08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

'Non dvcor dvco'


| Tempo de leitura: 4 min

Mês de janeiro. Calor forte da estação e chuvas ao final da tarde eram motivo para ele sair de casa sobraçando descorado guarda-chuva. Visitava jardins e vitrines das lojas da rua principal da cidade. Distraia-se com o movimento ligeiro dos pedestres e velocidade dos veículos. Ao que parece, só ele não tinha nenhuma pressa em voltar ao lar. Aqui era seu asilo e à sua espera uma biblioteca com renomados autores. Como consulente, parecia ouvir as vozes desses mestres sempre prestativos. Nessa noite compulsou um livro que relatava a história da cidade de São Paulo, desde sua fundação, em 1554. Após longa leitura, recolheu-se ao leito. Um sono calmo tomou conta de seu corpo em recuperação de energias e sua alma alçou vôo para o ano de 1916 e em sonho ele estava em um salão de festas, feéricamente iluminado. Via-se o presidente da província e o prefeito, entre outras altas autoridades civis e militares, senhoras da sociedade paulistana exibiam modelos e jóias importadas em típica festa literária. Não era para menos. Nessa noite seria conhecido o Brasão da cidade de São Paulo, trabalho que em concurso público teve como vencedor o poeta Guilherme de Almeida (1890-1969) e seu parceiro o desenhista José Wasth Rodrigues (1891-1957).

Sob calorosos aplausos, foi retirada a cortina e exibida com ufanismo a peça vencedora. Um dos literatos presentes comentou que no Brasão era visto o escudo português com um braço armado, logo acima a coroa com quatro torres suportadas por dois ramos de café frutificados em vermelho e como divisa, simbolizando o sentimento paulista, escrito em uma faixa de prata a locução latina "Non Dvcor Dvco". As autoridades brindaram com champagne o acontecimento e assim a cidade de São Paulo ganhava seu estandarte. Na condição de penetra, ele assistia essa festa e vez por outra um dos garçons passava por ele enchendo seu copo com uma bebida que parecia ser sidra. Vagamente aquele palco iluminado, dourado e charmoso foi desaparecendo do subconsciente e ele acordou. O relógio marcava duas horas da madrugada, olhou para a folhinha e o mês de janeiro assinalava o dia vinte e três, virou-se na cama e adormeceu novamente. Pela manhã voltou à biblioteca para encontrar eventuais ligações do inusitado sonho com o seu cotidiano. Sim !... havia elo de ligação!

Na garagem da sua casa um carro tipo Caravan, modelo 1997, cor bege, última série e único dono era ferramenta de trabalho e eventuais passeios. Sua esposa, apreciadora de paisagens urbanas e rurais invariavelmente o acompanhava nos passeios. Estudiosa das leis de trânsito, vez por outra chamava sua atenção: -"cuidado querido, buracos na pista..." ? "olha, vai mudar o farol", "ali existe faixa para pedestres..." ? "reduza a velocidade, depois da curva sempre tem radar e posto do guarda...? "Argh !..." e assim ele ia pilotando motivado pelos cuidados e pela paciência de Jó, da qual era herdeiro. Toda vez que engendrava uma viagem lembrava-se da ladainda... era de paz e aceitava resignado os palpites laterais que ouvia sempre. Em nome do amor que os unia e amor pelo carro fizeram um pacto de ajustamento preliminar para viagens futuras...Agora, acomodado na cadeira de espaldar alto ele procurou a melhor maneira de não desagradar e não ofender a esposa mas ao mesmo tempo continuar senhor da situação e do volante. Eureka...! Lembrou-se ter visto em sonho o Brasão da cidade de São Paulo e dos dizeres contidos na faixa prateada: "Non Dvcor Dvco" ? estava resolvido o problema para com ela. Procurou em um livro o tal Brasão, e a título de modelo levou para seu amigo tipógrafo fazer um cartão em papel cuchê e fazer com a máxima urgência.

Urgência fazia sentido! O dia 25 de janeiro estava chegando e ele queria fazer uma surpresa para a esposa. Nesse dia, sempre considerado feriado, ele iria convidá-la para um longo passeio. Enquanto o homem trabalhava, o distintivo ele mesmo lavou o carro, pintou os pneus, passou flanela nos vidros. Recebida a encomenda, apressou-se em colocar no painel do carro o Brasão de São Paulo. Sua consciência não o acusava de nenhuma culpa ou ofensas e ela, por certo, teria momentos para abraços e sorrisos. O dia 25 amanheceu ensolarado. Gentilmente aproximou-se da esposa fazendo-lhe o convite: - Querida, que tal um passeio pela cidade, hoje é feriado... que tal? Ela, sorridente, como sempre, aceitou o convite.

Engalanados com as roupas próprias aos domingos e feriados, foram à garagem e ele, como sempre, abriu as portas do carro para que ela ocupasse o seu lugar de honra. Assim que assomou o volante olhou para ela, ela olhou para ele, deram boas risadas e com espanto ela perguntou: - que história é essa...? ? "Non Dvcor Dvco"...? E ele, valendo-se dos recursos aprendidos no ginásio, respondeu: ? querida, isso aí quer dizer ?Não sou conduzido, conduzo...? Gostou? Em meio aos sorrisos, pisou na embreagem, engatou a primeira, a segunda, a terceira marcha do maravilhoso carro em direção à rodovia mais próxima...

Roque Roberto Pires de Carvalho