06 de maio de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Ismael Edson Boiani

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Quioshi Goto

Ismael Edson Boiani, um homem versátil, que conta sua história para o JC deste domngo

Ismael Edson Boiani já foi um dos grandes produtores de alho do Brasil. Ao lado de pesquisadores do curso de agronomia da Unesp de Botucatu, ele desenvolveu variedades como o alho vernalizado, o alho roxo. “Agora optamos por importar o produto por ser menos complicado do que a produção agrícola no País”.

Nascido e criado na zona rural de Arealva, aos 19 anos ele se aventurou pela capital do Estado onde, no início, serviu de chacota por causa de suas origens humildes. Mas ele não se abateu. Batalhou, estudou e venceu.

Anos depois, já de volta à região e depois do sucesso na agricultura, ele entrou para a política e foi prefeito de Iacanga de 2005 a 2012. “Um político precisa entender que sua função é trabalhar para melhorar a vida do povo”. Confira estas e outras histórias a seguir. 

 

Jornal da Cidade - Como foi o início da sua vida no campo?

 

Ismael Edson Boiani - Eu nasci na roça, em Arealva, no mesmo sítio onde hoje tenho a minha criação de peixes. Aos 7 anos de idade, eu já ia à escola de manhã e, à tarde, para a roça. Meu pai mal sabia escrever o nome, mas era um homem de visão. Ele fez questão que estudássemos, mas também nos ensinou a trabalhar. Entretanto, como eu não ganhava nada, porque a cultura do sítio da família era praticamente de subsistência, eu terminei o ensino médio e fui para São Paulo em busca de emprego. 

 

JC - Teve boas experiências na capital do Estado?

 

Boiani - Eu tinha 19 anos de idade quando decidi viver em São Paulo, e foi também a primeira vez que coloquei os pés lá. Fiquei 45 dias dormindo no sofá da sala com um irmão na casa de parentes. A casa era pequena e a família, grande. Meu primeiro emprego foi no Banco Bandeirantes. Quando lá cheguei, eu não ligava nem para o salário, porque me sentia orgulhoso por estar naquele prédio do Vale do Anhangabaú (risos). Mas sofri, porque eu ganhava um salário mínimo, tinha saído da casa da minha prima e estava pagando uma pensão barata no Brás. Lembro-me que eu tinha direito a dois pratos feitos, mas eu tinha fome. Então, eu levantava cedo e ajudava o dono da pensão a carregar sacolas de feira em troca de mais um prato de comida. Eu queria vencer em São Paulo.

 

JC - A adaptação foi difícil?

 

Boiani - Tudo o que o pessoal do banco me mandava fazer, eu fazia, porque queria crescer. E como eu era muito caipira e conhecia pouca coisa da cidade grande, muitas vezes me fizeram de bobo. Eu servia de chacota. Eles me mandavam comprar carbono colorido, lavar fita de máquina de escrever... Eu passei por muito constrangimento por não conhecer algumas coisas, e isso me marcou. Eu estava desmoralizado no banco. Tinha vergonha.

 

JC - Quando as coisas começaram a melhorar?

 

Boiani - Foi quando arrumei outro emprego. Já mais esperto, eu consegui trabalho na Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo (Prodesp). Passei por um período de treinamento e comecei a fazer o cadastramento dos prontuários criminais. Eu já estava inserido na tecnologia e passei a ganhar três salários. Mudei-me para uma república de estudante em Santo André, entrei para a faculdade de economia do Instituto Municipal de Ensino Superior (IMES) de São Caetano do Sul. Cresci dentro da empresa e, quando terminei a faculdade, eu já era chefe e ganhava 20 salários mínimos por mês.

 

JC - E por que decidiu voltar para o Interior?

 

Boiani - Eu sempre voltava para ver minha família em Arealva e arrumei uma namorada em Iacanga. Acabei me casando em 1981 e resolvi me mudar. Sacrifiquei a minha profissão para iniciar uma nova atividade na região. Fui trabalhar novamente no sítio, mesmo contra a vontade de meus pais e dos amigos deles, que não queriam que eu abandonasse o meu emprego em São Paulo.   

 

JC - Foi então que começou a plantar alho?

 

Boiani - Sim. Durante a faculdade, eu morei na zona cerealista de São Paulo, onde o forte é o alho. E eu acompanhei esse mercado de perto. Fiz um trabalho na faculdade e acompanhei o preço de tudo. Percebi que o alho era muito caro, na época, e não era produzido em larga escala no Brasil. Tradicionalmente, o produto vinha da Argentina e Espanha. Meu pai plantava alho para o consumo e por religião na Semana Santa e não sabia o valor desse produto. Quando garoto, eu o ajudava e voltei de São Paulo com esse plano.   

 

JC - O sucesso veio rápido?

 

Boiani - Meu pai foi contra e não quis me emprestar a terra. Então, eu arrendei parte do sítio e ganhei mais do que aquele baita salário de São Paulo. Comecei a pesquisar e a melhorar a genética do alho. No primeiro ano, eu tinha uma média de produtividade de cerca de duas toneladas e meia por hectare. Quando parei de plantar alho, há quatro anos, eu estava plantando em Minas Gerais, já plantei até na Argentina. Estudei e aprendi muita coisa sobre agricultura, principalmente sobre o alho. O principal fator é o clima, e o alho gosta de frio. Fomos criando tecnologias e passei por um processo de desenvolver variedades de alho com professores de agronomia da Unesp de Botucatu. Desenvolvemos o alho vernalizado, o alho roxo. Chegamos a ser um dos grandes produtores de alho do Brasil.

 

JC - E por que a produção teve fim?

 

Boiani - Agora importamos e compramos alho de outros produtores por ser menos complicado. A produção da agricultura no Brasil, com todas as suas leis, dificultou a fixação do homem no campo. A tributação de produtos agrícolas é muito grande e a mão de obra, também. É imposto para tudo. Hoje meu alho vem de muitos lugares. Da Argentina, do Chile, do México, da Espanha e dos países da Ásia, principalmente da China.

 

JC - Você também trabalha com outras culturas, certo?

 

Boiani - Desde sempre. Paralelamente ao alho, eu já plantei milho, soja, feijão e agora tenho 110 mil pés de laranja em produção e mais 40 mil em fase de desenvolvimento.

 

JC - E quando a política entrou na sua história?

 

Boiani - A política acontece na vida da gente quando fazemos sucesso em algum setor da vida particular. No início, eu, na realidade, me senti usado em alguns aspectos até porque me senti excluído da gestão quando eu fui vice-prefeito. Mas, uma vez que me envolvi na política, eu decidi que queria ser prefeito para ver o que dava para faze pelo povo, porque dá para fazer muita coisa, sim. Perdi duas eleições, mas depois eu ganhei e fui prefeito de Iacanga de 2005 a 2012. Foi a maior votação da cidade até hoje. E agora elegi o meu vice-prefeito.    

 

JC - Como avalia a sua experiência como prefeito?

 

Boiani - Quando assumimos a prefeitura, eu vi como é difícil, porque você passa a depender de outras pessoas, não se pode governar sozinho. Eu tinha na cabeça que faria um trabalho de gestão, queria administrar a prefeitura como uma empresa. E eu trabalhei em cima disso. Fiz um trabalho de gastar menos do que o arrecadado e cobrei de quem devia. Parcelei dívidas e fizemos um trabalho de arrecadação. As pessoas pagam os seus impostos com prazer quando notam  o resultado, quando enxergam onde o dinheiro é aplicado. Mas os candidatos e os eleitos precisam ter essa visão, precisam ter em mente que estão lá para servir as cidades deles, para melhorar a vida das pessoas.

 

JC - Quais foram os pontos altos da sua gestão?

 

Boiani - Dentro desses oito anos, fizemos obras desafiadoras para um administrador e que trouxeram melhorias para Iacanga, como a estação de tratamento de esgoto, por exemplo, que foi o primeiro pedido que eu fiz ao governo do Estado. Eu fiz questão de contratar pessoas capazes, profissionais qualificados para desenvolver projetos para o saneamento básico que trouxe benefícios para a saúde, meio ambiente e exploração do turismo, uma importante atividade econômica da cidade por causa do Rio Tietê, Ribeirão Claro, Córrego do Areião.

Fizemos o projeto para o Aquário Escola, com peixes do Tietê, e o Lago Municipal. Melhoramos as ruas, fizemos um trabalho de arborização na cidade com mais de cinco mil plantas. Investimos maciçamente em educação recuperando as escolas, distribuindo uniformes, material didático e cuidando também da alimentação e da saúde das crianças com nutricionista, psicóloga, fonoaudióloga e dentista. Nosso Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) subiu de 4 para 6. Acho que a nossa gestão favoreceu muito o estudante. Deixamos a prefeitura com um bom caixa, diferente do que aconteceu com boa parte dos municípios.   

 

JC - Ouvi dizer que você é apaixonado por peixes...

 

Boiani - A pescaria é minha paixão. Vou muito ao Mato Grosso, temos um rancho em Porto Esperança, no Rio Paraguai, onde vou sempre que posso. Crio peixes como hobby nas minhas propriedades agrícolas, em Arealva. Na verdade, estou profissionalizando a criação de peixe e, em breve, vou montar um pesqueiro e explorar o mercado.    

 

JC - O Palmeiras é outra paixão?

 

Boiani - Eu sou cônsul do Palmeiras e represento a Sociedade Esportiva Palmeiras na região de Bauru. Recebi vários diplomas, mas estou decepcionado com a diretoria. O clube precisa ser administrado profissionalmente, como uma empresa. Espero que as coisas melhorem com a democracia na votação.

 

Perfil

Nome: Ismael Edson Boiani

Idade: 57 anos 

Local de Nascimento: Arealva/SP

Signo: Aquário

Esposa: Liliane 

Filhos: Natália e Roque

Hobby: Pescaria

Livro de cabeceira: Gosto de jornais e revistas

Filme preferido: “007”

Estilo musical predileto: Sertanejo

Para quem dá nota 10: Para Deus

Para quem dá nota 0: Para a falta de justiça, que dá privilégios para os que cometem crimes

E-mail: boiani.ismael@gmail.com