10 de julho de 2026
Articulistas

O blog que move a ilha de Fidel

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 5 min

O regime de Fidel Castro esgotou-se há muitos anos. Somente a família Castro parece não se aperceber. A Revolução Cubana foi legitimada pelo povo num momento em que a Ilha era um imenso bordel dominado por gangsteres de Chicago e de Nova York. As mestiças cubanitas, com sua beleza natural e sensualidade, eram uma atração irresistível para os entediados homens de negócio dos Estados Unidos. Foi preciso mudar e Fidel conseguiu acabar com a farra à custa da miséria do povo. A Revolução Cubana seria identificada, na origem, como um movimento pequeno burguês, segundo as lições de Marx. Fidel e seus companheiros, no assalto ao Quartel de Moncada, pretendiam apenas derrotar o governo ditatorial de Fulgêncio Batista, que detinha o país sob cruel regime policial, torturava prisioneiros e submetia a imprensa à censura férrea. A corrupção grassava no Estado, dos contínuos aos ministros. A arrogância americana, na defesa das suas empresas, acabou empurrando Fidel para o socialismo e alinhamento com a antiga União Soviética. As reformas foram boas para o povo cubano. O pouco que havia foi dividido entre todos. Pelo menos a miséria diminuiu. Todos passaram a ter acesso à educação e ao emprego. A economia cresceu com o açúcar bem pago pelos soviéticos, trocado pelo petróleo subsidiado.

Isto foi em 1953, já há quase 60 anos. Como "dose de choque", foi ótimo. O ditador esclarecido também não tem direito de se eternizar. O ser humano nasceu para ser livre, dono do seu próprio arbítrio. Fidel perdeu a chance de modernizar politicamente a Ilha. De inseri-la no mundo como fez a Rússia e hoje faz a China. É preciso, no entanto, ouvir os conselhos do sábio Spinoza: não lisonjear, não detestar, mas compreender.

Ao assistir pela televisão às agressões das quais foi vítima a blogueira cubana Yoani Sánchez sentimo-nos atacados naquilo que mais prezamos e propalamos: o direito do cidadão. Foi emblemática a reação da dissidente ao desembarcar no Brasil e ser recebida por manifestantes favoráveis ao regime cubano, que gritaram palavras hostis e lançaram dólares falsos na sua direção. Com a mesma serenidade que recebeu a permissão para sair de Cuba depois de 20 tentativas frustradas, ela comentou: "Gostaria que as pessoas em meu país pudessem fazer o mesmo e tivessem essa mesma liberdade para se manifestar".

A viagem de Yoani Sánchez tem este significado para ela e para Cuba. Não representa apenas um questionamento do regime, mas também, e principalmente, a possibilidade de uma abertura irreversível que beneficiará todos os cubanos e facilitará as relações do país com as demais nações. É uma viagem para a liberdade e, como disse Albert Camus, liberdade é sempre a possibilidade de ser melhor. O mundo mudou a ponto de permitir que nasça de um simples blog o emblema contestatório e de denúncia de um regime. O ciberespaço é impossível de ser contido e é capaz de estragos consideráveis pelo poder de corrosão. Até os poderosos Estados Unidos da América já tremeram diante do WeekLeaks com suas postagens de documentos verdadeiros, por fontes anônimas. Yoani nega ser ciberdissidente ou ciberativista. Ela não tem sequer cor política. Nem de esquerda e nem de direita ? "estes são conceitos cada vez mais obsoletos". A cubana é filóloga, viveu na Suíça, voltou à Cuba por problemas familiares. Resolveu usar a internet como uma terapia fazendo vinhetas desencantadas sobre problemas que todos conhecem. Aspirava ser uma porta-voz da sua geração: dos nascidos em Cuba nos anos setenta e oitenta, marcados pelo racionamento, pela internação compulsória em escolas no campo, as bonequinhas russas como únicos brinquedos, o paternalismo, as saídas temerárias em balsas precárias no sonho enlouquecido uma nova vida na Flórida, a moral dúbia e as frustrações. Quem foi a Cuba conhece as filas enormes para se tomar um simples sorvete, certamente sofreu a abordagem de jovens encantados por sua calça jeans ou um tênis de marca. Nos melhores hotéis, restaurantes e boates somente têm acesso estrangeiros com moedas fortes. Cubanos não são permitidos às instalações turísticas. Como me disse um jovem estudante de Comunicação, quando lá estive, "La vida no está en outra parte, está en otra Cuba". Yoani começou a postar reflexões sobre os problemas do cotidiano e do isolamento da Ilha. No país não há livre acesso à internet.

A hora custa o equivalente a uma semana de trabalho de um profissional de nível. A blogueira começou a receber centenas de elogios e também de críticas. A onda foi crescendo e, há dois anos ela ganhou o Prêmio Ortega y Gasset do jornal espanhol El País. Yoani foi selecionada pela revista Time entre as 100 pessoas mais influentes do mundo. O seu blog "Geração Y" foi considerado um dos 25 melhores do mundo. Converteu-se em um fenômeno comunicacional. Em um mês (setembro) registrou 14 milhões de entradas, somente em espanhol.
Seus posts são traduzidos em 16 línguas. As referências a Sánchez no Google chegam a um milhão. Sua biografia na Wikipedia é quase do mesmo tamanho que a de Fidel Castro. Aos 34 anos, Yoani deu respiro aos esgotados dissidentes cubanos, com um novo tipo de oposição política. A visita ao Brasil tornou-se um acontecimento midiático, graças aos grupos organizados que foram apupá-la nos aeroportos e impedi-la de autografar livros ou de assistir a um documentário em que participa. Nem a rainha da Inglaterra conseguiria espaço superior nos noticiários. Quem visita Cuba ? e vale a pena conhecer o povo solidário, mais do que as lindas praias de Varadero ? acabam se convencendo que a maior oposição a Fidel Castro é a própria realidade do país.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC