08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Café da manhã


| Tempo de leitura: 2 min

Fico feliz, quando pelas ruas cruzo com um ex-aluno. Interesso-me pela sua vida familiar e profissional. A conversa vai longe, é sobre filhos, saúde, escola, a curiosidade por saber de outros da mesma escola e época. Num destes encontros, um ex-aluno, hoje médico conceituadíssimo, me confessou que a profissão é um verdadeiro sacerdócio e nos dá a oportunidade de sofrer e aprender muito com os doentes. Percebi a sua vontade de querer me contar algum fato para concretizar o que me afirmara. Deixei-o à vontade. Emocionado, contou o que transcrevo a você leitor amigo:

"Um homem de idade bem avançada veio à clínica onde trabalho, para fazer um curativo na mão ferida. Estava apressado, dizendo-se atrasado para um compromisso.

Enquanto o tratava, perguntei-lhe sobre qual o motivo da pressa. Ele me disse que precisava ir a um asilo de velhinhos para, como sempre, tomar o café da manhã com sua mulher que estava internada lá. Disse-me que ela estava nesse lugar há algum tempo porque tinha um Alzheimer em grau bastante avançado.

Enquanto acabava de fazer o curativo, perguntei-lhe se ela não ficaria assustada pelo fato de ele chegar mais tarde. - Não, disse ele. Ela já não sabe quem eu sou. Faz quase cinco anos que ela não me reconhece. Espantado, perguntei: - Mas se ela já não sabe quem o senhor é, há mais de quatro anos, porque essa necessidade de estar com ela todas as manhãs?

Ele sorriu e suavemente respondeu: - É. Ela não sabe quem eu sou, contudo eu sei muito bem quem ela é. Meus olhos lacrimejaram enquanto ele saía e eu pensei: - Essa é a classe de amor que eu quero para a minha vida." Após ouvir o que o meu ex-aluno, médico, acabou de contar, concluí: o verdadeiro amor não se reduz ao físico nem ao romântico. O verdadeiro amor é a aceitação de tudo o que outro é, do que foi, do que será e... do que já não é...

Prof. Gino Crês