08 de julho de 2026
Geral

Depois da folia...

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Todo Carnaval tem seu fim. Na esteira do fim de festa, como num estalo, surgem certas memórias que, apesar da gente tentar, não se apagam. Algo que não deveria ter saído da cabeça e que foi dito, uma “bola fora” em público, olhares de reprovação em silêncio... É a ressaca moral.


Ela surge sempre quando, impulsionados principalmente por excessos – álcool, outras drogas, empolgação ou descontrole emocional –, cruzamos a barreira de algum limite social ou de princípios próprios e, inevitavelmente, temos a vontade de passar uma borracha no passado, como se aquilo não tivesse acontecido.


Mas aconteceu, voltar no tempo é impossível e o estrago, geralmente, é grande. Essa é a diferença dos danos físicos para os prejuízos morais. No primeiro caso, as sequelas são deletadas com boas horas de sono e comprimidos para amenizar a dor de cabeça.


As consequências emocionais, contudo, ficam tatuadas na memória, explica a psicóloga Regina Furigo, da Universidade Sagrado Coração (USC). “Temos regras, princípios. Sempre que nos excedemos e rompemos com as normas, seja em momentos de entusiasmo excessivo ou até privação da razão, vem o remorso”, salienta.


Há quem diga que a ressaca moral seja pior do que o desgaste físico. E isso, de fato, tem fundamento, observa a terapeuta. “Acredito que seja mais grave. Exceto em casos em que a pessoa se droga ou faz sexo sem preservativo, situações irremediáveis. No entanto, ela (ressaca moral) também passa”, assegura.



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Existem casos diferentes. Em situações “mais leves”, o bom humor pode ser utilizado até para “sarar”. Desde que, ressaltam terapeutas, o arrependimento e o aprendizado para o futuro entrem em cena.


É o que aconteceu com o universitário Rafael*, de 26 anos que, em meio a uma bebedeira, resolveu tirar um amigo “do armário”, sem que o mesmo desse permissão para tal revelação. “Assumi meu amigo enrustido pra todo o grupo. No outro dia tive amnésia alcoólica e não lembrava do ocorrido. Só soube dias depois”, relata.


Outros episódios, doem, literalmente, não apenas no aspecto emocional. Marcas físicas também evidenciam o papelão.


É o que aconteceu com a estudante Carolina*, de 18 anos. Numa festa logo após entrar na faculdade, ela conta ter passado da conta na bebida.


Era apenas disso que se lembrava no dia seguinte, até que os lampejos de memória e, consequentemente, embaraço, começaram a surgir. “Misturei muita bebida em um curto espaço de tempo. Na verdade, eu só me lembro da primeira hora da festa e depois que eu acordei, lá pelas cinco da manhã”, recorda.


O constrangimento, comenta a jovem, não ocorreu durante a farra, mas nos dias seguintes, com direito a lembranças (e dores) físicas do “mico”.


“O que me dizem é que, após algumas doses, comecei a passar mal e a ficar zonza. Em algum momento, me afastei e trombei em alguém ou algo. Caí de cara em uma parede chapiscada. Ralei o braço, rosto e fiquei com alguns roxos no corpo. Uma bela ressaca física e moral”, considera.


Arrependimento, vergonha e até “fuga” social, revela, a acompanharam nos dias seguintes ao porre. “Soube no dia seguinte das coisas que aconteceram, obviamente morrendo de vergonha. Sem contar que é horrível ouvir as pessoas te contarem coisas que você fez e não ter a mínima ideia de como foi capaz daquilo”, considera.


“Já se passaram uns bons meses do acontecimento. Agora dou risada com a história”, resigna-se.

 

Homem-aranha à gasolina

Membro da turma que usa o bom humor para amenizar a ressaca moral, Daniel*, de 28 anos, também lembra, apesar de querer espantar da memória, maus lençóis em que se envolveu após uma noitada regada a caipirinha de maracujá e outros “aditivos”, dez anos atrás.


“Era o melhor ‘custo benefício’ para jovens que queriam beber até esquecer o próprio nome”, diverte-se. “Era Carnaval. Chegou um ‘amigão’ e me ofereceu um negócio estranho ao qual ele chamava de ‘gasolina”, detalha.


Segundo ele, ninguém sabia ao certo o que havia em meio ao misterioso coquetel. “Tomei um golão e foi a última coisa que eu me lembro de ter feito. Me contaram que fui visto correndo na direção das quadras do clube onde estávamos. Lá, me viram escalar um alambrado com a bermuda quase na canela, gritando ‘eu sou o homem-aranha. Pulei com minhas ‘teias’ para o outro alambrado. Caí de costas no chão e fiquei uns minutos esparramado no chão”, narra.


Após passar mal, ameaçar bater na avó de um amigo e chegar em casa as 7 da noite do outro dia, o rapaz até hoje não pode sentir o cheiro de suco de maracujá. “A avó do meu amigo sempre oferece uma biritinha quando me vê”, brinca.

Desabafar alivia o ‘peso’

Feito o estrago, não existe máquina do tempo para voltar no relógio e desfazer a besteira que traz a ressaca moral. Mas, para quase todos os casos, lembra a psicóloga Regina Furigo, existe remédio.


“Em situações extremamente graves não tem solução mesmo”, ressalva. “Atitudes menos graves podem ser amenizadas, em primeiro lugar, assumindo as consequências do ato”, aponta.


Dividir a angústia, abrindo-se com profissional terapeuta ou pessoa amiga de extrema confiança também faz parte do processo de “cura moral”, orienta a psicóloga. “Tudo aquilo que é dividido é extremamente positivo”, recomenda. “Há apenas de se tomar o cuidado com quem se compartilha, para o problema não ganhar amplitude maior”, recomenda.


Admitir a falha, com reconhecimento do erro, eventuais desculpas a pessoas atingidas pela falta de tato e consequente aprendizado são os passos seguintes, salienta ela, além de um sábio “conselheiro” chamado tempo.


Pároco da Catedral do Divino Espírito Santo, em Bauru, o padre Marcos Pavan revela que, especialmente após o Carnaval – coincidindo com o início da Quaresma (período marcado por jejum, reflexão e caridade acentuados pelos católicos) -, aumentam as solicitações de aconselhamento espiritual.


Para o religioso, o arrependimento também é chave poderosa para a cura emocional. “Se arrepender é importante, assim como abandonar a ‘alegria que traz tristeza’”, relaciona.


O aprendizado após reconhecimento das falhas, salienta o clérigo, é fundamental.


Culpa assumida, comportamento corrigido. É hora, então, de colocar uma pedra sobre o episódio e tocar a vida, aconselha padre Marcos. “Não se pode também ficar sempre lembrando. Voltar ao episódio é o mesmo que mexer numa ferida, que, desta forma, não cicatrizará”, compara. “Ponha o passado nas mãos de Deus”, aconselha.