Vendo o filme e lendo o livro sobre o qual Steven Spilberg se baseou para sua obra, oportuno registrar um fato que não foi mencionado no filme, mas é citado no livro. Trata-se de um projeto de colonização, que envolvia os afro-americanos, isto é, negros. A pesquisadora e doutoranda em História Maria Clara Sales Carneiro Sampaio, em artigo no site Carta Maior, sob título "Lincoln, nem tanto ao céu, nem tanto à terra", escreve: "os projetos de colonização, como foram chamados na época, tinham intenções comerciais de caráter abertamente imperialistas.
Pretendia-se que companhias norte-americana adquirissem terras em localidades geoestratégicas para receber afro-americanos, que serviriam como mão de obra no cultivo de produtos de exportação, principalmente algodão. Embora não tenham sido concretizadas, as iniciativas alimentaram incômodas negociações diplomáticas, que eram recebidas com grande temor pelas recentes repúblicas centro-americanas".
Tal projeto era uma das soluções aventadas para resolver o problema do negro nos EUA, nunca aceitos como seres humanos, mas sempre tratados como objetos descartáveis, principalmente no Sul. O governo americano já tinha comprado um território na África (Libéria), para onde seriam enviados os africanos. Tudo para não aceitar, de modo algum, que a escravidão dessa raça fosse abolida, e menos ainda que fossem concedidos direitos civis (por ex., direito de votar), no caso de fim da servidão.
O Brasil, onde a escravidão só foi abolida 40 anos depois da americana, era uma das escolhas para fixar os escravos. O filme silencia a respeito e o livro de Doris Kearns Goodwin, merece apenas uma nota de rodapé da tradutora, na pagina 187.
A tratar as efemérides sobre Abraham Lincoln como uma forma de satisfazer o imaginário norte-americano, nossa articulista e historiadora foi feliz no titulo: nem tanto ao céu, nem tanto à terra, isto é, sem desmerecer a descomunal importância de Lincoln nos eventos da história, registra um fato desconhecido da maioria das pessoas, para se avaliar o quanto a possibilidade de fim da escravidão incomodava os norte-americanos. Mesmo hoje, o racismo continua presente abertamente nos EUA, em que pese ter um afrodescendente como presidente, e mesmo no Brasil ele existe, ainda que disfarçado.
Por isso se diz que o livro é sempre melhor que o filme, em todos os casos de filmagem de obras literárias ou históricas. O cinema ainda registra um fragmento da história, fixando-se nos pontos que roteirista e o diretor julgam os mais importantes. PS - Sendo um cinéfilo irrecuperável, visitando salas de exibição todas as semanas, preocupa-me o fato de não ter visto (se é que existem), saídas de emergência sinalizadas em nossas salas de projeção. Com a palavra, a prefeitura e Corpo de Bombeiros.
Faukecefres Savi - advogado e jornalista-colaborador