09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Entre placebo e panacéia, umas pílulas de lítio


| Tempo de leitura: 2 min

Fomos derrotados. Vivemos uma guerra conta o crime organizado e fomos derrotados. Fomos derrotados tanto nos ataques do Comando Vermelho, no Rio, quanto nos ataques do PCC em São Paulo. Fomos (e somos) derrotados diariamente, como sociedade, nas grandes chacinas ou na agressão visual passageira, de ver uma gestante, de não mais de doze anos, desmaiada, pelo consumo de crack. Fomos (e somos) derrotados nas grandes capitais, nas cidades interioranas, no Complexo do Alemão ou na "biqueira" ali na esquina de casa ? estruturas que ajudam a por em funcionamento essa imensa engrenagem... Sejamos francos. Sabemos por experiência que, seja qual for o resultado desta ou daquela batalha, numa guerra não há vencedores ou vencidos e contabilizar baixas não serve de alento à nossa omissão individual, nem minimiza nossa inabilidade de organização como sociedade.

Como bons derrotados, temerosos de nos encararmos no espelho, optamos, inevitavelmente, num primeiro momento, por colocarmo-nos como meros observadores e críticos, buscando os responsáveis pelo fracasso. No entanto, em nosso íntimo, certamente já nos questionamos muitas vezes, pondo em xeque nossa complacência moral. Clamamos pela presença da polícia nos campus universitários, cada vez que um jovem estudante é assaltado ou uma jovem, violentada ali... mas, chamamos de truculenta e arbitrária a atuação dessa mesma polícia quando surpreende e prende estudantes, que ao invés de fazerem bom uso do ensino financiado por nós, passam as tardes se drogando nos bosques e alojamentos universitários. Tratamos, assim, em nosso glamouroso liberalismo, nossos jovens como "seres acima da lei" e os espaços acadêmicos como "terra de ninguém"... A cada nova tragédia saímos em passeatas, com camisetas de PAZ e faixas, pedindo por leis mais severas... mas, lembramos de voltar cedo para casa, pois à tarde, temos uma passeata pela liberação da maconha (e essa, não podemos perder por nada)... Debatemos enfaticamente a corrupção de nossos políticos. Criticamos severamente qualquer parcela da população que se posicione em desalinho com nosso discurso anarco-revolucionário engajado, chamando-os de "alienados" ou "analfabetos políticos"... mas aguardamos avidamente pela oportunidade de obtermos nossa pequena vantagem pessoal (nesse caso - justa e devida). Esquecemos, naquele breve instante, a máxima da hermenêutica que diz "o que está embaixo é igual ao que está em cima". Nessa linha de raciocínio, se faz necessário admitir que nossos políticos representam fielmente o que somos e o que temos de pior. Vivemos uma dualidade tênue... uma dicotomia baça... uma penumbra confiável... Essa, tem sido, nossa grande contribuição social.

E o que hoje nos constrange a vista, amarga a boca e custa ser digerido, nada mais é que o fruto viçoso daquilo que adubamos, durante anos, com nossa teorização e retórica. Neste faroeste caboclo - há muito previsto, distantes de uma solução, a melhor posição, é descermos da tribuna que nos confere poder crítico e guarida - e assim, de cara limpa - pormos de lado a hipocrisia, passeatas, bandeiras, e posicionarmo-nos, de forma verdadeira e corajosa, em um lado da trincheira.

Benedito José Almeida Falcão