04 de abril de 2026
Cultura

De Bauru para os quadrinhos

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 6 min

Um sorriso marcante, dentes grandes, estatura baixa, também gosta de vermelho e é invocada. Qualquer semelhança com a Mônica, a personagem gordinha e dentuça dos quadrinhos mais famosa do Brasil e que completa 50 anos neste domingo, não é mera coincidência. Afinal de contas, falamos de Mônica Sousa, filha do desenhista Maurício de Sousa que foi sua grande inspiração para criar a Mônica dos gibis. Mas, além de todos esses fatos em comum, as duas mais famosas “Mônicas” do Brasil têm um pedacinho importante de suas histórias em Bauru.

A filha de Mauricio é bauruense e nasceu na cidade na época em que ele morou aqui por aproximadamente dois anos, de 1960 a 1962.  Depois, Mauricio precisou voltar para Mogi das Cruzes, onde passou parte de sua infância, para vender suas primeiras tirinhas. Foi lá também que o roteirista teria dado vida à Mônica dos quadrinhos. E o mais curioso é que há mais “bonecos” das historietas do Mauricio copiados de gente de verdade que têm ligação com Bauru - Titi, o menininho de camisa listrada que aparece nos quadrinhos do Bidu, e Franjinha são baseados em dois sobrinhos do Mauricio, que são de Bauru.

Quando a Mônica da vida real completou três anos, a personagem surgiu, com características bem parecidas com as da Mônica Sousa, que se vestia de vermelho e carregava um coelhinho na mão. A garotinha, então, foi quem deu as bases para os primeiros traçados do desenhista. E nem mesmo Mauricio esperava que a personagem baseada na bauruense viraria sua grande protagonista e carro-chefe de venda de revistinhas.

A dentuça dos gibis teve sua primeira aparição em 3 de março de 1963, em uma tira do Cebolinha e, pouco tempo depois, já encantava os leitores – tanto que ganhou a liderança da turminha. Ao Cebolinha, só restou mesmo bolar seus planos infalíveis, na tentativa de retomar o “poder”.

Atualmente diretora comercial da Mauricio de Sousa Produções, Mônica Sousa diz que sabe pouca coisa sobre Bauru, mas tem vontade de voltar à cidade com o pai para conhecer o bairro onde morou. Confira a entrevista cedida por ela ao JC Cultura:


JC - A pergunta que não quer calar - o que você se lembra de Bauru?

Mônica - Eu não me lembro de Bauru, pois meu pai mudou-se pra Mogi um pouco antes de eu completar um ano. Então, sei pouco sobre cidade. Só me lembro mesmo é do sanduíche (risos). Às vezes, passo no Ponto Chic, em São Paulo, e peço o lanche Bauru, pra lembrar da cidade. Eu e minha família fomos algumas vezes para Bauru quando eu ainda era criança. Mas agora Bauru já deve estar bem diferente daquela época. Também já passei por Agudos, entre outras cidades da região. Meu pai voltou para Mogi das Cruzes, onde passou a infância, já que lá era mais perto da Capital, então era mais fácil para ele vender as tiras. E a Mônica personagem surgiu quando eu tinha uns dois/três anos, quando eu já residia em Mogi.


JC - Mas você tem vontade de voltar pra cá, de fazer uma visita?

Mônica - A família da minha mãe morava aí, também tive uma amiga na adolescência que frequentava muito Bauru, pois os familiares dela eram da cidade. Eu tenho muito carinho por Bauru, mas não tive oportunidade de visitar o município novamente. Tenho vontade de passar pela cidade, junto com meu pai, pra ele me levar onde eu morei.


JC - E quando você descobriu que a Mônica das historinhas do gibi era “você”?

Mônica - Pra mim não existia isso, de que eu era Mônica; pois eu via meu pai desenhando vários personagens. Mas, quando eu entrei na escola, foi quando eu comecei a sentir a grandeza que ele estava fazendo (risos). E comecei a perceber a importância da Mônica... Então aí eu percebi essa relação com ela e descobri nesta época que eu era a filha do Mauricio que inspirou a criação da personagem. E me sinto honrada por isso!


JC - E você se parece com a Mônica, sua feição lembra um pouco, não é? As pessoas fazem essa relação?

Mônica - Vocês é que acham que eu pareço a Mônica! (risos). Mas sim, eu sou baixinha igual a ela, tenho os dentes grandes, assim como toda a minha família. Sou invocada também, tenho o pavio curto.


JC - E como você avalia essa trajetória da Mônica atravessando várias gerações, com estórias dela criança até mais “mocinha”?

Mônica - A Mônica clássica faz sucesso até hoje porque ela é atual. A criança que nasce hoje e lê gibi acha que a Mônica nasceu na mesma época que ela. Então a personagem tem várias idades, dependendo da idade que o leitor tem. Se você tem 25 anos, você acha que a Mônica tem a mesma idade, se você tem 30 também. Mas a criança, depois de uma certa fase, abandona o gibi. E isso começa a acontecer na pré-adolescência, então a Turma da Mônica Jovem foi uma maneira da gente conquistar essa moçada que já estava abandonado o gibi. E conseguimos isso, pois a Mônica Jovem vende tanto como a Mônica clássica. A gente vai ter também o “Chico Bento moço”, que é o Chico jovem.


JC - Você acha que o gibi ainda é tão presente assim na vida das crianças, ainda mais em tempos de Internet e videogame?

Mônica - Por mais que o tempo tenha passado, o gibi é algo ainda muito forte, algo que se pode notar pelo alto índice de vendas. Nós detemos 86% do mercado brasileiro na área de quadrinhos infanto-juvenis, nas bancas. A empresa é grande, mais de 300 funcionários, tem departamento comercial, de artes, de quadrinhos, animação, teatro... a gente é meio verticalizado, faz de tudo um pouco. E toda parte dos gibis é feita ainda de maneira artesanal, pra passar o carinho, o cuidado que a gente tem com a criança, pois sabemos que aquela publicação poderá ser a primeira leitura dela. A gente acha fundamental isso, porque vemos a criançada lendo, elas ficam compenetradas.


JC - E o Mauricio de Sousa pensa em se aposentar?

Mônica - O Mauricio está muito novo; tem 77 anos e está com tudo. Nós temos um número grande de roteiristas, mas ele avalia todas as estórias, ele aprova ou não, está sempre acompanhando tudo.


Você sabia que...

Segundo a Mauricio de Sousa Produções, mais de um bilhão de revistinhas foram vendidas em todo o mundo desde 1970, quando o primeiro gibi da Mônica foi publicado?

A Turma Jovem, voltada ao público adolescente, atinge picos de 600 mil cópias por edição. Nos EUA, por exemplo, gibis como “Homem Aranha” dificilmente alcançam a marca de 200 mil?

Com roteiros de Walcyr Carrasco, a mais nova revista de Mauricio de Sousa chegará às bancas em 2017, com o título de aposta do cartunista para os próximos 50 anos?