07 de julho de 2026
Ciências

Ossos e dentes têm memória !

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 5 min

Os ossos registram o que acontece no corpo, pois incorporam íons, proteínas e pigmentos que circularam pelo sangue nos últimos 4 a 10 anos de um adulto. Medicamentos também se incorporam pela afinidade com o cálcio do sangue: se unem e se incorporam no osso, como acontece com o flúor e a tetraciclina.

Talvez se ache normal que a maioria das pessoas saibam a quantidade de dinheiro que se tem no banco. Para estas pessoas, se pergunto quanto ossos têm, não sabem! Mensagem subliminar que passam: o dinheiro é mais importante que o corpo. No total, temos 206 ossos.

Se for um sedentário os ossos serão finos e curtos; se atleta ou soldado, serão espessos, longos e difíceis de quebrar. Pela composição química dos ossos, sabe-se o portador era vegetariano ou carnívoro.

A parte externa dos ossos são as corticais, a interna o trabeculado como uma esponja dura e cada filete se chama trabécula. Quanto mais denso for o trabeculado e mais espessas as corticais: o cara era um atleta. Com corticais finas e trabeculado delicado: deve ter sido jogador de baralho! Não adianta chiar: mais exercícios, ossos mais fortes; menos, ossos frágeis.

Este dinamismo faz o osso se unir quando fratura. Se imobilizar o osso quebrado, no coágulo sanguíneo volta formar osso para dar continuidade à estrutura. Neste lugar nunca mais a estrutura ficará igual antes, embora a função volte ao normal, mas com uma marca denunciando o fato para os arqueólogos.

Uma facada, flechada, fratura, tiro ou abscesso deixam marcas definitivas e identificáveis nos ossos. A exumação de túmulos é como abrir um cofre cheio de segredos e histórias. Analisar ossos é como ouvir o seu dono contar passagens da vida. Um pedacinho do osso, será o bastante. Pelo comprimento e largura dos ossos permite-se calcular altura, peso e formato dos tecidos moles ao redor. Pelos ossos, o computador reconstrói tudo fielmente, ou melhor, proporcionalmente: incrível!

A parte dura dos ossos está cheia de buraquinhos onde haviam células chamadas de osteócitos. Com a morte, estas células ficam ressecadas dentro de suas casinhas, sendo possível ao longo de anos, décadas e séculos, reidratar e desvendar o seu DNA: pronto já sabemos quem é e a qual família pertence: uaaau!


Dentes também!

Quando se queima o corpo sobram cinzas e ... dentes! Isto mesmo, os dentes podem resistir até mil graus de temperatura. Dentro dos dentes tem uma cavidade cheia de células da polpa, conhecida antigamente como “o nervo do dente”! Dependendo do dente e sua localização, o fogo não queima suas células centrais e o DNA pode ser recuperado e o portador identificado. Crime perfeito não existe!

Os dentes são formados do feto até os 16 anos, cada qual a seu tempo. Os íons, proteínas, aminoácidos, medicamentos e pigmentos se unem ao cálcio e se incorporam nos dentes definitivamente. Analisar os dentes também revela o estilo de vida de acordo com a cor, tamanho, forma, desgastes, restaurações, fraturas, perdas, próteses e fragmentos de alimentos em suas irregularidades. Mesmo que o portador tenha morrido a milhares de anos e seja apenas um dente isolado, ele pode contar quase tudo da vida de seu antigo dono: que perigo.


Não assassinou!

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP liderados pela historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel exumaram o esqueleto de D. Pedro I para saber um pouco mais sobre a vida do imperador e das duas esposas. Nas análises das imagens e exames aplicados soube-se que era baixinho, tinha quatro costelas fraturadas, ossos fortes e tinha dentes preservados com algumas manchas. Dona Leopoldina revelou ossos muito fracos, dentes destruídos e abscessos maxilares. Dona Amélia tinha apenas cinco dentes, morreu bem mais velha. A pesquisa resultou em Dissertação de mestrado defendida em fevereiro de 2013 no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.

Uma fofoca que virou verdade foi desmentida depois de 200 anos. Falava-se que D. Pedro I assassinou Leopoldina empurrando-a na escadaria do Palácio da Quinta da Boa Vista, onde residiam, o que provocara fraturas e infecção generalizada. Mentira, não havia qualquer sinal, mas os familiares dela esparramaram isto na Europa. Por isto, D. Pedro I teve dificuldade para encontrar outra princesa para casar, mas achou Amélia que revelou-se uma excelente companheira até a morte!

Fofoqueiros: mais uma vez comprovou-se que um dia a verdade prevalece, mesmo que demore, mas ela aparece! Assim seja.


Observatório

Ossos na TV – O seriado “Bones” de investigação forense tem  diferenciais marcantes e está na oitava temporada. Os principais personagens são o agente do FBI Seeley Booth e a antropóloga Dra Temperance Brennan do Instituto Jeffersonian onde investigam crimes em que não há mais carne no cadáver, apenas ossos, uma especialidade da Dra Brennan, apelidada de “Bones” pelo agente. Estreia em 7 de março na Fox, às 22:30hs.

Booth (David Boreanaz) é ex-atirador de elite do exército, pai de família dedicado, sociável, bastante religioso e com temperamento explosivo. A Dra Brennan (Emily Deschanel) é cientista, altamente inteligente, sem nenhum tipo de habilidade social, ateia, teimosa, fria, calculista e cheia de si. A dupla é charmosa e existe uma nítida atração sexual. Em cada episódio há debates sobre ciência e religião com conhecimentos tratados com muita seriedade. Os episódios são independentes entre si, sem continuidades. Vale a pena!


Revelações ósseas

1. Cientistas da Universidade de Leicester confirmaram pelo DNA que a ossada encontrada em estacionamento desta cidade inglesa era do rei Ricardo III que viveu entre 1452 e 1485 e foi imortalizado por Shakespeare. Os ossos revelaram escoliose e morte por projetil de arma de fogo.

2. O faraó Tutancâmon que viveu entre 1341 a 1323 a.C teve seus restos mortais reexaminados e o DNA revelou que era filho de uma relação incestuosa: seus pais eram irmãos. Revelou ainda que o faraó tinha malária.