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Reprodução/internet |
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Obesidade pode ter relação direta com bactérias e não com a dieta: e agora? |
1980 - Menino, não fale assim, diga apenas que o indivíduo foi operado porque tinha aquela “doença”. Diga doença “ruim”, câncer não! Como se existisse doença boa!
1990 - Foi operado, tinha úlcera no estômago, ele era muito raivoso. Qualquer coisa o deixava ansioso. Mas agora curou! E ficou mais calmo? Claro que não. Ansiosos eram poucos, agora predominam: que loucura!
Depois de décadas, descobriu-se que boa parte do que era considerado “câncer de estômago” era uma úlcera resultante da ação da bactéria Helicobacter pylori. Mas muitas pessoas foram operadas e tratadas cirurgicamente. A ciência insiste, persiste e avança; ela representa a busca constante da verdade o que significa desmontar verdades anteriores. Assim também foi com o câncer do colo de útero e outros que tem uma forte relação e associação com o vírus HPV.
As pesquisas revelam que não conseguiríamos viver sem os 100 trilhões de bactérias que temos no organismo e que contrastam com as nossas 10 trilhões de células. Neste número não estão contando os fungos, os vírus, os parasitas e outras formas microscópicas, apenas as bactérias. Se removermos os microrganismos do corpo, morreremos! Parece-nos essencial o estímulo constante que nos induzem a reações, sem a quais não sobrevivemos.
Sempre precisamos nos enquadrar em um contexto coletivo. O mais egoísta e eremita dos homens precisa do social, da interação com outros seres, mesmo que sejam microscópicos em seu tamanho, mas gigantescos em seu número e envolvimento. Por exemplo, sem bactérias intestinais, não temos vitamina K, essencial para a coagulação sanguínea.
Os paulistanos
Aos que nascem e vivem na cidade de São Paulo dá-se o nome de paulistanos; os do interior são paulistas! Em cada grupo de dez paulistanos, três são obesos, revelou uma pesquisa feita com 15 mil pessoas em 2012. Em 19% da população paulistana a obesidade revela-se de grau 1, enquanto que 7,2% está no nível 2 ou médio; a obesidade tem grau 3 em 2,7%, quando recebe o triste nome de mórbida.
Em 37,4% dos paulistanos detectou-se um sobrepeso que ainda não permite chamá-lo de obesidade, mas de cheinhos ou fofinhos! Ou seja, são 66,4% de cheinhos e obesos. Esta pesquisa foi realizada pelo Programa Meu Prato Saudável do Incor e do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP.
Os meios de comunicação e profissionais se referem ao assunto como uma verdadeira epidemia, um termo reservado para uma distribuição generalizada de uma doença induzida por um agente infeccioso. As vezes tenta-se delinear o perfil psicológico e comportamental de um obeso, mas no nível que estamos, como caracterizar 66,4% da população?
Bactérias
Os vários tipos de procedimentos para reduzir o estômago como as cirurgias bariátricas se tornam cada vez mais populares, principalmente porque se descobriu, por exemplo, que nos diabéticos, o procedimento também elimina-o ou controla-se de forma mais eficaz.
De novo vem a ciência com sua busca constante da verdade, nos revelar que podemos estar errados em nossos conceitos sobre peso e obesidade. Uma bactéria pode ser a responsável por este fenômeno tanto no homem como em roedores em laboratório. Um grupo de pesquisadores chineses da Universidade Jiao Tong em Xangai apresentaram evidências muito fortes de que a obesidade estaria ligada à bactéria Enterobacter cloacae B29 publicadas na Revista da Sociedade Internacional para Ecologia Microbiana.
Em humano com 174kg os pesquisadores modificaram a dieta com mingau a base de grãos medicinais e prebióticos para diminuir a população da bactéria suspeita no trato gastrintestinal, no qual ela representava 35% da microbiota. Em 23 semanas houve uma redução de 51,4kg e não se conseguiu mais coletar ou encontrar esta referida bactéria nos exames.
Em dois grupos de camundongos os pesquisadores disponibilizaram uma dieta hipercalórica, mas em um dos grupos injetaram e contaminaram os animais com a bactéria Enterobacter cloacae. Nos animais contaminados a obesidade se manifestou e o diabete também!
Os resultados podem mudar completamente o tratamento da obesidade, sobrepeso e diabete e ainda explicar porque alguns comem muito e não ganham peso. Quantos sentimentos de culpa poderão ser eliminados com esta explicação! O perfil psicológico predominante vai mudar, as implicações serão muitas e diremos: mais uma “epidemia” controlada!
Observatório
Leishmaniose silenciosa - Uma pessoa aparentemente normal pode ter o parasita da leishmaniose visceral nas células sem nenhum sinal ou sintoma. Em Belo Horizonte foram mais de 1255 casos nos últimos dez anos. Mariângela Carneiro liderou uma pesquisa na UFMG para verificar quantas crianças da cidade tinham o parasita no corpo, publicada em 2012 no PLOS NTD. De 1875 crianças, 16,9% revelaram nos exames o contato com o parasita, embora sem sinais da doença, o mesmo sendo verificado 1 ano depois. As crianças tinham uma carga baixa de 56 parasitas por ml de sangue, 40 vezes menor do que nos casos com sintomas. Em Sabará, MG, 8% da população tem o parasita no organismo.
“Doenças esquecidas” - As denominadas “doenças negligenciadas” ou esquecidas pela ciência e tecnologia representam 11% das doenças no mundo, mas apenas 1,4% dos artigos publicados e 3,8% dos novos medicamentos são aplicáveis a elas. São as doenças de “pobres” ou tropicais como a leishmaniose, Chagas e a dengue. Mesmo assim, o Brasil, China e Índia que são muito afetados por estas doenças e têm recursos financeiros, não investem para descobrir novas abordagens farmacêuticas. Isto foi revelado pelos Médicos Sem Fronteiras e pelo Drugs for Neglected Diseases Initiative que defende uma colaboração global para a produção de novos medicamentos.