09 de julho de 2026
Articulistas

Visões do paraíso

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O cérebro humano tem 90 bilhões de neurônios interligados em 100 trilhões de sinapses. É a estrutura mais complexa do Universo. Não é a toa que cada um pense de um jeito, imprevisível muitas vezes, como resultado dessa cacofonia. Por esta razão primeira sou favorável à crítica e à contestação da crítica. Acho salutar a diversidade de pensamento, mesmo porque, como diria Caetano, o atrito é a base do sexo. A liberdade de manifestação do pensamento é mais ampla que o direito de informar e de ser informado. A liberdade de se expressar deve ser reconhecida mesmo aos mentirosos e loucos. Portanto, não pode ser monopólio do Estado.

Quando era jovem estudante defendi muito Cuba e os ideais de uma sociedade mais justa sonhada pelos revolucionários. Compreendi, mais tarde, que os grupos de extrema esquerda usam um tipo de pensamento binário e totalizante. Na verdade, nossas crenças de juventude não eram esquerdistas, mas simplesmente autoritárias, fruto do desejo de uma explicação simplória e totalizante do mundo. Reclamava outro dia o jornalista Vladimir Saflate, da repetição dos discursos , das mesmas denúncias de um século, com o objetivo de destruir valores da liberdade individual e da democracia liberal. "Ideias são mais letais que palavras" (Lênin) e é preciso sufocá-las". Ou seja, querem tratar o povo como rebanho sujeito a "ovelhas desgarradas", que precisam ser tangidas de volta ao aprisco.

Li várias vezes o blog da "ovelha negra" cubana Yoani Sánchez. Não entendi porquê, no Brasil democrático a receberam a pau e pedra. Negaram-lhe o direito de falar a quem queria ouví-la . Ela é chamada no mundo de "blogueira cega": não pode ver em Havana os seus escritos na internet, porque lhe negam acesso aos próprios posts. Num desses blogs, por exemplo, ela falava sobre receitas de pão, a "milenária combinação" de "farinha, água, levedura e fogo". Os pães da sua infância tinham poderes de fábula, com as massas transformadas em bonecos e bolinhas. No socialismo real ocorreu a "desmultiplicação do pão e do vinho" pela ineficiência do Estado. A blogueira tem uma visão miniaturista . Parece um escritora comprometida com as coisas pequenas. Uma das vinhetas fala das "Parabólicas" ? virou moda entre as famílias cubanas o uso de antenas clandestinas para conectarem-se e com a televisão do México e Miami. Eles instalam as antenas fabricadas por artesão, sob o telhado, para não ficarem à mostra. Desafiam a polícia sujeitando-se a multa e penas corporais. Há a história dos caminhões russos, brutamontes de carroceria alta, que agora servem como moteis. As hospedagens de curta duração são concorridíssimas. Os moteis têm filas enormes, principalmente nos finais de semana. Todos a pé, em fila dupla, aguardando uma vaga no lençol ainda quente desocupado pelo casal anterior. A criatividade mostrou que sob os caminhões da antiga União Soviética o orgasmo é possível. Basta levar uma toalha de mesa, mesmo com buracos, para tapar a visão dos voyeurs. Suponho que poderíamos analisar os textos de Yoani Sánchez utilizando o sistema criado pelos teóricos franceses e que o batizaram como "desconstrução". Realmente preocupante para quem quer que tudo continue como está, como se fosse a Ilha um Parque Jurássico, reservado à contemplação dos esquerdofrênicos ? o esquerdista dividido entre as coisas boas do capitalismo e as do comunismo. Diferentes dos esquerdopatas, patológicos, dispostos a eliminar os severos monstros da dominação ideológica que ainda assombram o seu sono. (Nelson Rodrigues, citado por Reinaldo Azevedo em No País dos Petralhas).

O mundo socialista ficou diminuto: Cuba e Coreia do Norte. Nem o Vietnã de Ho Chi Min resistiu à Sociedade em Rede e à economia de mercado. E quem quiser conhecer a Ilha no seu estágio primitivo deve se apressar. O governo de Raúl Castro parece dicidido a avançar. Há modificações concretas no sistema político cubano que estendem garantias constitucionais para o exercício de oposição pacífica. A licença para a blogueira viajar é um sinal. Já se admite o direito de propriedade. Uma das coisas boas de Havana são os Paladares ? restaurantes familiares onde é possível fugir da carne industrializada do governo e saborear, desde arroz com feijão (moros e cristianos) até lagostas grelhadas com molho de cebola. Esses comedouros nasceram inspirados na novela da Globo, Vale Tudo, com Regina Duarte, que tinha uma empresa chamada Paladar, que fornecia refeições. Os maiores escritores cubanos, como Alejo Carpéntier e Guillermo Cabrera Infante, que morreram auto-exilados na Europa, provavelmente iriam gostar. Revolucionários antes de Fidel, eles decidiram pensar o mundo. O nacionalismo é a cultura dos incultos. Não há um só pensador nacionalista que preste. Em Cuba, pelo menos os ditadores não são cretinos. Nem roubam e nem se autovangloriam com estátuas em praças públicas. Nenhum bronze de Fidel. A única estátua que vi é da heroina Ubre (Úbere) Blanca. Uma vaca que, em um só dia dava 100 litros de leite. Está também empalhada no Museu da Revolução. Os cientistas tentam cloná-la. E ao sistema também.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC