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João Rosan |
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Hotel recebe, há um ano, moradores de rua e famílias despejadas que são encaminhados pela prefeitura |
Ao longe, o som de uma caixinha de música deu o tom ainda mais tenebroso ao Hotel Milanez durante visita realizada ontem por agentes da Defesa Civil e Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan). Tombado pelo patrimônio histórico, o prédio localizado na quadra 2 da avenida Rodrigues Alves foi incluído antecipadamente na lista de estabelecimentos a serem fiscalizados pela força-tarefa desencadeada pela prefeitura após denúncias sobre seu péssimo estado de conservação.
O que as equipes de trabalho e a reportagem do JC - que acompanhou mais um dia de operação – não sabiam é que o local insalubre recebe algumas famílias desabrigadas enviadas pela Secretaria Municipal do Bem Estar Social (Sebes). Mesmo sem contar com registro no Sistema Integrado de Licenciamento (SIL) e sem possuir Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), o prédio não foi interditado.
Por não apresentarem o mesmo documento, 18 casas noturnas de Bauru foram lacradas desde a última sexta-feira (leia mais abaixo). Mas, devido à função social do hotel e também porque o Corpo de Bombeiros não pôde acompanhar a fiscalização, decidiu-se agendar para hoje uma nova vistoria.
A possibilidade de lacração, de acordo com a Secretaria Municipal de Planejamento, é bastante grande. “Vamos pedir para que os bombeiros avaliem, porque o risco de incêndio, aqui, não é pequeno”, comenta o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito.
Ele se referia às instalações elétricas improvisadas ao longo de todos os corredores do primeiro andar do prédio, onde quartos são alugados para quem possa pagar entre R$ 250,00 e R$ 300,00 por mês e também para a Sebes.
A titular da pasta, Darlene Tendolo, não confirmou se tinha conhecimento das condições atuais do hotel, mas destacou que, se houver recomendação da Defesa Civil e dos Bombeiros, a retirada das famílias poderá ser feita de maneira imediata. “É possível remanejá-las no mesmo dia para outros locais com quem a Sebes mantém parceria”, frisa.
Parceria
A parceria, segundo ela, foi estabelecida há cerca de um ano para receber desde moradores de rua até famílias despejadas que procuram auxílio na secretaria. “É um hotel que aceita com facilidade pessoas em situação de vulnerabilidade, inclusive famílias com crianças. (Quem administra o local) é um pessoal muito bacana”, ressalta Darlene.
Mas, por mais que haja boa vontade, o risco a que os moradores – principalmente crianças - estão expostos é evidente. Apesar da fiação elétrica exposta pelos corredores, falta iluminação no local, por onde se espalham restos de construção, roupas e móveis inutilizados.
Em um dos banheiros, a descarga quebrada era revelada pelos restos de fezes dentro do vaso sanitário. Em alguns quartos, o forro antigo cedeu, dando espaço a buracos, por onde era possível ver o telhado do edifício. Um dos moradores chamava a atenção da reportagem: “Vocês fotografaram aqui? O ‘bagulho’ está sério. O ‘bagulho’ está caindo”.
Darlene afirmou que, por motivo de sigilo, não poderia revelar quantas famílias que passaram pela Sebes moram atualmente no Hotel Milanez, mas disse apenas que, ontem, duas delas foram encaminhadas ao prédio.
Prefeito lamenta
Em contato com a reportagem, o prefeito Rodrigo Agostinho disse ser “lamentável” o fato de famílias desabrigadas estarem sendo encaminhadas para um lugar precário como o Hotel Milanez. Ele explicou que o contrato foi firmado por meio de licitação e que o estabelecimento foi escolhido porque ofereceu o menor preço.
Os recursos para socorrer emergencialmente famílias desabrigadas são oriundos do governo do Estado e gerenciados pela Secretaria Municipal do Bem Estar Social (Sebes).
Prédio foi cedido para restauração
Administrador do Hotel Milanez, Hércules Moreno conta que o edifício foi cedido para exploração comercial há 13 anos pelos herdeiros da família Milanez. Em contrapartida, ele teria de providenciar a restauração do prédio.
A reforma, ele frisa, começou há cerca de um ano. Além de improvisar a instalação elétrica para iluminar os corredores, trocou parte do piso dos corredores. Mas vidros quebrados, paredes pichadas ou com a pintura descascada, infiltrações, buracos no teto e o chão de concreto nos quartos continuam como estavam.
Ontem, nenhum operário trabalhava no local. “Estamos fazendo a reforma e arrumamos os quartos de acordo com a necessidade de cada morador. Chamo uma auxiliar de limpeza a cada cinco dias. Temos condições de receber o pessoal aqui, sem problemas”, garante Moreno.