A capacidade de adaptação do corpo humano é muito lenta. Não dá para aumentar a capacidade do cérebro, precisaríamos aumentar seu tamanho e ficaria difícil depois para nascer! Não passaríamos para fora do corpo da mãe. Por isto criamos os computadores: para auxiliar nossos cérebros. Memória fica com as máquinas; raciocínio e devaneios, com o cérebro!
A biologia supera obstáculos: a rigor, não precisaríamos de sexo para se formar um novo ser. Coleta-se o espermatozoide e o óvulo, fecunda-se em laboratório. Mais ainda: não precisaríamos do corpo da mãe para se formar um novo ser; o conhecimento acumulado permitiria uma placenta e um útero materno artificial. Quando isto deixar de ser chocante, passaremos a fazer, é só uma questão de tempo.
O sexo, seus prazeres e desprazeres, serão apenas para diversão e afetividades passageiras ou, mais ou menos, duradouras! Ser pai e mãe, do ponto de vista biológico, ficará apenas em função da origem do espermatozoide e óvulo. Poderemos emprestar ou “doar” espermatozoide e ou óvulo para outras pessoas e isto dependerá de cada um de nós.
Enquanto úteros artificiais não são construídos e disponibilizados para as pessoas que não podem ou não querem que um novo ser se desenvolva em seu ventre, lança-se mão do aluguel de um outro corpo humano com esta finalidade. Isto também é conhecido como barriga ou útero de aluguel. No Brasil a prática é permitida, mas não se pode cobrar. Ironias à parte: alugar o corpo para a prática do sexo por algumas horas pode e paga-se, mas para formar um novo ser não!
Muita gente acredita que a prática da “barriga de aluguel” exige que o homem pratique o sexo com a locadora. Não é nada disso. Em uma clínica, o óvulo é fecundado pelo espermatozoide, ambos de adultos conscientes que serão os pais biológicos da criança. O óvulo fecundado, agora praticamente um embrião, vai ser alojado no útero de uma outra mulher por meio de instrumentos, tudo sem qualquer prática sexual.
A outra mulher “contratada” vai emprestar ou alugar seu corpo para alojar o embrião e dar a ele, via placenta e útero emprestados, os íons, proteínas, aminoácidos, carboidratos, lipídeos e outros substratos para que se formem seus tecidos e órgãos. Dos casais no mundo, 7% não conseguem ter filhos pelas vias habituais, mas querem tê-los e se apoiam nas técnicas da reprodução humana assistida.
A Índia é a campeã mundial de barrigas de aluguel. A prática é livre e não tem regulamentação governamental. A cidade de Anand é a meca mundial dos casais que querem encontrar úteros ou “barrigas” de aluguel. Na Clínica Akanksha, por exemplo, a cada três dias nasce uma criança de barriga de aluguel. Na índia se tem aproximadamente 1500 clínicas de reprodução humana assistida.
Durante os meses de gravidez, as mães de aluguel ficam internadas ou alojadas em casas ou clínicas confortáveis onde recebem três refeições ao dia, são monitoradas quanto a saúde e hábitos. Por este período recebem 7 mil dólares, em caso de gêmeos, um pouco mais. Em geral, são mulheres entre 21 e 35 anos que já foram mães e são casadas.
Em geral, a cidade ou aldeia em que vivem não sabem que a mulher tem esta atividade, pois todos acreditam que para isto tiveram que fazer sexo com um outro homem que não seja seu marido. Estas mulheres são discriminadas, muito embora seus maridos saibam e acompanham todo o processo.
Não raramente, estrangeiros se dirigem até a Índia para lá também adquirirem óvulos ou espermatozoides pois não conseguem produzi-los. O custo total da reprodução assistida na Índia fica em torno de U$20 mil, enquanto nos EUA, U$60 mil. Depois do nascimento, os vínculos da mãe de “barriga de aluguel” se encerram, inclusive sem a amamentação. Cada mulher pode, no máximo, alugar três vezes o seu corpo.
Na maior parte da Europa, a prática da “barriga de aluguel” é vetada, mas em muitos estados estadunidenses a prática é legal. Muitas pessoas acham errado a prática de alugar ou emprestar o útero para que se gere um ser filho de um outro casal.
Qual a diferença entre alugar o corpo para desempenhar um determinado serviço como acontece com os trabalhadores da construção civil e as prostitutas? E quando “alugamos” as mãos habilidosas dos cirurgiões para nos operarem? E quando a modelo aluga seu corpo como um cabide para desfilar roupas famosas! E os artistas pornôs?
Conformemos: a cada dia que passa sexo e reprodução se distancia um do outro, não serão mais interdependentes: será bom ou ruim?