Nos dicionários, hipocrisia é fingir uma crença, valores, ideias e pensamentos que não se possui. O hipócrita é um ator mascarado que representa comportamentos morais socialmente aceitos, mas que não os têm, normalmente para taxar alguém de imoral, isto é, alguém que oculta sua própria realidade atrás de uma mascara de aparências enganosas. Um uso ridículo da hipocrisia é quando alguém acredita, honestamente, que pode impor a outras pessoas um conjunto de regras morais diferentes das que ele mesmo deve seguir. Divulguei carta nesta Tribuna onde refleti sobre o quanto as verbas publicas destinadas ao carnaval seriam muito mais úteis se encaminhadas para o cuidado das crianças e adolescentes, com creches, primeiro emprego, fortalecimento de vínculos sócio - familiares, combate ao trabalho infantil e prevenção e recuperação de drogados.
Não fiz nenhum comentário contra pessoas, não ataquei nenhuma instituição ou leis, e nem procurei denegrir a imagem de quem quer que fosse, e conclui afirmando que, diante de tantas outras necessidades básicas, gastar dinheiro com carnaval é dar pão e circo para o povo. Como esperava, a exposição de minhas ideias foi comentada e criticada, e ainda que meu crítico tenha me intitulado de ignorante e alienado, confesso que fiz um esforço sincero para aceitar seus argumentos contrários, mas nesse exercício de reflexão encontrei aspectos que não só me impedem de mudar de opinião como reforçam ainda mais minha visão. O autor da critica, carnavalesco, admite que precisamos de mais verbas para creches, escolas e para cuidar de dependentes químicos, mas deu a entender que os filhos dos carnavalescos, ao menos os da sua equipe de carnaval, composta segundo ele de pessoas cultas, estão imunes às mazelas que afligem a sociedade.
Mas analisando dados relativos aos últimos carnavais, divulgados neste mesmo jornal, descobri que ele próprio já publicou carta lamentando o terrível estado de decadência da quadra de sua escola de samba, que de local onde imperava os craques do samba, da alegria, cultura e arte, se tornou local onde impera uma legião de infelizes e dependentes, zumbis do crack.
Depois, lendo outros artigos descobri que, de fato, a quadra daquela escola de samba se tornou uma cracolândia, onde os zumbis noturnos se reúnem para usar drogas e de onde saem para perambularem como mendigos, isto é, a quadra se tornou uma zumbilândia. Li que muitas ações policiais são feitas ali, quando inúmeros jovens são detidos, por isso os delegados defendem que o espaço deveria ser ocupado constantemente com atividades de lazer, cultura e arte aos jovens; li também que após qualificar os usuários de drogas detidos, a polícia os encaminha à Sebes para inclusão em programas de tratamento e projetos sociais, justamente para os programas que entendo que as verbas do carnaval seriam melhor usadas. E o problema se tornou tão grave que a prefeitura notificou a escola de samba a desocupar o imóvel por descumprimento de finalidade.
Como se vê, as críticas de meu opositor não se justificam, nem mesmo diante das próprias participações daquela escola nos últimos carnavais, definidas como vergonhosas por um de seus mais cultos participantes, e, de fato, publicamente vergonhosas conforme extensas matérias deste jornal. E também não me venham dizer que os zumbis infelizes e dependentes daquela cracolândia nada têm a ver com a escola de samba, pois a relação entre elas é uma constatação pública e notável da qual não se pode fugir, até porque o crack é um problema de saúde publica e não só das famílias envolvidas.
Quem garante que as mazelas da sociedade não podem adentrar nossas casas e roubar nossos filhos, até mesmo a mocidade independente de carnavalescos cultos e não alienados? Isto me leva a pensar que algumas escolas de samba não estão fazendo um bom trabalho social e cultural junto às sociedades onde imperam, e que o passe de alguns craques carnavalescos estão muito desvalorizados.
Silvio Gomes