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João Rosan |
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Morador de rua também é vítima de ladrões: Josuel teve documentos furtados |
Tem gente “diferente” na rua. Do outro lado do vidro do carro, rostos novos se aproximam pedindo trocados. Guardadores, limpadores de para-brisa no semáforo. Pedintes de todas as idades.
Algumas pessoas, bem vestidas e novas, surpreendem pelo perfil diferente do estereótipo da população de rua. Enquanto uns pedem, outros “impõem”. Há até quem “taxe” os pedidos ao mesmo tempo em que lavadores espirram detergente na dianteira sem que o motorista solicite o “serviço”. Independentemente ao modo de vida, o fato é que a maioria desta gente divide a falta de um teto por não ter outra opção.
“A nossa casa está aberta para todos. Aliás, o que não falta aqui é porta. É porta para tudo quanto é lado”, descontrai o morador de rua Josuel Leite do Prado, 38 anos.
Há três meses, ele e uma dezena companheiros fazem de sala, quarto e cozinha os bancos, árvores e chão de cimento da praça Nabih Gebara, no Jardim Estoril.
Pedir trocados, roupas e comida, além de “olhar” carros na região da avenida Getúlio Vargas, são as formas encontradas por eles para sobreviver. “Tomamos uns goles, não nego. Mas drogas a gente não usa”, assegura José Adilson Pereira da Silva, o “Baiano”. “Vim para a rua depois de brigar com a mulher. Sou pedreiro, mas não consigo arrumar trabalho”, resume.
Geograficamente, José quase faz juz ao apelido. Baiano, na verdade, é das Alagoas. Aos 35 anos, aparenta ter passado dos 40. Fisionomia triste, discurso conformado, diz que, se pudesse ganhar um “presente”, gostaria de uma passagem.
“Não para Jaú ou qualquer outro lugar perto, igual mandam a gente. Se me pagarem a viagem para Alagoas vou agora mesmo”, sonha.
Baiano não se importa em gastar a sola do sapato de volta para o Estado natal. A sola, porque a parte de cima dos pés está em carne viva.
Desde a semana passada, ele exibe os ferimentos sem qualquer tipo de cuidado nos dedos do pé esquerdo, atingidos por gordura quente de uma panela derrubada. “A pomada custa R$ 9,00, não tenho condição”, justifica.
Nenhum morador da praça admite ser dependente de drogas ilegais. Há quem derrube a justificativa. Não especificamente neste local da Zona Sul, é fato que boa parte dos sem-teto, quando não saiu de casa em decorrência do vício, se deparou com o uso de entorpecentes ao cair na sarjeta.
Moradores (com e sem casa) cobram solução
Os moradores provisórios e improvisados da praça no Estoril garantem que a convivência com os habitantes oficiais da região é pacífica. “O pessoal gosta e nos trata bem. Cuidamos da praça, varremos e podamos. Aqui é tranquilo, somos pacíficos”, assegura José Adilson Pereira da Silva, o Baiano.
Não é bem assim. A convivência não é tão harmoniosa. Moradores da região e comerciantes de uma feira livre que, semanalmente, ocupa o espaço em frente a praça, não estariam satisfeitos com a presença dos sem-teto no bairro.
Tanto é que a saída dos mesmos é requerida por moradores, que encaminharão abaixo-assinado à prefeitura. “Recolhemos as assinaturas e acionaremos a Sebes (Secretaria do Bem-Estar Social)”, diz o engenheiro Afonso Fábio.
Presidente da Associação de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag), instituição cuja sede fica próxima à “praça abrigo”, Fábio diz que a estadia dos ocupantes não é tão tranquila quanto eles alegam. “Ocorrem brigas e o pessoal se altera quando bebe. Ainda não aconteceu nada grave, mas sempre há o risco”, considera.
Fábio garante: não pleiteia a simples retirada dos sem-teto do local. “Não queremos transferir o problema”, assegura. Segundo ele, os mendigos recebem atendimento parcial. “Queremos solução. Não adianta a Sebes vir aqui e somente fornecer leite para eles. Aí é que vão ficar na praça mesmo”, afirma o responsável pelo abaixo-assinado. “Levaremos o tema à próxima reunião do Conseg (Conselho Municipal de Segurança)”, anuncia.
Os moradores “com teto” do bairro temem pela segurança. Mas os sem-casa também dizem ter o mesmo receio. Josuel Leite do Prado exibe um boletim de ocorrência sobre o furto da carteira com documentos pessoais, ocorrido nesta semana, enquanto “guardava” carros na praça Rui Barbosa. “Temos medo à noite. Um faz vigia enquanto outro dorme”, diz Baiano.
Já os habitantes oficiais do bairro alegam que o perigo também ronda a praça, justamente pela presença dos sem-teto. Um dos motivos do abaixo-assinado, observa o engenheiro Fábio, seria o consumo de drogas no local. Há quem diga, cita o responsável pela petição, que o cheiro de maconha é sentido de longe. Drogas, diz, seriam escondidas em terreno próximo.
Ao menos quando a reportagem visitou o local, quinta-feira passada, as únicas substâncias compartilhadas entre os mendigos eram um vidro de pimenta, café e um copo com refrigerante.
População migrante permanece na cidade
Bauru possui centros de assistência social a migrantes. Os albergues mantidos tanto pela prefeitura, através da Secretaria de Bem-Estar Social (Sebes), no caso o Centro Pop, e Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac) acolhem a população de rua que, nestas instituições, encontra abrigo e alimentação.
Contudo, o problema vai além. A população que chega, em muitos casos, permanece. Provisórios, os abrigos não dão conta de uma demanda social que não é da natureza das instituições.
A permanência de sem-teto na cidade é comprovada pelo índice de atendimentos reincidentes. Apenas no centro de acolhimento mantido pelo Ceac, mês passado, foram registrados mais de 1.130 pernoites.
Desse montante, apenas 199 atendidos correspondiam a novos cadastros. Outros cerca de 930 eram reincidentes.
A reincidência, em comparação com o mesmo período do ano passado, informa o setor de assistência social da instituição, está na casa dos 63%. Apesar de não negar o pernoite, a instituição, ainda conforme o setor de assistência social, adota a política de não prosseguir no atendimento aos casos reincidentes.
Após o atendimento inicial, com direito a pernoites e alimentação, os albergados recebem passagens para outras cidades.
Muitos, porém, retornam. Boa parte, apesar de não ser unanimidade, ainda enfrenta problemas de dependência química. O mesmo cenário é observado no centro de atendimento a migrantes mantido pela prefeitura.
Entre 35 e 50 pessoas, diariamente, são reincidentes no Centro Pop, informa a titular da Sebes, Darlene Tendolo.
Ela confirma um novo “perfil” de pedintes e moradores de rua. “Antigamente, quem pedia na rua era como as histórias antigas do ‘homem com saco nas costas’”, lembra. “Hoje mudou bastante. O morador de rua tem informações e conhece também seus direitos”, diferencia ela.
Alcoolismo, dependência em drogas ilícitas e conflitos familiares, salienta a titular da pasta municipal, figuram entre as principais causas do aumento da população de rua, incluindo os migrantes que chegam a Bauru. “Temos observado este novo perfil pelo menos nos três últimos anos”, situa.
Para os próximos dias, anuncia a secretária, um novo plano de ação será iniciado para atender moradores de rua nos campos social, de saúde e segurança.
“Iniciaremos as tratativas para um comitê gestor, com a participação das polícias e conselhos municipais, para acompanhamento e encaminhamento (em casos de necessidade de tratamentos psiquiátricos ou desintoxicação)”, antecipa.
Nem a igreja ‘escapa’
Se as praças são encaradas como casas sem portas dos moradores, a “casa divina” é obrigada a fechar as portas a fim de evitar depredações e até intimidações sobre fiéis. Além das ruas e praças próximas a templos religiosos, locais explorados e disputados por guardadores de carros, o interior de algumas igrejas também é alvo da ação de alguns pedintes ou ladrões.
Mesmo sem atribuir ações delituosas aos moradores de rua, pois grande parte está nestas condições por falta de alternativas, o padre Júlio César Machado, pároco da igreja de Nossa Senhora Aparecida, no Centro da cidade, afirma que, em breve, o templo contará com sistema de vigilância particular.
A praça em frente à igreja, salienta, é palco de constantes disputas de guardadores de carros, alguns pernoitando no local. Tentativas de furto já foram notadas dentro da igreja, salienta. “Vamos colocar segurança particular. É a saída. Falar ao microfone, na missa, para os fiéis tomarem cuidado com a bolsa é que não dá”, acentua o pároco.
O padre compreende a amplitude do problema social. Contudo, apesar das ações beneméritas conduzidas pela paróquia, reconhece a impossibilidade de resolver todos os problemas. “Inevitavelmente, se saio paramentado em frente à igreja, sou abordado por pessoas que querem dinheiro. É impossível ajudar todo mundo assim”, justifica.
A permanência em frente à igreja é acentuada, revela, nos feriados prolongados quando, coincidentemente ou não, há a “saidinha” de sentenciados que cumprem penas nos presídios com regime semiaberto. “Nos feriados de saidinha chega a aglomerar 15 pessoas na praça. O local é público e não podemos fazer nada. Já na igreja, colocaremos segurança”, antecipa.