O filme "Lincoln", em cartaz nos cinemas de Bauru, nos dá uma aula de pragmatismo político. Max Weber chamou de "ética da convicção" aquela relativa aos princípios morais aceitos pela sociedade e de "ética da responsabilidade" aquela que leva em consideração as decisões que o político adota. Em muitas ocasiões, o governante é obrigado a tomar decisões que envolvem meios não muito nobres para alcançar objetivos políticos. Muitas vezes o Executivo não tem outra alternativa senão fazer compromissos para alcançar maiorias no Parlamento. Mas o que Max Weber queria é que prevalecesse sempre o espírito republicano, em quaisquer circunstâncias, e não o interesse do político, que usa quaisquer meios para atingir objetivos pessoais. Nesse caso configura-se o político moralmente oportunista, que não tem outro critério senão o seu próprio interesse. Seu único compromisso é com a permanência e continuidade no poder. Há imoralidade quanto aos meios; quanto aos fins e quanto aos meios e fins.
Quem for assistir ao filme de Spielberg vai perceber que o mais famoso presidente dos Estados Unidos distribuiu cargos públicos para conquistar os votos da oposição. Ele precisava cooptar vinte oposicionistas para assegurar maioria à aprovação do projeto de emenda à constituição que aboliu a escravidão. Além de acabar com a "mancha negra escravocrata" a Emenda 13 permitiu o fim da guerra "pestilenta" da Secessão que já havia matado 750 mil soldados e civis. Graças ao lobby Lincoln reunificou o país dividido pela guerra, com o desaparecimento do objeto da briga: a servidão negra. Isto antes de Max Weber e depois de Maquiavel, que também pregou o princípio dos meios justificando os fins, mas "in bonam partem". O Lincoln, de Spielberg, não é um herói, mas um Obama direto ao ponto, desengonçado, contador de histórias. Nada tem de biográfico sobre o menino pobre, filho de lenhadores do Kentucky, advogado de gente pobre ou faz insinuações sobre a sua homossexualidade. O filme foca os últimos quatro meses da vida de Lincoln, de setembro de 1983 a janeiro de 1864. Quem espera do filme muita ação como "E.T.", "Tubarão" e "Resgate do Soldado Ryan" é melhor ficar em casa. As batalhas são escuras, cinzentas e lamacentas. Trata-se de um thriller essencialmente político, cheio de diálogos. Apenas nos dá uma visão cínica da política. Mostra que esse é o preço da democracia, um regime imperfeito, mas assim mesmo melhor do que os outros, ainda que irritantemente mundano. É o instrumento que nos resta para construir uma sociedade mais justa. O roteirista Tony Kushner baseou-se em 500 livros na sua tentativa de minimizar a falta generalizada de fé nos governos. Seu desejo manifesto é o de contar uma história cheia de sentimentos, mostrar o exercício do possível para se conseguir milagres, coisas bonitas, mediante o sistema democrático. O ator Daniel Day-Lewis é sério candidato ao Oscar. Conseguiu humanizar a figura histórica do "pai da Pátria", dando-lhe uma aparência desgrenhada. Criou um Lincoln tanto na fala como na expressão corporal. Pesado, sotaque caipira, fala fina e esganiçada, mas um negociador durão e disposto a jogar em ambas as extremidades no interesse do bem comum. O mesmo não se pode dizer da performance de Sally Fields, que faz o papel de Mary Todd, a esposa do presidente. Ela se esborracha no chão às lágrimas, implorando ao marido para evitar que o filho deles fosse à guerra. Exigia ser chamada de "Madam President" e reclamava de ser investigada pelos gastos excessivos na Casa Branca. O diretor comete uma gafe histórica: mostra a mulher do presidente acompanhando os debates parlamentares da galeria, fazendo anotações, acompanhada da criada negra. Isto nunca existiu e nem seria possível por razões óbvias.
Os debates arrastados no Congresso guardam coisas sutis, bem calibradas pelo roteirista Kushner: abolição dos escravos com os mesmos valores de quem defende o casamento gay. "Não queira fazer iguais o que é naturalmente diferente", diz um deputado da oposição. O deputado Thaddeus Stevens, que dorme com sua criada negra, sofisma que a abolição não tornaria brancos e negros iguais, eles apenas não teriam distinção perante a lei. Lincoln é um filme chato. Tem conversa em demasia. Deixa um belo exemplo de conduta política, para o Brasil de hoje.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC