“Vai ter desenho hoje?”, pergunta Guilherme Henrique Apolinário, 7 anos, à Daniele Soffner, coordenadora do Centro Cultural “Nilson Prado Telles”, mantido pela Prefeitura de Dois Córregos (73 quilômetros de Bauru). O entusiasmado garoto queria dela a confirmação para programar sua tarde de diversão assistindo à exibição de um desenho animado no espaço cultural, na última quinta-feira.
Hoje, dia em que a indústria cinematográfica e espectadores mundo afora param para consagrar as estrelas do cinema mundial com a entrega do Oscar, o JC volta suas lentes para revelar o impacto do cinema na vida dos moradores de Dois Córregos (73 quilômetros de Bauru).
Guilherme integra uma legião de pessoas na cidade que vivenciam cultura. A produção audiovisual encontra em seo Chico Telles um apaixonado. Francisco Augusto Prado Telles, 68 anos, mantém viva a magia do cinema ao exibir filmes no formato 35 milímetros no antigo Cine São Paulo, atualmente Centro Cultural “Nilson Prado Telles”.
A paixão pela arte da tela grande em Dois Córregos carrega para frente da telona gerações. Muitas pessoas tiveram o primeiro contato com a arte cinematográfica, espetáculos de teatro e ópera no prédio na avenida Dom Pedro I. Guilherme se empolga ao citar “Tá Dando Onda”, animação protagonizada por pinguins. Daniele relembra que na sua primeira vez assistiu “A Família Addams”, durante uma divertida sessão com a turma da escola. O poeta José Carlos Mendes Brandão define como preciosidade a preservação do maquinário de projeção por Chico Telles.
O centro cultural também colabora para o aumento de público no tradicional Bar do Estudante, do casal Mário e Ofélia, que produz os lanches mixto quente e lombo.
Nas próximas páginas, o JC Regional retrata a magia que o cinema provoca, conta um pouco da história de pessoas apaixonadas pela sétima arte e sua integração com o novo, que resulta na preservação do patrimônio cultural de uma comunidade.
Tudo isso se passa no Centro Cultural “Nilson Prado Telles”, localizado na avenida D. Pedro I, nº 302, centro de Dois Córregos. Telefone (14) 3652-6441. Redes sociais facebook.com/cultura2corregos e http://centroculturaldc.zip.net/
Cine é paixão
Depois da primeira vez, as pessoas querem repetir a experiência de arrebatamento na frente da telona
Quando seo Chico Telles tinha a idade de Guilherme Henrique Apolinário, 7 anos, frequentador do cinema em Dois Córregos, seu pai Nilson Prado Telles já era dono do Cine São Paulo. Por volta de 11 a 12 anos, o menino Chico Telles ganhou porte físico suficiente para manipular as engrenagens dos dois projetores Triumpho, funcionando a todo vapor ainda hoje. A luminosidade é produzida por uma lanterna feita a carvão. Nos projetores de hoje a leitura do som é feita por feixe de laser projetado diretamente na trilha sonora impressa na película de 35mm.
Chico Telles promove sessões mensais no formato 35 milímetros. A Prefeitura de Dois Córregos aluga os filmes e paga as taxas aos órgãos fiscalizadores dos direitos. Seo Chico Telles e Daniele Soffner, coordenadora do Centro Cultural “Nilson Prado Telles”, escolhem as atrações. A exibição geralmente recai para um título blockbuster que já fez sucesso no circuito de salas de shoppings mas ainda atraem pessoas apaixonadas pelo formato telona e som arrebatador. O ingresso é simbólico. A pipoca é sagrada. Ninguém se incomoda com as 400 poltronas de madeira fabricadas pela FANA, empresa que existiu em Dois Córregos. Os assentos foram instalados em 1948, ano em que seo Nilson Telles promoveu uma modernização do espaço do cinema. Modificou a entrada principal com a instalação de duas portas sanfonadas, construiu a marquise e o assoalho de madeira ganhou inclinação. O prédio foi construído em 1910.
Nas sessões mensais, Chico Telles é acompanhado pelo neto e por outros familiares. A cabine de comando de projeção é minúscula. Porém a emoção supera qualquer contratempo. Ele comenta que deseja que o neto prossiga com a tradição da sétima arte que ele cultiva desde garoto.
Para tanto, planeja que o rapaz digitalize as cópias de película do seu acervo. Isso significa que neto e avô ainda assistirão muitos filmes juntos.
Lembranças do cinema em Dois Córregos
José Carlos Brandão
Sempre me lembro de um fato surpreendente. A primeira sessão de cinema em Dois Córregos foi em 25 de setembro de 1902. Veja: a primeira sessão de cinema da história foi em 28 de dezembro de 1895. No Brasil, em 1898. Como chegou em tão pouco tempo a uma cidadezinha perdida, sem importância nenhuma? Correção: Dois Córregos era uma cidade muito rica, nos tempos áureos do café, até a queda da bolsa em Nova York, em 1929. Haveria condições para trazer, tão prioritariamente, o cinema a Dois Córregos.
Lenda ou não, é verdade que o cinema se tornou um fenômeno central na vida da cidade. O cinema não é a fábrica dos sonhos? Eu morava na roça, bem distante da cidade, só o cinema poderia me proporcionar tantos sonhos. Havia os filmes de aventura, os grandes épicos e filmes ingênuos que agradavam grandes e pequenos. Antes dos filmes havia um seriado que sempre terminava com o mocinho ou a mocinha em perigo extremo. Assim, não importava qual o filme principal, sempre havia aquela história cheia de perigos e um herói que era preciso salvar.
Eu me admiro de ter visto no Cine São Paulo, de Dois Córregos, “M - o Vampiro de Dusseldorf”, uma das principais obras do Expressionismo Alemão, uma das obras primas de Fritz Lang, de 1931. Uma raridade, projetada no cineminha de Dois Córregos. Eu já era universitário, sabia o que estava vendo. Pouco depois foi fundado o cineclube do BTC, aqui em Bauru, onde pude ver muitos filmes de arte, mas já vira um dos maiores desses filmes na minha pequena Dois Córregos.
Vou concluir com um fato pitoresco. Em 1954 foi o centenário de Dois Córregos e fizeram um filme para documentar as comemorações. Eu tinha umas tias que só saíam de casa para ir à igreja, mas no dia do aniversário da cidade, 4 de fevereiro, iam ao cinema ver o filme do centenário. Uma delas aparecia na fita, e era como se eu as ouvisse exclamar: “Olha ela lá!” Terminado o documentário, sem esperar pelo filme do dia, saíam de cabeça baixa, mas muito felizes. (José Carlos Brandão é poeta, membro da Academia Bauruense de Letras e nascido em Dois Córregos).
Cidade com alma cinematográfica
O diretor Carlão Reichenbach filmou “Alma Corsária” no município e “Dois Córregos”, com figurantes da cidade
Dois Córregos faz um mix de ambiente de município tranquilo do Interior e ares cosmopolitas. O Centro Cultural “Nilson Prado Telles”, antigo Cine São Paulo, e a ONG Usina de Sonhos irradiam cultura. Nos dias em que o cinema não é atração, o centro cultural é palco para dança, música e ópera.
Em setembro de 1992, a prefeitura alugou o prédio do antigo cinema para instalar o Centro Cultural “Nilson Prado Telles”, em homenagem ao pai de Chico Telles, falecido em 1 de fevereiro de 1981. Desde dezembro de 2011, a cidade é um dos polos do programa PontosMIS, projeto do Museu da Imagem e do Som (MIS), instituição da Secretaria de Estado da Cultura, e que leva sessões de cinema e oficinas de audiovisual gratuitas para municípios de São Paulo.
Daniele Soffner, coordenadora do centro cultural e responsável pela implementação do PontosMIS na cidade, relembra que Dois Córregos teve o privilégios de receber o projeto piloto. O projeto em Dois Córregos deslanchou e não para nem para férias. “Parei só no Natal”, salienta, destacando o vínculo do público com a programação. A ideia inicial previa no mínimo três sessões de cinema durante o mês, disponibilizou equipamento digital e uma caixa com 45 DVDs contendo filmes de arte, nacionais e animações.
Dani comenta que chegou a exibir filmes para um único espectador, postura que angariou o respeito da comunidade que, agora, entende a importância de uma programação de filmes o ano todo e que dificilmente serão vistos nas salas convencionais de shoppings.
O formato atual destina dois programas para adultos e crianças com a exibição de um longa-metragem e um curta às quartas, quintas e sextas, no período da tarde para o público infantil e, à noite, para adultos. Em dezembro do ano passado, o PontosMIS em Dois Córregos teve programação especial com um minifestival de filmes argentinos.
A programação do PontosMIS em Dois Córregos tem o glamour de exibir filmes inusitados e preservar um ambiente em extinção, pois cinema de rua foi inviabilizado pelo modelo de salas multiplex. Um dos sucessos recentes da programação foi “Meninos de Kichute”, filme de 2010 e dirigido por Luca Amberg.
Dani foi surpreendida com ligações da avó do ator-mirim Lucas Alexandre, protagonista do filme, da mãe do menino e do próprio garoto querendo saber do sucesso do filme em Dois Córregos. “Meninos de Kichute” é um livro do escritor Márcio Américo publicado em 20030. O filme foi lançado somente no pacote de filmes do PontosMIS.
Aprendizado
As vagas para as oficinas de audiovisual, como fotografia em várias plataformas, são preenchidas rapidamente. No dia 9 de março, o tema será “A Música do Filme - Das Origens aos Novos Olhares Sobre a Música de Cinema”, coordenada por Tony Berchmans. Ele abordará o universo da música de cinema das origens, a evolução da composição musical no cinema, a importância da música na narrativa cinematográfica, os compositores de trilha sonora e os novos olhares e tendências da composição da música do cinema contemporâneo. Podem se inscrever interessados a partir de 16 anos, e existem somente 20 vagas.
Ópera
O palco do centro cultural também recebe apresentações de ópera de um programa do governo estadual. Daniele relembra que foram encenadas as montagens de “Carmen”, de Georges Bizet; La Traviata, de Giuseppe Verdi; e La Bohème, de Giacomo Puccini. De acordo com Dani, os atores não costumam utilizar microfones graças à perfeita acústica do “Nilson Prado Telles”.