08 de julho de 2026
Geral

Egoísmo assassino

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 3 min

Crimes passionais, de forma geral, são associados ao individualismo. Ferido no orgulho de perder alguém tido como “propriedade” o agressor prefere tirar a pessoa do mundo do que vê-la com outro par. Essa é a visão da psicologia, sociologia e de estudiosos na área criminal sobre homicídios movidos por passionalidade.

Psicólogo e policial civil, José Renato Garrote Teodoro acredita que esta modalidade criminal, diferentemente dos infratores “comuns”, apresenta autores que, apesar de arrependidos após o ato extremo, demonstram extrema individualidade e menor tolerância à frustração. “É uma questão pessoal numa sociedade voltada ao individualismo”, analisa.

Sociólogo, Murilo César Soares, a exemplo da procuradora de Justiça Luiza Nagib Eluf, autora de dois livros sobre crimes passionais, também atribui a autoria da maior parte dos crimes do gênero aos homens. “O sexo masculino é mais agressivo a começar pela questão hormonal. O número de prisões é de esmagadora maioria masculina”, exemplifica.

O fator cultural, em que o homem perderia a “propriedade” sobre a mulher, conceitua o sociólogo, também seria preponderante para o desencadear de crimes violentos cometidos por homens contra vítimas do sexo oposto. “O ciúme não é sinônimo de amor”, classifica a autora de “A Paixão no Banco dos Réus”. “Ninguém é de ninguém”, define.

A passionalidade que move assassinatos, contudo, é instantânea. Depois que o sangue ferve, a agressividade some, a partir do instante em que o ressentimento surge. Semana passada, após estrangular a namorada e incendiar o corpo da vítima, conforme confissão feita à Polícia, o garçom Inácio dos Santos Amaral alegou arrependimento.

É o que revela o delegado seccional de Bauru,  Marcos Mourão. “Ele (o acusado) afirmou estar arrependido. Ao menos disse, mesmo sem manifestar qualquer emoção”, descreve o chefe da Polícia Civil na região. “É um tipo de crime explosivo, emocional, que foge à compreensão policial”, reitera, lembrando que uma das motivações do assassinato foi uso de drogas.


Não sai no jornal

Longe dos holofotes que pairam sobre os casos mais chocantes, outros crimes mais moderados, porém, com o mesmo motivador, são cometidos diariamente e, muitas vezes, servem de trampolim para episódios de maior gravidade.

Locutor e repórter policial desde os anos 1970, Chico Cardoso lembra que o que fica apenas nos autos pode se transformar em tragédia. “Muitos fatos registrados como simples lesões corporais escondem potenciais vítimas que não são amparadas”, lembra o experiente radialista. “Muitos outros episódios nem chegam ao conhecimento mesmo da polícia”, cita.

Locutor da rádio Auri-Verde AM, Chico observa crescimento no número de crimes passionais. “O pavio está mais curto”, acredita.


Sem prevenção

Kleber Granja, titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) em Bauru qualifica esse tipo de infração criminal como fruto de “violenta emoção”. Outro diferencial, observa o policial, é a dificuldade de prevenção, segundo ele, algo praticamente nulo. “Por mais que haja campanhas contra armas de fogo, boa parte dos casos envolve armas brancas”, observa.

Exceção à regra da falta de premeditação sobre a passionalidade, o crime da semana passada, em que um garçom assassinou a cozinheira de uma choperia, em decorrência de desentendimento amoroso resultante do uso de drogas, por parte dele, lembra o delegado seccional Marcos Mourão, fatos movidos pela paixão fogem dos estereótipos.

“As causas são mais amplas que a compreensão policial. São atos extremos, mas preocupantes pois, às vezes, ocorrem sequências”, salienta o policial, comparando os fatos às eventuais séries de suicídios.