08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Carnaval é cultura


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O carnaval não é criação brasileira, a distorção do seu significado original sim. Há muito tempo que deixou de ser uma festa popular; o povo vestia fantasia e se divertia, hoje é sinônimo de sexo promíscuo, virou comércio muito lucrativo onde 99% são apenas figurantes pagando caro. Passa fome o ano inteiro, mas compra as fantasias para dar volume às escolas enquanto segue a guerra das musas e rainhas que compram títulos e se expõem ao máximo possível para garantir "trabalhos" depois do carnaval mostrando o único talento que têm, corpos cada vez mais bombados. Onde a malhação e os suplementos não supriram, entra o silicone para aumentar o que já era grande, gente jovem se enchendo de botox. Vamos ver o que vai sobrar delas depois dos 40, 50 anos.

Artistas milionárias também apelam para ser notícia. Daniela Mercury levou homem nu no seu Trio, ano passado. No país das celebridades, época de carnaval é a guerra de quem vai aparecer mais, não importa como. Quando veem a possibilidade de sair na mídia, vale tudo, irmãs que se beijam na boca numa explosão de sensualidade, a talentosíssima Luma de Oliveira que só aparece no carnaval fazendo qualquer coisa para aparecer e as mulheres- frutas, uma mais podre que a outra, os camarotes vips cheios de gente famosa, verdadeiros outdoors ambulantes também em busca de uma chance para estar nas manchetes. Os estrangeiros que também fazem parte levam essa imagem do povo brasileiro.

As fantasias para o corpo já desapareceram, agora só passam uma tinta e muito gliter e estão prontas, a única preocupação é com as armações de penas e plumas que levam nas cabeças ocas. Quantas aves foram abatidas? O ser que se diz "imagem e semelhança de Deus" sacrifica os que são belos pela própria natureza para enfeitar a feiura de suas atitudes e seus vazios de bom senso e criatividade. O que tem de cultura no carnaval é a pesquisa dos que escolhem e escrevem sobre enredos a serem abordados que, sem os comentários da Leci Brandão, de posse da sinopse que recebe das escolas, quem assiste nunca iria descobrir o que quiseram dizer.

As cervejarias avisam que não faltará cerveja e com isso até uma campanha contra os "mijões" teve que ser feita, contribuindo assim com a cultura, essa de bactérias. O governo gasta milhões em camisinhas e até pílula do seguinte para amenizar os problemas pós-carnaval. Se esse dinheiro fosse investido em conhecimento, esse povo varonil deitado eternamente em berço esplêndido teria discernimento de saber pelo menos se cuidar. Essa é a imagem do Brasil vendida para o mundo, desigualdade berrante onde as mulheres ricas não são mais que uma conta bancária e muita futilidade e os pobres gente que se contenta com migalhas do assistencialismo.

Para mim, se eles colocarem as mesmas fantasias todos os anos e tocarem o mesmo samba é a mesma coisa, não vejo diferença, porque já se foi o tempo em que faziam isso com mais qualidade. O Brasil começa a funcionar só depois do carnaval, então vamos voltar para a rotina de sempre para que tudo acabe em samba no ano que vem.

Dora Canaver