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Renan Casal |
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Ecoponto Eufrásio de Toledo tem lixo acumulado quando não abre nos fins de semana e feriados |
Com a carreira política embasada na luta ambientalista, o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) enaltece o avanço da coleta seletiva em seu governo, que deve alcançar 100% do território urbano bauruense até o final deste semestre. Acontece que, apesar de ampliado, o serviço apresenta problemas e parte da população se vê desestimulada a separar o lixo.
O principal problema, segundo apurou o Jornal da Cidade, está na irregularidade da coleta seletiva que, em alguns bairros, deixa de passar nos dias programados ou atrasa no horário, gerando inconvenientes à população que tenta colaborar para a tão propagada sustentabilidade.
É claro que não se trata da maioria da população, mas há casos, como o da técnica em laboratório Léa Batagliotti, 43 anos, que mora em uma casa no Jardim Cruzeiro do Sul. Segundo ela, em algumas semanas, a coleta seletiva simplesmente não passa. “É muito ruim, porque os catadores sabem o dia em que a gente coloca o lixo lá na frente e, se o caminhão não passa na hora, eles reviram tudo e a bagunça fica para a gente recolher porque ninguém quer sujeira na frente de casa”.
Outro problema, de acordo com Léa, é quando o serviço atrasa. “A gente fica a mercê do tempo também. Se chove, molha tudo, o papelão estraga e não adianta mais”, conta ela, que aderiu à separação do lixo há cinco anos, mas se sente desanimada com a ineficiência do serviço.
O problema só não é sentido pelas pessoas que moram em prédios que possuem políticas de separação do lixo. A comerciante Carmen Figueiroa, 41 anos, mora em um condomínio da Vila Cardia e não consegue saber se há falhas no serviço de coleta seletiva. “A gente separa o lixo, mas pode deixar todos os dias no local adequado para cada andar do prédio. Os funcionários recolhem diariamente”, explica.
“Crise e transição”
É assim que o prefeito – e ambientalista – define o atual momento da coleta seletiva, que passou da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) para a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb). Segundo Rodrigo, a transição se dá pela contratação imediata de mais 11 coletores, que devem chegar a 24 até o final da semana que vem. “Dessa forma, ainda nesse primeiro semestre, vamos chegar a 100%”.
Apesar dos problemas enfrentados por moradores, como Léa Batagliotti, Agostinho destaca ainda uma crescente no volume de lixo reciclável coletado. “A população está mais consciente”.
E o problema?
Já a crise se dá, segundo o prefeito, pelo apagão de mão-de-obra para a cooperativa responsável pela triagem de lixo. “O mercado está aquecido e as pessoas estão sendo mais atraídas pela construção civil e pelas terceirizadas de limpeza”, pontua. Os cooperados costumam ganhar, mensalmente, cerca de R$ 700,00.
O prefeito conta que a Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) tem feito buscas nos bairros mais carentes, mas a rotatividade da mão-de-obra é muito grande. “Muita gente começa, mas muita gente sai. Há pouco tempo, a presidente da cooperativa abandonou o posto. Tem também o preconceito natural de as pessoas não quererem trabalhar com lixo”.
O Jornal da Cidade já publicou reportagens mostrando que, como a mão-de-obra não dá conta da triagem do lixo reciclável, grande volume de material recolhido pela coleta seletiva é destinada ao aterro sanitário, tornando inócuos o trabalho e os gastos com o serviço.
Grito de socorro
Para tentar dar vazão ao lixo reciclável coletado, o prefeito Rodrigo Agostinho vai publicar, possivelmente no Diário Oficial da próxima terça-feira, chamamento para que entidades sociais recebam parte deste material. A ideia é que, assim como a cooperativa, essas instituições se encarreguem de receber o lixo, triá-lo e vendê-lo.
Ecoponto fechado: ‘Não vou pagar hora extra’
Questionado sobre os problemas registrados em ecopontos e as reivindicações para que passem a atender aos finais de semana, o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) foi enfático ao descartar a possibilidade. “Uma coisa é o mundo ideal. Noruega e Suécia têm dinheiro sobrando para fazer tudo, mas eu não vou mudar os horários”.
Ele afirma que não tem como esperar a população separarar os materiais para deixar nos ecopontos aos finais de semana. “Eu não vou pagar hora extra por isso. O funcionário merece descanso e não tem como contratar mais. Nossos gastos com folha de pagamento estão estrangulados e tenho muita gente para chamar para a Educação e a Saúde”.
O prefeito diz encarar com naturalidade o acúmulo de lixo após os feriados e finais de semana. “É sempre assim. No Natal foi desse jeito e pode escrever que na Páscoa também vai ser. Depois de uns dois dias, a situação se normaliza. Eu encaro essa situação com bastante naturalidade”, finaliza.
Ecopontos não suportam demanda
Eles surgiram com a proposta de minimizar o problema do depósito irregular de lixo reciclável e de entulhos em terrenos baldios, tornando Bauru mais limpa e longe de doenças como a dengue e a leishmaniose, por exemplo. Criados em menos de dois anos pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), os Ecopontos já somam seis unidades espalhadas pela cidade e se popularizam cada dia mais.
Considerados “braço direito” da coleta seletiva, uma situação nesses locais tem tirado o sossego da população vizinha e da própria Semma, que já convive com a defasagem que o serviço enfrenta por conta da grande procura.
Ao comprar uma nova máquina de lavar e procurar um local adequado para o descarte da caixa de papelão e dos plásticos que envolviam o produto, o aposentado Gilberto Casal, 53 anos, não pensava que seu dia seria tomado por indignação ao observar a situação encontrada, por volta das 11h30 de quarta-feira, no Ecoponto central (quadra 2 da rua Sorocabana), sob o viaduto da Antônio Eufrásio de Toledo, no Centro.
Diante dos portões fechados, o aposentado relata ter descartado seu resíduo corretamente somente após questionar um funcionário do local sobre a situação encontrada na calçada. “Havia muito lixo espalhado por todo o alambrado do Ecoponto. TV quebrada, entulhos e grande quantidade de plásticos, papéis, papelão, inclusive lixo orgânico”, aponta o aposentado, que acabou fotografando a cena observada.
De fato, a situação encontrada nas imediações desta mesma unidade, ainda na manhã de anteontem, não era diferente.
Após o recesso de Carnaval, o ponto de coleta, que ficou fechado desde domingo e só abriu as portas a partir das 12h de quarta-feira, acumulava quilos e mais quilos de entulhos e lixo despejados entre a rua e a calçada.
Único funcionário e responsável pelo local em questão, Joaquim Vieira, 55 anos, se desdobrava para atender os usuários, separar a demanda que chegava e limpar a grande quantidade de sujeira resultada da incompreensão da população no feriado.
“Todo feriado é isso. As pessoas não respeitam os horários de funcionamento. Sou sozinho aqui e tenho que dar conta disso tudo”, comenta o servidor.
‘Insuportável’
Enquanto o responsável pelo Ecoponto era questionado sobre a situação presenciada pela reportagem, do outro lado da rua o problema virava alvo de reclamação da população vizinha.
Valéria Siena, 36 anos, aponta descaso da prefeitura diante da questão. “Eles deveriam montar turnos alternativos para funcionar em feriados. O cheiro do lixo fica insuportável na vizinhança e tenho medo que atraia animais peçonhentos.enho um bebê de 1 ano em casa, é complicado conviver com isso”, reclama.
A opinião sobre a implantação dos turnos de trabalho alternativo para suprir a demanda crescente no local, principalmente aos domingos e feriados, também é compartilhada por Gilberto Casal. “Nesses dias, o pessoal acaba parando em casa e tendo mais tempo para essas tarefas domésticas”, completa.
Problema generalizado
E não é somente o Ecoponto do Centro que coleciona problemas por conta da alta demanda e da falta de horários alternativos. De ponta a ponta da cidade, o JC constatou que a mesma situação ocorre nos outros pontos de coleta da prefeitura.
Na unidade do Parque Viaduto, por exemplo, ainda era possível verificar na sexta-feira alguns resquícios de materiais descartados do lado de fora da unidade após o feriado de Carnaval.
Outra moradora confirma a situação no Ecoponto do Jardim Redentor. “Aqui é tudo organizado e limpinho, mas quando chega final de semana ou feriado prolongado vira uma bagunça”, aponta a dona de casa Vera Lúcia Trípodi, 58 anos.
Todas as unidades do Ecoponto, com exceção da central, possuem espécies de “casinhas” com lixeiras externas para o depósito de materiais fora do horário de expediente, porém, segundo o relato dos próprios funcionários, esses recintos não seriam grandes o suficiente para abrigar a quantidade de lixo descartada aos domingos e feriados.
Coleta seletiva defasada
Se a situação nos Ecopontos já não é uma das melhores, o lixo resultado da falta da coleta seletiva em diversos pontos da cidade ajuda a piorar ainda mais o problema.
O serviço, prestado pela Semma, que deveria ser assumido em janeiro pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb), ainda não foi repassado por motivos burocráticos. O contrato para formalização da prestação do serviço está em fase de elaboração.
Enquanto isso, a coleta seletiva enfrenta dificuldades para suprir a demanda diante do quadro defasado de funcionários e de caminhões disponíveis.
A prefeitura admite que a Semma está com defasagem do quadro de funcionários da coleta seletiva, uma vez que não pode contratar coletores de lixo porque o cargo está em extinção nos quadros da Prefeitura desde 1991, quando essa atribuição foi repassada para a Emdurb. Por outro lado, os novos contratados como ajudante geral não podem exercer o cargo de coletor de lixo porque isso caracteriza desvio de função, de acordo com a Constituição Federal.
Segundo a Emdurb, o serviço que será instalado deve contemplar 100% do município, seguindo a divisão dos setores da coleta de lixo domiciliar. Para tanto, serão necessários mais 24 coletores e oito motoristas.
Outro entrave que dificulta o repasse é a doação dos caminhões pela prefeitura, que ainda passa por avaliação no departamento jurídico. Quando o serviço for assumido, a coleta seletiva será mantida uma vez por semana, com expediente de segunda a sábado, em dois turnos (manhã e tarde).
Outro detalhe que ainda deve ser acertado é em relação à destinação dos resíduos, uma vez que a capacidade da Cooperativa é limitada. Uma das alternativas encontradas para esta questão será a realização de um chamamento público com o objetivo de cadastrar associações, ONGs e cooperativas de catadores de materiais recicláveis interessadas e aptas a realizar a destinação, triagem e comercialização periódica de resíduos recicláveis coletados.
Secretário admite dificuldades
Questionado, o secretario municipal do Meio Ambiente, Valcirlei Gonçalves da Silva, informou que apesar de estarem funcionando “razoavelmente bem”, algumas unidades dos seis Ecopontos já instalados na cidade possuem dificuldades que, segundo ele, seriam motivadas pela demanda crescente do serviço. “A demanda é grande e não estamos conseguindo acompanhar”, alega.
No ano passado, os Ecopontos receberam juntos quase 8 mil entregas de entulhos e outros materiais, que totalizaram o recolhimento de 253,5 toneladas ao longo de todo o ano. Somente em janeiro de 2012, quando apenas três unidades funcionavam na cidade, a Semma chegou a recolher 830 quilos. No mesmo período em 2013, porém, a quantidade recolhida se multiplicou e superou 96 toneladas. O número de entregas de materiais também dobrou de 300 para 600. O local que recebe maior quantidade de entulho é o Ecoponto central, localizado sob o viaduto da Antônio Eufrásio de Toledo.
Segundo a Semma, a limpeza é realizada diariamente nas unidades para evitar a superlotação, mas mesmo assim é possível notar nesses locais que as caçambas já não dão conta de tanto lixo.
A sétima unidade do Ecoponto está em fase de finalização e beneficiará a região do Parque Bauru (final da avenida Cruzeiro do Sul). Outras nove unidades devem ser construídas ainda neste mandato, até o final de 2016.
E como fica?
Sobre a situação do lixo nas calçadas e a possibilidade de mudança nos horários de atendimento à população, o secretário fecha a questão. “Isso é desrespeito. Entendo a necessidade da população. Aos poucos estamos melhorando o serviço, mas ainda não temos condição de ampliar o funcionamento.”
Apesar disso, Valcirlei acena que a Semma avalia realizar uma troca de turnos dos trabalhadores da segunda-feira - dia de menos frequência de usuários - para o domingo.
Há alguns meses, funcionários da Semma também registraram boletim de ocorrência denunciando atos de vandalismo nas unidades como, por exemplo, a queima de materiais recicláveis. Segundo Valcirlei, alguns Ecopontos ainda têm sofrido com invasões e atos desse tipo.
Restos de podas: só no aterro!
Um morador compareceu nesta semana ao Ecoponto sob a Antônio Eufrasio de Toledo para despejar uma quantidade de restos de poda, mas foi barrado pelo funcionário do local, que informou que as unidades não estariam recebendo mais esse tipo de material alegando que a máquina de triturar da prefeitura para destinação correta do material estaria quebrada.
“Estou querendo fazer a coisa certa, mas pelo jeito terei que jogar isso tudo em algum terreno por aí. Temos o Ecoponto, mas não podemos usar. De que adianta?”, reclama Paulo Miguel da Silva, 50 anos.
Sobre a situação, Valcirlei Silva reconhece que, logo no início do funcionamento, as unidades recebiam restos de podas, mas por conta de abusos o serviço foi interrompido. Contudo, no próprio site da prefeitura, na página dos Ecopontos, as especificações sobre o que pode ou não ser levado ao Ecoponto não contemplam os restos de podas.