Há anos a cena se repete em quase todas as manhãs. Ele fica na calçada oposta observando o movimento do café do outro lado da rua, principalmente da mesa que recebe os mesmos freqüentadores desde a inauguração do estabelecimento. Quando percebe que a maioria daqueles habituais companheiros de mesa já tomou assento, ele atravessa a rua aproxima-se sem dizer bom dia e sem olhar especificamente para qualquer deles e com certo ar de espanto e cerimônia faz referência a assunto que foi manchete do dia numa de nossas rádios e que lhe despertou preocupação. Depois de algum comentário aleatoriamente enfrentado diante da notícia-tema que o impressionou, ele recebe convite para um café, dá a conversa por encerrada e, solitário, vai tomar seu café no balcão. Pouco depois deixa o local sem olhar para o pessoal da mesa, sem agradecer a gentileza pelo cafezinho e sem despedida.
Dia desses - e aqui se mistura em licença carnavalesca o real com imaginário - a cena ritualística repetiu-se. Na hora certa ele atravessou a rua e, como sempre, tascou o tema do dia: - O programa do Netão falou que a saúde vai distribuir cinco mil camisinhas no carnaval. O diálogo seqüencial saiu - estamos no carnaval reino do imaginário - mais ou menos assim: - Puxa e você vai buscar? - Não, carnaval traz recordações que entristecem. - Mas como? Carnaval é alegria, descontração e tristeza nesses dias não tem sentido. - Tem sim! Onde foram parar os carnavalescos que lotavam os clubes? O que aconteceu com a turma do BTC, da Luso, do BAC, dos Bancários? Onde foi parar a patota da Panela de Pressão? Eram milhares e não sei para onde foram, que rumo tomaram na vida. Esse sumiço machuca e a saudade daqueles tempos não pode trazer alegria. - Mas, também não é motivo para tristeza. A Hípica do nosso Clovis Simão, que sempre saboreia seu cafezinho na mesa aqui ao lado, mantém com muito sucesso a tradição daqueles tempos.
- Não é a mesma coisa! Carnaval tem que ser no carnaval. Prévia é prévia e carnaval é carnaval. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. E distribuir camisinha de graça não é carnaval! - Pois é, mas os tempos mudaram. - Mudaram para pior e isso é tristeza e não alegria. - Você está amargo. Camisinha tornou-se questão de saúde pública. E afinal vamos ter desfiles no Sambódromo e pelas notícias teremos festa de arromba com escola de samba e blocos, tudo muito bem preparado. E consta que nesse ano com sistema de som perfeito.
- Isso é bonito. Mas é imitação modesta dos ricos desfiles cariocas preparado para turísticas e patrocinados pelos bicheiros. Aqui o pessoal vai na raça, na base do amor e da boa vontade. No fundo, nosso desfile por melhor que seja tem um lado triste porque é fruto de muito sacrifício e da dedicação de uns poucos. - Hum... - E tem mais. Para Bauru prefiro o corso da Batista como antigamente, com serpentina, confete e lança perfume, com pierrôs, colombinas e arlequins entoando marchinhas. Viram a impecável fantasia do Raduan no Bauru Ilustrado de sábado passado? Alguém hoje sabe o que é corso, pierrô, colombina? Alguém se recorda de alguma marchinha? A desinformação é total e alienante! O passado que era bom morreu, acabou-se e ponto final. Morte é tristeza. - Melhor você tomar seu café. Ele entrou e momento depois saiu. Como sempre sem agradecer e sem despedir-se, silenciosamente com feição de tristeza incompatível com o carnaval e exigente, até, de uma boa máscara carnavalesca. A do Ministro Joaquim Barbosa tem feito muito sucesso.
O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado