Em 2008, o barco Comandante Sales adornou no Rio Solimões, na Amazônia, matando 48 pessoas. 27 anos antes, 685 pessoas morreram em dois acidentes similares com barcos na Amazônia. Todo este tempo de nada serviu para que o poder público e os donos de embarcações agissem de forma responsável, em respeito às normas de segurança. Tantas tragédias assistimos: queda de prédios, queda de aviões... Mas dia 27 de janeiro outra grande tragédia ocorreu na cidade de Santa Maria, obedecendo ao mesmo parâmetro infame de outros grandes desastres: empresários sedentos pelo lucro, irresponsáveis, negligentes, valendo-se de uma fiscalização superficial, trazendo à tona histórias de funcionários públicos, despachantes e policiais corruptos, cobradores de propinas, comerciantes de alvarás...
Tanto e tanto se falou no rádio, na TV, nos jornais impressos, nas revistas, sobre a tragédia na Boate Kiss, mas continuamos a presenciar cenas de negligência, de menosprezo à segurança alheia. Digo isto porque algo vem me incomodando. Há anos vou ao menos uma vez por semana a Pederneiras e ao passar em frente à entrada do Vale do Iguapó, por inúmeras vezes presenciei carros e motos saindo do Vale e cortando o canteiro central para pegar a rodovia no sentido de Bauru, ao invés de seguir alguns metros, sentido Pederneiras, para se valer do contorno existente para esse fim.
Esse "atalho" é tão usado que a grama nele já não mais cresce. Uma vez, tendo me assustado com um carro escuro que num entardecer se valeu deste "atalho", surgindo inesperadamente à minha frente, liguei para a Centrovias, que administra essa rodovia, relatando o que havia visto e sugerindo a instalação de uma barra de contenção em frente à saída do Vale do Iguapó. Porém, tamanha foi minha surpresa ao receber uma ligação, na semana seguinte, da mesma atendente, para me relatar que a engenharia da Centrovias estudou o caso e concluiu que não era o caso de instalar a sugerida barra.
Ontem, mais uma vez vi uma moto se valer do malsinado "atalho", entrando repentinamente à minha frente. Pensei em ligar para a Centrovias, mas lembrei que o departamento de engenharia dela já analisou o caso e viu que não compensa pôr uma barra de contenção no local. Ora! Será que precisa morrer alguém para instalarem uma simples barra de contenção ou abrirem uma valeta no canteiro central da rodovia em frente à entrada do Vale do Iguapó, de forma a impedir o irregular trânsito de veículos? Como no caso da Boate Kiss, que investiu, anos atrás, em palcos, camarotes, mezanino, parece preferir a Centrovias gastar com o corte de grama ao redor da rodovia, para embelezá-la, ao invés de investir na segurança dos seus usuários. Deixo aqui meu apelo ao poder público e aos representantes da Centrovias, para que não sejam negligentes. Há um atalho irregular, usado por motoristas imprudentes, que precisa ser fechado. Não vamos esperar um acidente ocorrer para tomar providências!
Cleber Speri, advogado