marcos de Paula Rafael, no Mary Dota, e seria o único funcionário no local no momento do assalto.

O frentista teria voltado das férias na última sexta-feira e, segundo familiares, contava nos dedos os dias para entrar com seu pedido de aposentadoria.

As imagens da câmera de segurança do estabelecimento mostram o momento em que um dos bandidos se aproxima da vítima - que abastecia o carro de um cliente -, aponta a arma e foge levando o dinheiro do bolso do frentista referente ao turno da madrugada. O outro rapaz aguardava o comparsa a alguns metros do local. Eles fugiram levando R$ 70,00.

Segundos depois, o frentista aparece tomado pelo pânico, correndo em direção ao escritório do posto para acionar a PM. Enquanto isso, o proprietário de uma loja de conveniência do posto, que chegava ao local e foi alertado pelo amigo sobre o roubo, iniciou uma perseguição aos assaltantes, mas acabou desistindo após ter a carroceria de seu caminhão alvejada por um disparo.

Minutos após a ação, quando mais funcionários chegavam para iniciar o turno da manhã, Luiz precisou ser acalmado pelos colegas. “Ele contou o que aconteceu, disse que estava passando mal de nervoso e pediu para atendermos os clientes que chegavam. Ele sentou, tomou água e, logo depois, já entramos na viatura da polícia para ir à UPA. No meio do caminho, ele suspirou fundo e fechou os olhos”, relata o frentista Maurício Ferreira, 31 anos, ainda abalado com a morte do colega. “Ele tinha medo de assaltos, era um homem muito honesto, amigo e trabalhador. Não merecia morrer dessa forma”, completa.


Prisão

Diante das imagens capturadas pelas câmeras de segurança interna do posto de combustível, a Polícia Militar reconheceu um dos assaltantes e iniciou buscas pelas imediações do bairro.

Os suspeitos foram localizados na quadra 2 da rua Flávio Xavier Arantes, no Núcleo Beija-Flor. Rafael Moreira de Souza, 24 anos (que realizou o disparo no caminhão), e Diego Gabriel Guedes Costa, 28 anos, confessaram o crime aos policiais e foram presos em flagrante. No interior da casa onde eles estavam a PM localizou o revólver calibre 32 utilizado no assalto, escondido em um sofá. Na arma havia três cápsulas, entre elas uma deflagrada. Com eles, também foram localizados R$ 34,00.

“Eles nos disseram que utilizaram o dinheiro para a compra de drogas. Além disso, também havia uma mulher na casa, que ajudou a esconder o revólver no sofá”, afirma o soldado da PM, Evandro Sales, sobre L.M.C., 36 anos, arrolada como testemunha na ocorrência.

O caso foi registrado pelo delegado plantonista como roubo qualificado, por conta da morte ter acontecido posteriormente ao assalto. Os acusados foram presos e encaminhados ainda ontem ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru.

Ambos possuem passagens pela polícia. Rafael é apontado pela PM como responsável por diversos roubos praticados no Mary Dota, como os assaltos a uma lotérica e a uma unidade dos Correios. Já Diego possuiria passagens por porte de drogas e roubo.

Vítima havia sido assaltada antes

De acordo com amigos e familiares de Luiz Carlos Leandro, este foi o segundo assalto que ele sofreu em dois meses. “Ele vivia reclamando da falta de segurança que sentia. Às vezes chegava até a passar a noite dentro do carro de uma senhora que deixava o veículo lá para ele olhar, com medo de ser assaltado”, relata o primo da vítima, José Rodrigues, 61 anos.

Abalada com a morte do marido, Wilma Leandro, 62 anos, conta que ele já havia sido internado no último domingo relatando dores nas pernas. “Eu disse que ligaria no trabalho para pedir a dispensa dele na segunda-feira, mas ele não quis. Disse que já estava bem, então se despediu e foi embora”, lembra a esposa.

Luiz Carlos Leandro sofria de pressão alta e tomava remédios para controlar a doença. É descrito por familiares como uma pessoa tranquila e caseira. Ele morava com a esposa em uma casa no Jardim Mendonça, região do Mary Dota, há mais de 30 anos e trabalhava no mesmo posto há 14 anos.

“Ele queria muito se aposentar. Trabalhava de frentista desde os 14 anos de idade. Nunca vi ele faltar uma vez sequer ao trabalho. Era um paizão e uma pessoa muito boa. Mas reclamava que tinha medo de trabalhar sozinho”, comenta a filha Kátia da Silva Leandro, 35 anos.

Um dos últimos momentos felizes do frentista aconteceu há alguns dias, quando presenciou o casamento de sua filha caçula.

Luiz deixa a esposa, Wilma, e as filhas Kátia e Francine Leandro de Andrade, 24 anos, além de três netos. O corpo foi velado ontem no Centro Velatório Terra Branca, no Núcleo Habitacional Mary Dota. O enterro será realizado hoje pela manhã, no cemitério Jardim dos Lírios.


‘Só pensei em reagir’, diz testemunha

Apesar de ser clara a orientação da polícia sobre não reagir a assaltos, o proprietário da loja de conveniência do posto de combustível em questão, Eduardo Junior, 67 anos, conta que apenas uma coisa passou por sua cabeça quando observou o nervosismo do amigo frentista: ajudar na prisão dos assaltantes.

“Minha única intenção era jogar o caminhão para que eles caíssem da bicicleta e a polícia pudesse prendê-los. Estou cansado de tanta violência. Já sofremos vários assaltos. É lamentável perder um amigo meu há 13 anos, ainda mais dessa forma”, lamenta.

Sobre o ocorrido, o gerente do posto de combustível, Valmir Ferreira de Lima, 50 anos, afirma que ofertou a Luiz o turno de trabalho da tarde, mas recebeu negativa. “Ele gostava de trabalhar à noite, estava acostumado. O movimento diminui muito à noite, por isso só tinha ele trabalhando”, afirma.

Quanto à falta de seguranças na unidade e a quantidade de assaltos registradas na unidade, que funciona 24 horas, o gerente preferiu não comentar o assunto.